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Publicado em 21/12/2015 - 18:24
Última atualização em 23/12/2015 - 21h01

Star Wars VII: uma galáxia bem pouco distante

O Despertar da Força é o melhor filme da saga desde os anos 80, mas pouco criativo, e exagera na ideia de atualizar os conflitos

André Moraes - andre.moraes@gruposinos.com.br

ATENÇÃO: SPOILERS À FRENTE
NÃO LEIA ESTE TEXTO SE VOCÊ NÃO VIU O FILME
Foto: Divulgação
Rey e Finn, com o droide BB8 ao fundo, em cena de Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força
Está todo mundo falando que Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força é o filme que os fãs aguardavam há trinta anos. É verdade que ele marca a retomada do espírito original da primeira trilogia, deixando para trás as incoerências e os excessos dos episódios 1, 2 e 3. É uma aventura mais completa do que qualquer uma daquelas da nova trilogia, com um roteiro mais eficiente e maduro. E é pelo menos tão bom quanto o pior dos filmes da trilogia original, O Retorno de Jedi. Tem quem o compare com o melhor da série, O Império Contra-Ataca.
Porém, antes de mais nada, o Episódio VII é um remake do primeiro filme, o Episódio IV. Tem várias equivalências na história, como se fosse uma transposição capítulo a capítulo. Também há muitos elementos recorrentes. Além dos personagens principais, que retornam (alguns em pontas), há vários personagens coadjuvantes reaparecendo, incluindo muitos alienígenas. Também há props que são familiares, incluindo coisas lá do primeiro filme de 1977.
Sobre a nova trilogia só há referências rápidas, como aos Sith (que não são mais o centro do Mal na história) e aos clones (os stormtroopers não são mais criados desse jeito). As grandes bobagens introduzidas por George Lucas na nova trilogia ficaram todas fora: não tem midi clorians, nem Jar Jar Binks, Clones ou Droids de Combate. E nada de Pod Racers.
A história é simples, com começo, meio e fim, e os personagens novos são carismáticos, com destaque para Rey (Daisy Ridley) e Finn (John Boyega). O vilão Kylo Ren (Adam Driver) tem momentos assustadores. As cenas de ação são legais e os efeitos não tomam conta, embora sejam deslumbrantes. Até a conclusão é legal. A história tem fim, como o filme de 77 tinha, mas tem uma deixa para o próximo, abrindo possibilidades. Tudo isso é legal. Melhor do que seria de se esperar do diretor J.J. Abrams, que antes deste Star Wars estragou uma franquia assemelhada, com Star Trek: Além da Escuridão.
Só que, de uma certa maneira, não é Star Wars.
Não entenda mal. O filme é ótimo, e é certamente emocionante ouvir de novo no cinema, em uma história inédita, a famosa fanfarra de abertura de John Williams, assim como rever personagens clássicos, como Chewie, Han Solo ou até a Falcon Millenium. Só que a identidade de uma saga é dada por mais do que as máscaras usadas pelos atores, os nomes dos personagens ou a forma das espaçonaves.
Todo filme novo, na série, tinha novidades. Então, dá para ver por esse lado alguns ineditismos, embora possam cheirar a incoerência narrativa. Quase todas as batalhas aéreas são na atmosfera, não no espaço, como era nos outros filmes. Inclusive, você juraria que Tie Fighters não voam dentro de planetas, já que não havia disso na trilogia original. Mas tudo bem, são detalhes.
Mas os ineditismos são, justamente, só detalhes. Todos os seis filmes produzidos por George Lucas, inclusive os ruins, tinham grandes jogadas criativas, planetas fascinantes ou culturas inteiras apresentadas a cada novo título. Era assim no filme original, que introduzia o universo lá em 77. O Império Contra-Ataca inovava com uma batalha com Andadores em um planeta gelado, mais o planeta-pântano de Yoda e um verme gigante dentro de um asteroide. O Retorno de Jedi tinha os Ewoks e a Lua de Endor (tudo bem, ninguém disse que as inovações eram todas legais). No Episódio I, a raça aquática do planeta Naboo; No Episódio II, duas culturas exóticas, em Geonosis e Kamino; no Episódio III, várias raças apareciam, embora meio na corrida.
Nada disso tem no Episódio VII. Ele se resume a render tributo aos episódios anteriores, repleto de aparições rápidas de personagens, robôs e aparelhos. A própria trama é composta inteiramente por isto, desde o plot básico que é introduzido no tradicional texto flutuante em perspectiva. Os filmes anteriores são quase uma bengala. Tudo no roteiro se apoia neles. Até o vilão Kylo Ren vive à sombra de Darth Vader.
Foto: Divulgação
Alguns dos vilões de Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força. À frente, Kylo Ren
As coisas que O Despertar da Força introduz, por outro lado, são quase todas temáticas externas à própria saga. O Império já não é mais um Império absoluto, personificação do mal, mas quase que um partido político galático, mantido por um bando de malucos, a Primeira Ordem. A Resistência é a República, outro partido, embora minoritário. Estas posições relativas dão lugar, por exemplo, ao personagem de Finn, que é um stormtrooper que desertou após um ataque de escrúpulos. O próprio vilão Kylo Ren é todo enrustido e cheio de problemas, balançando entre a maldade e a crise de consciência. A Primeira Ordem tem um general fanático que faz discursos para as tropas à moda de Hitler. Tudo isso delineia motivações e subtramas que, embora complexas, estão mais para os dramas deste nosso século 21 do que o conto de fadas espacial lá de 1977.
Não é necessariamente ruim isso, claro, atualizar as motivações, relativizar o conceito do bem e do mal, complexificar as coisas além do maniqueísmo. Mas aí vem a questão de pensar o que, afinal, fazia Star Wars funcionar. A mecânica simples de conto de fadas, com bem e mal bem definidos, fazia parte do encanto, talvez de forma indispensável. Some-se a isso a própria falta de grandes voos de fantasia. Não há novas culturas exóticas (nem Jar Jar, é verdade), e a própria Força é mais narrada do que mostrada. A Força não era só o poder de arrancar armas das mãos das pessoas ou arremessar os desafetos no ar sem precisar chutá-los. Ela era representada, entre outras coisas, pelos espíritos com os quais Luke e Yoda conversavam, a voz de Obi Wan vindo do mundo do Além. Nada disso aparece no Episódio VII. A Força ficou mais fraca ou vai ficar, talvez, para uma continuação.
A relativização do bem e do mal também se reflete nos personagens. Se é verdade que Kylo Ren tem momentos assustadores e é bem interpretado com nuances por Adam Drive, por outro lado a própria constituição do vilão se propõe como um mito já desconstruído de antemão. Kylo Ren é um mascarado que tira a máscara a todo momento, um malvadão que já no primeiro filme tem crises de consciência, um mestre do lado sombrio da força que apanha de aspirantes a Jedi sem o menor treinamento. Se é uma figura mais rica e multifacetada (para usar um termo bem da crítica do século 21), por outro lado está longe de ser a figura perfidamente carismática de Darth Vader, um vilão sem frescuras nem concessões.
Há outros altos e baixos no elenco. Por fascinante que seja ver Han Solo de novo, é preciso refletir que provavelmente ele não teria envelhecido como Harrison Ford. E Leia não parece a princesa que uma vez estrangulou Jaba The Hutt com uma corrente, vestindo biquíni de escrava sexual. Ela parece Carrie Fisher, a bem-sucedida palestrante e escritora de autoajuda, pagando mico falando algum mambo-jambo espacial.
Alguém já disse que o Episódio VII tem um stormtrooper com síndrome de pânico, coisa bem contemporânea. O vilão é humanizado, falível, cheio de pulsões contraditórias, perfeitamente psicanalisável. Rey é a própria garota-propaganda da inclusão social, uma catadora que dá a volta por cima e vira heroína do girl power. Finn é um positivo, e fascinante, herói étnico, um libelo pela igualdade racial, e que merece todo o nosso apoio e simpatia contra a discriminação abjeta que vimos recentemente nas redes sociais.
Conto de fadas espacial? Galáxia muito, muito distante? Cara, isso é praticamente o horário político.
Abaixo, veja comentário do colega Misael Lima sobre o filme: