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Grupo Sinos
Publicado em 03/02/2015 - 06h35
Última atualização em 03/02/2015 - 08h40

Torcedor alega emboscada na estação em briga de torcidas que levou à morte de adolescente

Maicon Doglas de Lima, 16 anos, foi baleado após o jogo entre Novo Hamburgo e Aimoré e não resistiu

Fábio Radke - fabio.radke@gruposinos.com.br

Foto: Tiago da Rosa/GES
Na confusão entre as torcidas que levou à morte do torcedor do Noia Maicon Doglas de Lima, 16 anos, que começou na Estação Santo Afonso, um jovem de 23 anos chegou a ser detido por dano ao patrimônio. O indiciado em flagrante, que pagou fiança e agora vai responder em liberdade, alega que não faz parte de nenhuma torcida organizada e que deixava o Estádio do Vale para seguir até São Leopoldo quando foram surpreendidos por um grupo de torcedores do Novo Hamburgo. “Estávamos em umas 200 pessoas, no mínimo, entre torcedores comuns e alguns organizados. Fomos recebidos com pedradas e pedaços de pau quando começou a confusão. Alguns correram para o interior da estação e outros ficaram na parte de fora. Havia menos de cinco policiais para realizar a escolta do grupo que ia para o trem”, detalhou o auxiliar administrativo, que prefere não se identificar.

Os guardas da estação também teriam tentado intervir na confusão no interior da estação. “Eu acabei apanhando deles e, então, assumi que quebrei a barra de ferro da escada rolante para pararem com isso. Os policiais me levaram até a Delegacia. Agora, com ajuda de um advogado vou solicitar imagens das câmeras da Trensurb e provar minha inocência”, disse. De acordo com o gerente de comunicação integrada da Trensurb, Jânio Ayres, não houve qualquer tipo de dano no interior da Estação Santo Afonso, durante a confusão generalizada. Um cone, no entanto, situado junto a uma das escadas rolantes indicava o prejuízo deixado no local. O diretor de Operações da Trensurb, Carlos Augusto Belloli Almeida, não atendeu as ligações da reportagem. As imagens de câmeras internas serão entregues à Polícia hoje.
 
O que diz a polícia sobre o confronto
 
1 - Após o jogo no Estádio do Vale, em Novo Hamburgo, a Brigada Militar impediu a saída da torcida do Aimoré durante 30 minutos para que não se encontrasse com torcedores do Noia.

2 - No entanto, segundo versão apresentada pela Brigada, pouco mais de meia hora após a partida, dois grupos de torcedores do Noia e do Aimoré iniciaram uma briga nas imediações da estação Santo Afonso da Trensurb. O confronto foi dispersado.

3 - Mas a briga recomeçou pouco depois, próximo à Avenida Mauá, em São Leopoldo. Os PMs alegam que se depararam com a briga generalizada, inclusive com troca de tiros entre os grupos. Uma pessoa teria efetuado disparos contra a equipe de brigadianos e um policial de São Leopoldo revidou. Os torcedores fugiram e Maicon foi encontrado ferido, sendo levado pelos PMs ao Hospital Centenário, onde morreu.
 
Velório de Maicon começou na segunda-feira na Igreja Assembleia de Deus, no Santo Afonso
 
Integrante de organizada
 
Estudante do 2º ano do ensino médio na Escola 25 de Julho em Novo Hamburgo e ajudante de servente de pedreiro, o adolescente Maicon Doglas de Lima, 16, foi assistir ao jogo no domingo com amigos. Os vínculos de amizade e a paixão pelo futebol levaram o adolescente a amar o azul anil do Noia talvez até mais que as cores tricolores do Grêmio, seu outro time. “Não faz muito tempo que ele entrou na torcida organizada, mas vinha acompanhando muito os jogos. Ele trabalhava bastante sempre”, disse a tia de 25 anos, que não deseja se identificar com medo de represálias.
 
“Ele não era vagabundo. Ele é inocente, certamente tentou fugir da confusão quando foi alvejado. Foi morto a uma quadra da casa dos pais”, disse uma amiga. Além dos pais, o jovem deixa uma irmã de 11 anos. Atualmente, ele residia com membros da família na Rua Tom Jobim, em Novo Hamburgo. Já os pais moravam na Rua Gaspar Silveira Martins, no Santos Dumont, em São Leopoldo.O velório de Maicon começou ontem na Igreja Assembleia de Deus, no Santo Afonso. Sobre o caixão, camisas e bandeiras do clube de coração Maicon. O sepultamento será às 10 horas de hoje, no Cemitério Municipal de Novo Hamburgo.
 
Maicon Doglas de Lima, 16 anos, morreu após briga entre torcidas do Novo Hamburgo e Aimoré
Policial admite ter usado munição comum
 
Em depoimento, um policial militar admitiu que efetuou disparos no confronto e alegou legítima defesa, mas só o inquérito vai esclarecer de quem partiram os tiros que atingiram o adolescente, já que houve troca de tiros. A Delegacia de Polícia de Homicídios de São Leopoldo, onde o torcedor (foto) morreu, abriu inquérito para investigar o caso. O soldado foi afastado temporariamente das funções. O comandante regional de Polícia Ostensiva, tenente-coronel Carlos Marques, confirmou a abertura de Inquérito Policial Militar para apurar o caso. Responsável pela segurança do jogo, o comandante do 3º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Luiz Fernando Rodrigues, explica que o soldado pertence ao batalhão de São Leopoldo, mas prestava apoio ao efetivo da cidade vizinha.
 
“Houve uma situação específica deste soldado, que alega que agiu em legítima defesa por uma ofensa com disparo de arma de fogo contra ele naquele caso. É muito prematuro afirmar por que agiu dessa forma. Esse efetivo extra possui supervisão de um capitão, treinamento e material especializado, como munição antimotim (não letal)”, explica Rodrigues. O inquérito deve indicar por que o soldado usava munição letal. Em entrevista à Rádio ABC, na tarde de ontem, perguntado se as balas que atingiram o jovem foram disparadas pelo policial, Rodrigues disse: “É... um dos PMs, que é esse que tá sendo o alvo principal, em razão do que ele mesmo reconheceu... Então, são as informações principais. O reconhecimento do próprio PM que teria feito o disparo daí.”
 
Ouça a entrevista
 
 
À noite, o tenente-coronel afirmou que não podia precisar se os disparos efetuados pelo PM foram os mesmos que atingiram Maicon. O número de policiais que atuaram na segurança do jogo não foi divulgado. No entanto, o efetivo extra para a partida foi de 20 brigadianos, segundo a BM. 
 
*Colaboraram: Juliano Palinha, Susana Leite e Tatiana Hentz
 

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