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Cris Manfro

Mucão emocional

"Enquanto eu falava sobre famílias, crises normais, ele interrompe e pede se pode falar da sua história"

Cris ManfroCris Manfro é psicóloga clínica, terapeuta de família e casal e mediadora familiar

acmanfro@terra.com.br

Quando chego para dar um workshop na Santa Casa em Portugal, vejo um senhor sentado à frente da porta e o cumprimento. Ele entra no meio do workshop, com andador e pede se pode assistir. Falo que seria uma honra. Enquanto eu falava sobre famílias, crises normais, ele interrompe e pede se pode falar da sua história. Puxo uma cadeira, viro-a de frente a ele, pergunto se não gostaria de falar a sós, ele olha para a turma e diz que não. Conta que quando era casado, por paixão fez uma “besteira” e que isso resultou numa separação conjugal e briga com as filhas. Amor, dizia ele, “pode ser o teu céu e o teu inferno!” As filhas nunca o perdoaram e se negavam a vê-lo. Tempos depois, ele recebe um convite de casamento da filha mais velha, ele ressentido decide não ir. Um dia antes do casamento essa filha se suicida.

Conta que a família o culpou. Nunca mais viu a filha mais nova e nem os dois netos que ele sabe que tem. Comento com ele que ninguém deixa de casar e resolve se suicidar um dia antes do próprio casamento porque está de mal ou decepcionada com o pai e que podia garantir isso a ele. Pergunta se tenho certeza. Afirmo, e digo para ele tranquilizar o coração. Conta que está casado novamente há 20 anos, mora ali, junto da nova esposa que cuida há dois, pois tem Alzheimer. Falo que ele tem dado vida a ela e que percebo o quanto ele tem mucão emocional. Pergunto como se diz mucão em Portugal e mostro o braço. Ele diz: músculos. Esse senhor como muitas pessoas tem “mucão” emocional. São fortes e, apesar das suas tragédias pessoais, seguem em frente tentando aprender, perdoar e se perdoar apesar dos pesares.

Ele levanta e diz que agora ele podia ir. Digo cadê meu abraço? (Português não costuma abraçar) Ele abraça forte, pede desculpas e eu digo que foi um privilégio poder ouvi-lo. A turma presente não se meche. Continuo os meus trabalhos, feliz desses privilégios que a vida me dá: Ser escolhida para ouvir e falar. Quando eu estava encerrando no final do dia ele volta. Traz consigo uma senhora, de pijama e chambre. Interrompo os trabalhos e pergunto quem é a belezura e ele diz a ela: “essa é a doutora que te falei”. Sentam e faz sinal para eu continuar. Começam as despedidas dos alunos de mim e do seu Francisco, de 80 anos. Então ele olha pra mim e diz: “Há meses eu te espero! Olhava teu cartaz nos corredores. Eu sabia que você vinha me dar algo de bom”. Chorei. Mal sabe seu Francisco que quem ganhava o melhor presente era eu e a turma que ali estava. Sermos valorizados e escolhidos para aprender com ele. (Ele autorizou essa escrita)


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