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Entrevista

Monja Coen: respiração consciente é um dos segredos para alcançar equilíbrio

Líder budista lança livro que apresenta o zen budismo como uma das ferramentas para lidar com a depressão

Gil Silva/Gil Silva/Divulgação
Monja Coen faz palestra em Porto Alegre neste domingo

A respiração consciente é um dos segredos para uma vida com qualidade, mas, na correria do dia a dia, parar e respirar é mais um movimento feito no modo automático. Soma-se a isso instabilidade econômica, violência, agitação e surge aí um cenário propício para a depressão. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), atualmente mais de 320 milhões de pessoas sofrem da doença, que até 2020 será a enfermidade mais incapacitante do mundo. No Brasil, 5,8% da população padece com esse problema, que afeta 11,5 milhões de pessoas. Segundo a OMS, o Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina.

Assim, trazer ferramentas para lidar com a depressão e mostrar que há solução mesmo quando os dias parecem todos cinzas é o objetivo do livro O sofrimento é opcional - Como o zen budismo pode ajudar a lidar com a depressão, escrito pela Monja Coen, uma das mais importantes líderes budistas do Brasil. O lançamento em Porto Alegre será neste domingo, às 15 horas, na Livraria Cultura do Bourboun Shopping Country, com palestra e sessão de autógrafos. Antes de vir à capital gaúcha, a monja conversou por telefone com a reportagem do caderno Viver com Saúde e chegou a citar o templo Chagdud Gonpa Brasil, de Três Coroas, como um dos lugares de referência para meditação no Rio Grande do Sul. Abaixo, confira entrevista em que ela fala sobre depressão e a busca pelo sentido da vida.

Quem é a Monja Coen
Nascida em São Paulo (SP), em 1947, Cláudia Dias Baptista de Souza, a monja Coen, é uma mulher ímpar. Mãe aos 17, trabalhou como repórter do Jornal da Tarde, abusou de drogas e álcool, tentou o suicídio. Após uma temporada na Europa, voltou ao Brasil e, apaixonada, mudou-se logo em seguida para os Estados Unidos com o novo namorado, americano e iluminador de palco de artistas como Alice Cooper e David Bowie. Lá, começou suas práticas regulares de zazen e fez os votos monásticos (1983). No mesmo ano, entrou para o Mosteiro Feminino de Nagoya (Japão), onde residiu por oito anos. Após cinco casamentos, mora sozinha em seu templo Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, no bairro do Pacaembu, em São Paulo, mesmo endereço onde passou a infância e a juventude. Tem a companhia dos alunos e de seus vários cachorros.

Qual o primeiro passo para sair da depressão?
Primeiro tem que identificar e reconhecer que é uma doença. As pessoas acham que são mais sensíveis, que o mundo está péssimo, que não tem solução para coisa alguma, que as pessoas não são honestas, que os relacionamentos não funcionam, que nada tem mais cor. A primeira coisa é perceber que isso é uma doença. Porque a gente percebe quando é doença da perna, do pé, do estômago, mas quando é uma doença de um processo mental, a pessoa não quer admitir que é doença e muitas dessas pessoas não querem tomar os remédios que existem. Não é que o remédio é para o resto da vida, mas vai ter que tomar durante algum tempo porque seu corpo deixou de produzir certas enzimas que são do prazer, da alegria, do contentamento e foi só estimulado aquilo que é prejudicial, que é tristonho, que é enfadonho, então às vezes a maioria dos casos precisa do apoio de um psiquiatra, de um terapeuta que possa orientar e ajudar a sair da crise, mas se a pessoa não reconhece que ela está doente aí que é o problema.

Quais os ensinamentos de Buda que podem ajudar a lidar com a doença?
Acredito nas práticas de meditação e nos ensinamentos de Buda. O livro é baseado nos ensinamentos de Buda, que são as nobres verdades: que insatisfações existem, que há causas, mas que existe um estado chamado de nirvana, de paz e tranquilidade, que é possível acessar através de uma prática que tem muitos aspectos. O livro fala um pouco sobre isso. E como o próprio Buda em sua juventude, começa a se questionar o sentido da vida. Ele mora num palácio, vive muito bem, tem todas as melhores coisas do mundo, é casado, ama sua esposa, tem um filho bebê recém-nascido, mas ele sai do palácio e começa a ver como tem sofrimento no mundo. Ele vai encontrar a velhice, a doença e a morte. E ele vai refletir que a juventude é passageira, que a saúde também é e que a morte é inevitável para todos os seres vivos. E começa a se questionar qual o sentido da vida. Muitas pessoas começam a se questionar e põem a questão debaixo do tapete, essas questões não são para serem escondidas ou esquecidas, elas são para serem pesquisadas, para serem filosofadas, devem ser questionadas. O questionamento talvez é mais importante do que a resposta e há inúmeras correntes filosóficas, inúmeros religiões diferentes, inúmeros apelos falando sobre o mesmo tema. Nós, humanos, temos que clarificar se há sentido ou que sentido nós podemos dar à vida, que sentidos podemos dar à morte?

Como a depressão pode levar ao suicídio?
Há pessoas que através da depressão chegam ao suicídio. O que acontece? Começo a não ver solução. As minhas questões, os meus problemas não têm solução, então decido ir embora, eu saio do cenário, seria o morrer. Acho que resolvo essa minha tristeza, esse meu desencanto desaparecendo. Acaba com meu drama, mas não é por aí. Nós passamos na vida por dificuldades, por problemas, passamos por insatisfações, mas temos de entender que não há nada fixo, não há nada permanente, que mesmo esse estado de profunda insatisfação, que hoje se chama de depressão, também é transitório. Então a gente volta para os ensinamentos básicos de Buda, que não vai dizer que não há nada fixo, nada permanente, você está num processo crescente de transformação e tudo está interligado, se comunicando e quando você começa a perceber que há esse estado chamado de nirvana, que é um estado de paz e tranquilidade acessado pela sabedoria, não quer dizer que você nunca mais vai ficar triste e só vai ter alegrias, não é isso. Você pode passar por momentos de alegria e tristeza já com um outro nível de percepção da realidade, que não é fixo, nem permanente.

Como ajudar que vive em um estado de depressão?
O que está faltando são respostas para questões existenciais, que ficaram escondidas, fechadas, bloqueadas, e é isso que procuro acordar nas pessoas. É nosso direito e dever de nascença despertar, ser capaz de ver a realidade como ela é e atuar de forma decisiva. A realidade está sempre se transformando e está tudo interligado. Tudo é causa de uma coisa, condição de outra, efeito de uma terceira, é uma trama e você é essa trama, não está separado, se você só começa a ver o que é prejudicial, o que é sombra, o que não é bom, você vai envenenar a sua mente, ela vai ficar envenenada, sombria e aí você não começa a ver mais a luz. E o que a gente propõe é que veja que onde há sombra, há luz. Tem um poema muito bonito que diz: "Quanto mais brilhante a lua, mais escura a sombra do pinheiro". Então ao invés de ficar olhando só para a sombra, perceba que ela só existe porque há luz e aí de repente dá uma olhadinha para essa luz. Então é uma espécie de proposta de mostrar os ensinamentos de Buda e dizer que eles podem ajudar a lidar com depressão.

Qual a importância da meditação nesse processo?
Muitos vão precisar de ajuda de terapeuta, psiquiatra, mas mesmos estes profissionais e muitos hospitais estão introduzindo como medicina complementar a meditação. Zen quer dizer “meditar”, Zazen quer dizer “sentar em meditação”, pode ser um instrumento que auxilie a lidar com a depressão, não é acabar com ela, compreender que ela existe, que nós passamos por ela, não precisamos ficar nela pro resto da vida, sentir o que é esse estado depressivo e como que paulatinamente você vai saindo dele. E se outra vez começar os sintomas você já reconhece e, antes de afundar de novo, já toma providências. Então essa consciência de si mesmo, de conhecer a si mesmo, de conhecer o seu corpo, conhecer a sua mente pode ajudar a lidar com a depressão.

O atual cenário social e econômico no País e no mundo influencia em índices maiores da doença?
A gente vive numa cultura de violência, uma cultura de competição, de um querendo derrubar o outro. E nós temos também noticiários que, infelizmente, dão muita visibilidade ao que é mau e perverso. Vejo um cérebro humano, que é sensível, sendo bombardeado por notícias maléficas, é natural que a pessoa vai ficando triste e acha que não tem solução. Meu amigo me traiu, meu marido foi embora, eu ligo a televisão estão aumentando, estão assaltando, os políticos são corruptos, os médicos não atendem direito, não tem solução o mundo. O ser humano não é mau, nem bom, mas aquilo que é estimulado é que vai desenvolver e com o que a gente estimula o nosso cérebro. Então a gente está tendo um problema, sim. Teve uma crise, que para mim foi forjada, mas ela é forjada e se torna real, e na hora que se torna real, vamos ter desemprego, temos empresas que estão se associando umas às outras, comprando umas às outras e as pessoas ficam com muito medo. E aí esse medo pode levar à depressão, porque a pessoa com medo para de produzir. Me chamam muito para fazer palestras em empresas por causa disso. Querem que as pessoas façam o seu melhor, sejam excelentes, mesmo que seja seu último dia. E se não ficar, que bom, porque você pode encontrar outra coisa. Nada pertence ao ser, essa sensação de liberdade, de não medo. A nossa sociedade violenta quer as pessoas fiquem com medo. Quanto mais medo tiverem, mais controláveis são. As pessoas que pensam que são livres são capazes de ver a realidade e poder atuar nessa realidade, isso não interessa a algumas pessoas que querem dominar e controlar a opinião pública. Então, você criar seres livres, sem medo, é a proposta de uma cultura de paz, que se opõe aos estados depressivos.

Há alguma prática que possa ser aplicada no dia a dia?
A chave de ouro é a respiração. Eu não posso controlar o que eu sinto, não posso controlar minhas emoções, mas eu posso controlar a ação que eu faço a partir da minha emoção. A nossa respiração muda, quando é tranquila, natural, parece que é mais baixa, vem do abdome, é profunda e suave. Em qualquer estado emocional diferenciado, ela fica muito rápida e isso é uma das poucas coisas que nós podemos controlar. Em um estado depressivo, o ombro vai para a frente, eu curvo as costas, o meu diafragma fica fechado, meu pulmão fecha, não respiro direito. Então a gente trabalha o pulmão para trás. Respire conscientemente, perceba o ar entrando e que toda caixa torácica se expande em todas as direções e depois o ar vai saindo devagar. Se a pessoa fizer isso umas três vezes, ela já entra no seu eixo de equilíbrio. Pense se o que vai falar é bom, se vai beneficiar outras pessoas, se vai levar a verdade, o caminho, se não for, fique quieto. Às vezes, a pessoa vem e nos agride, não leve a agressão para casa. A pessoa não me compreendeu, tudo bem, preciso me explicar melhor. Mas eu não fico com raiva, não fico com rancor, não fico cultivando energias prejudiciais. De hora em hora, dá uma paradinha e respira, na sua casa, no trabalho, para ver como trabalha melhor, atende melhor quem chega.



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