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Violência em Canudos

''Vou viver com essa culpa'', diz mãe de bebê violentado e morto

Polícia procura padrasto, que fugiu em Palio branco após deixar bebê na UPA de Canudos
“Minha nenê estava bem quando saí para trabalhar e agora está morta. Por que fui deixar meu anjo com ele? Vou viver com essa culpa”, lamentava-se a industriária de 31 anos, após perder a filha de quatro meses de forma brutal na manhã desta sexta-feira (29), no bairro Canudos, em Novo Hamburgo. A criança foi violentada em casa e morreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). O padrasto, um pedreiro de 34 anos, fugiu em um Palio branco de duas portas e vidros escuros. A Polícia abriu caçada ao suspeito.
Era rotina. No caminho do trabalho, de manhã cedo, a industriária deixava o bebê para uma comadre cuidar. “Hoje (ontem) eu acordei atrasada. Aí pedi para ele levá-la.” Às 10h30, quando estava saindo da empresa para amamentar, recebeu telefonema da cuidadora, que perguntava o porquê do bebê não ter sido deixado com ela. “Fui correndo para casa. Encontrei minha filha já molinha, muito mal, e perguntava para ele o que tinha acontecido. Ele não dizia nada. Apenas que um remedinho resolveria. Tive que insistir para nos levar ao posto.” O pedreiro deixou a companheira e a enteada na UPA e sumiu. Os médicos constataram lesões fatais na cabeça, boca e genitália.
“Como poderia imaginar que ele faria uma coisa dessas? Ele queria registrar a (nome da menina) como se fosse o pai verdadeiro. Parecia uma pessoa normal. Se dava bem com meu filho (garoto de 11 anos). No fim de semana, a gente pegava os filhos dele para passear.” A industriária conta que levou policiais a locais onde o suspeito pudesse estar. “Estou com muita raiva dele. Tirou minha filha de mim.” O delegado de Homicídios, Enizaldo Plentz, pediu a prisão preventiva. O nome do acusado não está sendo revelado para preservar a identidade da vítima menor de idade, conforme no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Entrevista • José Tadeu de Toledo, psiquiatra
A gravidade do crime, segundo o psiquiatra José Tadeu de Toledo, não deixa dúvida de que o autor é um psicopata. O médico observa, porém, que a doença mental não o exime da responsabilidade penal. E sentencia: “Quem faz isso não tem recuperação”.
Como definir alguém que violenta e mata um bebê?
José Tadeu de Toledo - Posso dizer que a pessoa que fez isso é um criminoso, um doente mental de uma categoria que sabe o que está fazendo. Não é inimputável. É uma mente criminosa, que nós chamamos de psicopatia.
O acusado não tinha antecedentes e, segundo conhecidos, não parecia ser alguém capaz de uma atrocidade dessas. Isso aflora de uma hora para outra?
Toledo - Isso está dentro da pessoa. No inconsciente. Mas isso não significa que está hipnotizado ou que não está sabendo de nada. Ele tem esse impulso e é dominado ao praticar um ato criminoso. Seja esse, extremanente grave, ou um furto. Claro que a gravidade é diferente, mas deve responder penalmente na categoria de doente social, o que não o exime da responsabilidade.
É recuperável?
Toledo - Quem faz isso não tem recuperação. A psiquiatra forense não é minha especialidade, mas a história e as estatísticas estão aí para atestar isso.
Ele sente culpa, remorso?
Toledo - Pode fingir, mas não sente.
O que se faz com uma pessoa dessas?
Toledo - Há determinados fármacos, drogas, que são calmantes. Uma vez esse indivíduo preso, pode ser medicado para abrandar o instinto. Fica tudo mundo embasbacado com um fato desses. Esses atos que a gente chama de desumanos são praticados por humanos. E, como somos humanos, ficamos muito assustados com a natureza humana.
E abuso sexual contra um bebê?
Toledo - Não houve na estrutura, no aparelho psíquico desse homem, mecanismos que impedissem de cometer uma brutalidade. Passou por cima de todas as barreiras em busca de sua satisfação imediata.
Por que só aos 34 anos?
Toledo - Uma outra situação é estar sob efeito de alguma droga que altere o comportamento. Há quem, sob efeito do álcool, se torne capaz de dar tiro em um amigo, porque achou que estava olhando para a mulher dele. Não estou dizendo que foi isso. É até improvável.
A droga afastaria a psicopatia?
Toledo - Facilitaria a manifestação. Essas pessoas que saem por aí matando ou roubando, sob efeito de drogas se tornam mais violentas, mais corajosas. Há trabalhos de psiquiatras forenses que consideram que mais de 50% dos que povoam nossos presídios são psicopatas.

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