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Grupo Sinos
Publicado em 22/05/2014 - 16h26
Última atualização em 26/05/2014 - 17h50

Meditação tem hora na sala de aula

Parar por alguns instantes para respirar com calma é hábito em escola de Gramado

Gabriela da Silva* - gabriela.silva@gruposinos.com.br

Alunos do 5° ano da Escola Nossa Senhora de Fátima, de Gramado
 
 
Quando os alunos do 5° ano da Escola Nossa Senhora de Fátima, de Gramado, entram na sala já sabem: é hora de sentar confortavelmente na cadeira, fechar os olhos e respirar bem fundo. O momento de meditação é um hábito nas aulas coordenadas pela educadora Márcia Bianchi. “Na questão da aprendizagem melhora muito a memória, a atenção e a concentração”, destaca. A estudante Luana Lechner Dilkin, 12 anos, do 7° ano, sabe muito bem destes benefícios. Ela já não faz mais parte da turma de Márcia, mas conseguiu superar um medo de temporal que começou depois de presenciar o destelhamento de parte do prédio da escola durante um vendaval, em 2011. “Antes tinha trauma de temporal e minhas notas eram ruins, depois da meditação melhorei muito e passou totalmente o trauma”, conta.

Segundo Márcia, o momento de concentração no início ou no intervalo das aulas têm refletido em significativas mudanças no comportamento dos alunos. “Ajuda bastante na parte da afetividade, são turmas que chegam mais agressivas, onde um se importa muito com a vida do outro, e fazendo a meditação eles aprendem a olhar para dentro de si mesmos, ficam mais tranquilos para lidar com os outros”, observa. O hábito também tem melhorado a relação das crianças com os familiares, afirma Márcia. “Eles sabem que quando tiverem um desentendimento, podem usar esse método antes de ter uma reação. Vão para o quarto, se acalmam, para depois ter uma conversa”. A técnica usada na escola não tem cunho religioso e só inicia depois que todos os pais autorizam a atividade, que é apoiada pela associação Mente Viva e acompanhada por uma pesquisa desenvolvida pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). E tem dado tão certo que a direção da escola de ensino fundamental, que hoje conta com quase 400 alunos, espera ampliar o projeto. "Nossa gestão começou este ano, mas a antiga diretora começou com essa iniciativa e nós temos o objetivo de expandir para as outras turmas. Mas, primeiro, precisamos capacitar os professores. É algo que será construído pouco a pouco", comenta a vice-diretora da tarde da escola, Lisiane Pinto dos Santos.

Um estudo feito com estudantes da Califórnia, em 2008, comprovou que a meditação melhora o desempenho escolar. De acordo com a pesquisa publicada na revista Education, em 2011, entre os 189 participantes, aqueles que meditavam tiveram um aumento significativo no rendimento em matemática e inglês. Cerca de 41% melhoraram as notas, em comparação com 15% do grupo que não meditou. O trabalho coordenado pelo professor Ronald Zigler, da Universidade Estadual da Pensilvânia, mostrou também que a prática deixa os estudantes mais calmos, felizes e menos hiperativos. Em uma escola de San Francisco, onde o método vem sendo aplicado desde 2007, a meditação tem refletido em menos brigas. Duas vezes ao dia, os alunos da Visitacion Valley Middle School param por 10 segundos para fechar os olhos, relaxar o corpo e respirar profundamente. O hábito mantido através de um projeto chamado Quiet Time tem refletido em um melhor desempenho e um comportamento mais tranquilo por parte dos estudantes, que vivem em um bairro conhecido por altos índices de violência.

Mente Viva nas escolas
A professora Márcia Bianchi começou a meditação em sala de aula depois de participar de um curso com a associação Mente Viva, que tem como objetivo levar a prática para dentro das escolas públicas e passar adiante a “cultura da paz”. A organização surgiu a partir da parceria entre Mariela Silveira, médica diretora do Kurotel, e Anmol Arora, psiquiatra e terapeuta quântica indiana. Ambas já desenvolviam projetos parecidos, mas uma em Gramado e outra em Porto Alegre, quando em 2008 se conheceram e resolveram unir os trabalhos. Hoje, a Mente Viva está presente em mais de 60 colégios de 24 Estados. Tamanha expansão levou o grupo a criar um Kit Escola, que reúne material explicativo sobre meditação. Mais informações na página da associação no Facebook: facebook.com/mentevivars.
 
Com o tempo, o corpo se acostuma e passa a pedir a meditação
 
Para transformar em hábito
Meditar é ficar em silêncio por alguns instantes consigo mesmo, e isso pode ser em qualquer lugar e na posição mais confortável possível - não precisa nem ser na famosa postura de Lótus -, ensina a instrutora de yoga e meditação do Kurotel - Centro de Longevidade e Spa, Rosimeri Schneider. “Porém, meditar não é relaxar. O corpo sim entra num estado de relaxamento, mas a mente está sempre alerta, receptiva a tudo o que está acontecendo”, explica. Além disso, o hábito garante mais paz e calma no dia a dia. “Alguns adultos acham que não temos um botão de ‘liga’ e ‘desliga’, mas é importante usarmos sim o modo ‘desliga’. Nem sempre é necessário ficar em estado de alerta. É preciso parar para respirar. Quando estamos em meio ao caos, devemos voltar para o início, que é a respiração”.
 
Criar este hábito é fácil, basta parar cinco minutinhos todos os dias até que a mente e o corpo vão se acostumando com a prática. Depois, esse tempo vai aumentando para 10 minutos, 15 minutos, até chegar em meia hora ou mais. “Meditar concentrado na respiração é simples. Você não vai eliminar os sintomas de estresse, de ansiedade, de irritação, não vai excluir isso da vida, mas vai amenizar, vai saber administrar de uma forma mais tranquila”.

E esse meditar não significa esvaziar a mente, ficar sem pensar em nada. "Nossos pensamentos continuam ali, mas você vai prestar atenção neles. Se o pensamento desviar, volta a atenção para a respiração", observa a instrutora Rosimeri, destacando que ela deve ser feita com ar entrando e saindo pelo nariz. Desta forma, o corpo tranquiliza e a mente fica mais calma, além de levar mais oxigênio para o cérebro e trazer a mente para o presente.

Rosimeri explica que o ato de inspirar e respirar envolve a absorção completa do chamado prana, que é a energia vital que move a vida, segundo antigas escrituras indianas. Portanto, respirar profundamente é um meio de se relacionar por inteiro com o mundo ao mesmo tempo em que se garante energia para o funcionamento de todo o corpo.
 
 
Meditação nas escolas
Ciência de olho na meditação
A ciência vem se mostrando cada vez mais interessada no que os praticantes de yoga já sabem há centenas de anos. O psiquiatra John Denninger, professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor de pesquisa do Instituto Benson-Henry for Mind Body Medicine, do Hospital de Massachusetts, atualmente conduz uma pesquisa que pretende mostrar que as práticas ancestrais podem afetar as atividades cerebrais e reduzir o estresse crônico. O estudo vai analisar como as técnicas de equilíbrio do corpo e da mente pode ativar ou não alguns genes ligado ao estresse e ao sistema imunológico. No entanto, enquanto outras pesquisas se concentraram nos efeitos da meditação na mente, este trabalho pretende salientar os seus resultados fisiológicos. "Há um verdadeiro efeito biológico. Os tipos de coisas que acontecem quando você medita têm efeitos através do corpo, não apenas no cérebro", afirma Denninger. O trabalho financiado com recursos do governo americano deve ser concluído em 2015, segundo o site Bloomberg.

Já uma pesquisa da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, revelou que 30 minutos diários de meditação podem realmente aliviar os sintomas de ansiedade e depressão. Conforme o estudo publicado no início deste ano na revista Jama (The Journal of the American Medical Association), a prática apresentou os mesmos resultados de antidepressivos no tratamento destas doenças. O trabalho coordenado pelo professor Madhacv Goyal mostrou também que a meditação dentro do processo mindfulness, ou atenção plena, teve bons resultados no alívio da dor e do estresse.

Um outro estudo, feito pela Universidade da Califórnia, identificou que a meditação amplia as defesas do organismo. Isto acontece pois a prática intensificaria a ação da enzima telomerase, ligada ao sistema imunológico, que acaba sendo utilizada pelo corpo para aumentar o bem-estar. A conclusão foi divulgada depois de análises feitas com 60 pessoas durante três meses. Neste período, metade do grupo praticou meditação e a outra metade, não. Entre aqueles que meditaram 12 minutos por oito semanas, as taxas de telomerase ficaram 30% mais elevadas. Estes mesmos pacientes também tiveram resultados positivos na percepção de controle e atenção e mostraram redução nas emoções negativas.

Já é comprovado, ainda, que a meditação reduz a frequência cardíaca e desacelera o funcionamento do corpo, provocando relaxamento, e aumento da concentração de neurotransmissores como a dopamina, norepinefrina e serotonina, que fazem aumentar a sensação de prazer

ENTREVISTA
Atenção plena na respiração
Entre os métodos que buscam trazer mais qualidade ao dia a dia, existe também a prática de mindfulness, cuja base é o valor do momento presente e a atenção plena na respiração. “Esse princípio tem muitos benefícios para pessoas que querem viver de forma mais consciente, ter maior concentração ou que queiram lidar melhor com os altos e baixos da vida”, ressalta o físico irlandês e budista ordenado Stephen Little, especialista e referência mundial em meditação. Ele é um dos responsáveis pela introdução do método no Brasil e tem se dedicado a alguns trabalhos de pesquisa e consultoria na área há mais de 21 anos. Little também foi instrutor de redução de estresse com a prática de atenção plena na equipe de Medicina Integrativa no Centro de Oncologia e Hematologia no Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo. Fundamentalmente, o mindfulness é uma maneira de prestar atenção, de estar sintonizado consigo mesmo e com o ambiente e as pessoas ao redor no momento presente. É um estado natural da mente que pode ser aprendido e praticado por qualquer um, independente da orientação religiosa ou cultural. A técnica surgiu na década de 1980, pelo professor de Medicina Jon Kabat-Zin, com base na filosofia budista. Na entrevista a seguir, Stephen Little explica detalhes do mindfulness:
 
O que é o mindfulness?
Stephen Little - A mindfulness é um princípio e deste princípio a gente ensina uma prática, mas a base é o valor do momento presente. Quando a gente pratica, presta atenção na nossa experiência e naquilo que está acontecendo ao nosso redor com uma certa qualidade, que tem uma característica de curiosidade ao invés de uma característica de julgar de forma automática ou de ter algumas interpretações automáticas fechadas.
 
Como funciona a meditação de mindfulness?
Little - Dentro desse princípio existem várias formas de meditação, que é uma forma de a pessoa cultivar essa qualidade. E a forma mais fácil é atenção plena na respiração. Junto com  outra meditação chamada consciência corporal, ela forma a base de uma prática maior, trazem concentração e capacidade de perceber sinais do corpo de forma tranquila.
 
Como o mindfulness se encaixa em um momento de tomada de decisão?
Little - Em primeiro lugar, há dois elementos centrais da prática, quando se pratica, desacelera a nossa percepção e a traz para a experiência palpável. O mindfulness ajuda a renovar uma experiência simples, que chamo de palpável, ao invés de ficar só preso em pensamentos automáticos. Assim como em um restaurante japonês, onde o garçom vem com uma toalha para o cliente lavar as mãos, o mindfulness traz não só um efeito superficial, mas, assim como a toalha, traz de volta para os nossos sentidos de forma plena, e isso tem o efeito de acalmar a mente. Este é o propósito da toalha, preparar o sentido para a refeição. É um ritual muito antigo, traz a gente de volta para algo tangível e tem efeito de acalmar a mente. Porque o oposto é ficar preso em pensamentos automáticos, algo que chamo de ruminação e que faz parte da nossa experiência. Quando algo vira hábito a gente fica frágil internamente, distante da vida atual. Mas é melhor que naquele momento se esteja presente porque daí se pode pensar de forma mais consciente, direcionar os pensamentos de um jeito melhor, pausar a forma de pensar. O pensamento devagar tem muitos benefícios. Ajuda a tomar decisões porque está muito mais em contato com a intuição.
 
Como o corpo entende a prática de atenção plena?
Little - É bom lembrar que o corpo tem sua propria inteligência, essa inteligência do corpo tem uma linguagem sutilmente diferente da mente. A mente é mais rápida, a leitura do corpo é muito mais sutil, quando dá uma atenção apropriada ele reage de uma forma natural, se a mente só está mandando ordens, o corpo não gosta. Há problemas quando nossa mente trata o corpo como sujeito a ser manipulado com ordens fortes, o corpo precisa de uma atenção, um tempo para se adaptar. A respiração não vai desacelerar se a gente manda nela, tem que dar espaço para ela se encaixar. A qualidade de atenção que se põe na mente e no corpo é crucial.
 
Existe uma palavra para definir o mindfulness?
Little - Memória. O nome original do método era sati na Índia, e isso significa memória, sem memória nada rola. Se vai dar uma palestra, aprende, e depois não lembra nada não adianta, tem que valorizar aquilo, tem que lembrar sobre o momento presente. Mindfulness não é uma prática que tem tirar alguma coisa. A questão é voltar sempre, ao invés de tirar algo, os pensamentos do passado e futuro são chamados para despertar nossa presença, ao invés de erros e coisas ruins, a prática em si é muito suave.
 
Qual o principal benefício?
Little - A gente fala sobre estresse em geral, então, um dos maiores benefícios é que com a prática do momento presente a gente vai aprendendo a encarar o momento ao invés de reagir de forma automática. Reduz a ansiedade, o pânico, qualquer experiência com característica de bola de neve. Traz benefícios como baixar a pressão arterial e melhores níveis de oxigênio. Essa prática está sendo muito aplicada também para pessoas com déficit de atenção e há evidências que mindfulness traz benefícios de diminuir recaídas em quem tem depressão. O psicólogo austríaco Viktor Frankl, que passou pelos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, afirmou que entre o estímulo e reação existe uma brecha onde reside nossa própria liberdade. E esse é um dos objetivos do mindfulness: aprender a sentir essa brecha.
 
Existe postura ideal para a meditação de atenção plena?
Little - Não depende de uma postura específica, pode ser uma poltrona confortável ou sentado no chão. Algumas induzem mais sono. Muitas pessoas deitam com certas práticas e aprendem a ficar acordadas. É uma questão de cada pessoa.

*Edição de imagens: Marcelo Collar

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