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Investigação

Escutas revelam como agem quadrilhas de furto de veículos e extorsão dos proprietários

Alvos dos criminosos eram veículos velhos e sem seguro do Vale do Sinos

Polícia Civil
Um dos carros recuperados do esquema de furto e extorsão no Vale do Sinos
Eles furtam carro velho e o oferecem de volta à vítima, por dinheiro, como se estivessem fazendo favor. E o dono acaba vendo como bom negócio pagar, pois não tem seguro. É dentro dessa lógica que funciona o mercado da extorsão, com resgates que costumam ir de 1 mil a 2,5 mil reais. Escutas telefônicas revelam o esquema, que está disseminado no Estado. Nelas, criminosos aparecem com a desfaçatez de dizer para as vítimas que estão aí para ajudá-las. A Polícia Civil aconselha a não negociar com bandidos.

O monitoramento das ligações de uma das principais quadrilhas do ramo no Vale do Sinos, feito pela 1ª Delegacia de Polícia de Novo Hamburgo, mostra a agilidade dos criminosos. Há casos em que o negociador entra em contato menos de cinco minutos após o furto. Muitas vítimas, aliás, são avisadas pelo próprio ladrão que o carro não está mais onde foi estacionado.

Mas como o criminoso consegue o telefone do dono do veículo? Em alguns casos, é porque o proprietário tinha no automóvel um documento ou cartão de visita. Em outros, porém, a vítima não faz ideia sobre como foi descoberto o número do celular dela. Uma explicação seria a consulta da placa no banco de dados da Segurança Pública, para chegar ao nome e telefone do dono, o que só seria possível com a participação de policiais. Já houve investigações sobre o vazamento de informações do sistema de Consultas Integradas na região, mas sem conseguir provar eventual envolvimento de agentes públicos.

Delegado orienta a não pagar os bandidos

Responsável pela investigação que desmantelou a quadrilha, o delegado Tarcísio Kaltbach orienta as vítimas a não caírem na conversa do negociador. “Se as pessoas não pagassem aos ladrões, os furtos de veículos diminuiriam substancialmente”, afirma. Segundo ele, os criminosos não têm o que fazer com os carros. “Estamos falando de modelos com tecnologia mais antiga, que podem ser abertos com uma simples chave micha. Esses são os alvos. Se não houver quem pague o resgate, os criminosos não terão estímulo para furtar, pois ficariam com carros sem utilidade que valesse a pena.”

Tarcísio explica que não há mercado lucrativo de peças para carros mais velhos, além de não serem adequados à clonagem ou à prática de outros crimes, como assaltos. “É por isso que quase 100% dos furtos são para extorsão. Tanto que aproximadamente 90% dos veículos são recuperados, possivelmente porque a vítima pagou.” Ele observa que há casos em que o dono deu o dinheiro para a quadrilha e não recebeu o carro.

Polícia Civil/Divulgação
Polícia Civil identificou Vanderson Maurício Becker Fagundes, o Boca, como líder da quadrilha
Prisão de líder reduziu casos pela metade

As interceptações telefônicas ajudaram na prisão do homem apontado como um dos maiores especialistas em furto e extorsão no Vale do Sinos, Vanderson Maurício Becker Fagundes, o Boca, 31 anos. “Os números comprovam que prendemos a pessoa certa, pois os furtos de veículos caíram de forma brusca em Novo Hamburgo”, comenta o delegado Tarcísio Kaltbach. Ele acredita que a redução nos índices ocorreu em outras cidades, já que a atuação do grupo é regional. Os roubos, que geralmente são à mão armada e envolvem carros mais modernos cuja tecnologia não permite furto com chave micha, se mantiveram na média mensal de 70 casos.

Boca e o “funcionário” Matheus de Castro, 19, foram flagrados no bairro Hamburgo Velho, na tarde de 1º de junho, no momento em que iam buscar R$ 2 mil de um comerciante que teve um Gol 95 furtado em Sapiranga. O veículo foi recuperado. “Fizeram a primeira ligação quando entrei na delegacia e depois foram mais nove”, relatou a vítima de 64 anos.

Seguradoras projetam cobertura para carros velhos

Veículos com mais de dez anos de fabricação não têm cobertura de furto e roubo. É uma regra das seguradoras. Mas isso deve mudar, segundo o diretor do Sindicato das Seguradoras do Rio Grande do Sul, Giovani Menger. “A queda na venda de carros novos, não só pela crise, como também em razão da mudança de comportamento das pessoas, que optam por novidades como o Uber e preferem ter um ao invés de dois automóveis, está fazendo com que as empresas comecem a concordar em criar produtos para veículos com mais de dez anos.” Ele projeta que carros mais velhos tenham oferta de seguro de furto e roubo daqui a cinco anos. “A gente quer ter esse mercado. Mas será uma cobertura mais limitada.”

”Como conseguiram meu telefone?”

O montador de móveis de 51 anos recém tinha começado um trabalho no Centro de Novo Hamburgo, na manhã de 25 de novembro do ano passado, quando recebeu o telefonema de um homem, que seria Boca, pedindo resgate pelo carro. “Nem imaginava que meu carro tinha sido levado, pois havia deixado há pouco na Rua Marcílio Dias. E até hoje não entendo como conseguiram meu telefone”, recorda. Ele pagou R$ 1,2 mil, que pediu emprestado ao patrão, e buscou o Uno 93 na Avenida Nações Unidas, bairro Rio Branco. “Estava sem estepe e com as rodas trocadas por umas piorzinhas.”

Criminoso faz proposta de R$ 2 mil para dono reaver Gol furtado

Vítima - Eu ganho um salário mínimo. Como é que eu vô pagá dois mil, cara?

Criminoso - Ah, mas é isso, aí! Tu sabe que o carro do senhor é novo pro ano dele.

Vítima - Mas deixa mil, cara, aí eu tento arrumá!

Criminoso - Não, mil não dá, cara!... Eu vendo ele por mais de mil, entendeu?... Se eu for vendê o carro, se tu não quisé e eu for vendê, eu pego aquele preço que eu pedi pro senhor. Eu pego dois mil nele.

Vítima - É, mas tu vê... Tu pode ajudá eu, né, cara? Me ajuda!

Criminoso - Eu tô te ajudando, entendeu? Por isso que eu tô te ligando... Se eu fosse pegá pra vendê, eu não ia nem ter te ligado!

Vítima - Eu ganho novecentos e poucos reais por mês, né. E compro tudo de remédio, quase, sabe?... Daí eu tô doente, coisa do coração e coisarada, né!

Criminoso - Aham!

Vítima - O que acontece...eu ia tentar ver se arrumava mil e te dava, daí tu...

Criminoso - Não, mil não dá, cara! Mil não dá! Pega e corre aí. Corre esse dinheiro. Mais tarde eu vô ligá pro senhor, mas mil real não dá, tá? Tem que ser aquele preço ali que eu falei pro senhor, porque o senhor sabe, o carrinho é do senhor, o senhor sabe que o carro do senhor é muito inteiro, né.

Vítima - Pois é, mas é que daí não tem o que fazê. Tenho que ficar a pé se não quisé devolvê pra mim por mil.

Criminoso - Não! Senhor, eu vô ajudá o senhor! Consegue o dinheiro aí, que eu vô devolvê o carro pro senhor, do jeito que tava. Do jeito que nós peguemo vai ser devolvido pro Senhor.

Vítima - Mas por que tu não me dá uma mão, cara? Eu não tenho dinheiro. Essa crise tá braba.

Criminoso - Corre aí, que mais tarde eu vô te ligá, eu vô avisando o senhor, ó. Eu tô dando uma mão pro senhor. Eu não quero polícia no meio, tá? Tu não é a primeira vítima e não é nem a última, entendeu? Nóis trabalhamo assim, nós sempre fizemo isso!...

Vítima - É, a polícia não vai tá no meio, porque eles não fazem nada mesmo, não adianta!

Criminoso - É, a polícia não vai resolvê nada pro senhor. É com nós, então. Só consegue o dinheiro aí que nós vamo devolvê o carro pro senhor. Tá?

Bandido imitando sotaque de colono oferece de volta veículo furtado de aposentado

Criminoso - ... O senhor que tem um Gol branco?

Vítima - Sim.

Criminoso - O senhor tá aonde?

Vítima - Eu tô aqui na casa do meu genro, da minha filha, em Novo Hamburgo.

Criminoso - O senhor vai querê o Gol de volta?

Vítima - Ô, meu Deus! Sim!

Criminoso - Ah, mas tem que arrumá um dinhero aí pra nós.

Vítima - Ah?

Criminoso - O senhor arruma um dinhero?

Vítima - Não, eu sô aposentado, eu sô pobre, eu tomo muito remédio, moço. Eu tô aqui, eu vim aqui hoje tomá uns remédio aqui, que é muito forte.

Criminoso - Tá, mas tem que arrumá um dinhero aí senão não tem como pecá ele de volta.

Genro pega o telefone - Quem gostaria?

Criminoso - É sobre o Col. Vocês vão querê de volta ou não?

Genro - Tá, mas vocês têm ele onde? Novo Hamburgo? Onde é que eu consigo pegá?

Criminoso - Ele tá numa garage. Tem que arrumá um dinhero pra pecá ele.

Genro - Quanto?

Criminoso - Mil e duzentos.

Genro - Mil e duzentos?

Criminoso - É. Você arruma ou não vão querê?

Genro - Quinhentos reais.

Trabalhador é extorquido por R$ 1,2 mil para ter de volta seu carro

Dez minutos depois, o criminoso liga de novo e testa a vítima, ao perguntar se ligou para a Polícia. Depois, faz o preço pela devolução do Uno ano 1993.

Vítima - Alô!

Criminoso - E aí, meu!

Vítima - Opa!

Criminoso - Ligô pra polícia já?

Vítima - Não! Eu tava ligando pro meu chefe da fábrica. Eu tô trabalhando aqui, cara, tô com um pepinão aqui pra resolvê, agora outro ainda. Eu nem conheço ninguém aqui. Eu tô em Novo Hamburgo. Não sô daqui, não sei nem pra quem ligá.

Criminoso - Não precisa ligá pra ninguém. É só corrê o dinheiro, se quisé teu carrinho de volta. Tem que corrê o dinheiro.

Vítima - Quanto?

Criminoso - Um e duzentos.

Vítima - Bah, mas tu tá loco, meu! O cara trabalhando pra...

Criminoso - Liga pro teu chefe aí, fala com ele lá. Te ligo daqui a uma meia hora eu vô te ligá de novo. Tendeu?

Ladrão orienta como concluir a negociação

Depois de negociações em outras ligações, chega o momento derradeiro do resgate. O montador de móveis vai com o chefe entregar o dinheiro e buscar o carro.

Criminoso -Tá, tá vendo um orelhão ali?

Vítima - Orelhão? Tô! Um orelhão duplo aqui bem na frente do campo?

Criminoso -É, tu vai largá o dinhero ali em cima do orelhão.

Vítima - E o carro?

Criminoso - Aí eu vô te dizê onde tá teu carro. Tendeu?

Vítima - Tá!

Criminoso - Tá ouvindo?

Vítima - Sim, tô ouvindo.

Criminoso - Deixa ele emboladinho pra não caí no chão nem nada né. Pra ninguém pegá.

Vítima - Bah, mas e agora, vou ver se acho alguma coisa pra grudá esse dinhero aí.

Criminoso - E não faiz muito tendel aí, que senão os vizinho também pega, entendeu?... E daí eu já vô te mandá pra perto onde tá teu carro, tendeu?

Vítima - Tá, tá, mas onde é que tu tá, cara? Eu vô cumprí a minha parte...

Criminoso - É que nem eu te felei. Teu carrinho não tem nada pro cara fazê com ele, tendeu? Não dá nem pra saí pra robá com ele, tendeu?...


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