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Cooperativas escolares: lição de gestão além da sala de aula

O Jornal NH publica a partir de hoje série de reportagens que mostra a importância das cooperativas que nascem nas escolas para ganhar o mundo


imagens e reportagem DÉBORA ERTEL

Um misto de orgulho e solidariedade, repletos de esperança em um futuro cada vez melhor. É isso que carrega no peito o adolescente Gabriel Silva, 13 anos, aluno do 8.º ano da Escola Municipal Santo Antônio, de Rolante. O jovem, que tinha dificuldades de relacionamento e não apresentava um bom rendimento em sala de aula, hoje em nada lembra o Gabriel do passado. Ele é dos mais de 50 associados da Cooperativa UniSanto. “Eu tenho orgulho de participar porque eu aprendo mais e depois posso passar adiante para outras pessoas. Nós queremos crescer cada vez e ajudar bastante a escola e o bairro”, declara o garoto. O aluno integra uma lista de mais de 3 mil jovens que desde 2010 receberam formação sobre cooperativismo e assim fundaram 91 cooperativas escolares no Rio Grande do Sul. Destas, 34 que estão ativas são filiadas à Federação das Cooperativas Escolares, a Fecoopes Pioneira, com sede em Nova Petrópolis.


Embora o que a comunidade na maioria das vezes tenha contato é o produto feito pelos estudantes, professores e os próprios associados garantem ser mais importante aquilo que nem todo mundo vê. Afinal de contas, é a própria gurizada que organiza assembleias, elabora estatutos, faz atas e controla o livro caixa. Lições de cidadania, democracia e empreendedorismo aprendidas na escola, mas que serão levadas para fora dela. A partir de hoje você acompanha a Série Cooperativas Escolares, uma lição além da sala de aula e conhece histórias de escolas que foram transformados pelo cooperativismo.



UniSanto ensina autonomia


A diretora Ana Elicker é uma entusiasta da UniSanto e destaca o apoio do município que oferece o transporte e a alimentação para que os alunos passem o dia na escola, pois as atividades da cooperativa ocorrem no contraturno. “Eles se sentem importantes dentro da escola. Isso melhorou demais o comportamento de alguns. A cooperativa é independente da escola e eles têm orgulho disso”, salienta. De acordo com Ana, pois mais a UniSanto trabalhe o empreendedorismo, o maior objetivo é o educacional, oferecendo a oportunidade dos jovens terem novos olhares e vivenciarem uma nova forma de aprender. Ela orgulha-se me dizer que a cooperativa é autônoma dentro da escola com presidente, vice e uma diretoria. “Eles vivem por si, embora a gente dê o apoio. A amizade que eles fazem aqui é muito superior àquilo que eles vivem dentro de uma sala de aula”, finaliza.

Habilidades descobertas

Suelen Gottschalk (foto), 15 anos, é a presidente da Cooperativa da Escola Municipal Dom Pedro II (CooeDom), de Linha Solitária, interior de Igrejinha. Ela lidera um grupo de 26 associados que cuidam de uma horta e produzem sal temperado. Se essa responsabilidade estivesse nas mãos da jovem no ano passado, ela correria da briga. “Antes eu tinha muita vergonha, não que hoje eu não tenha, mas é bem menos. Hoje eu falo mais, eu puxo a frente. Se fosse pra fazer isso no começo do ano passado eu não fazia”, diz a jovem entre sorrisos. Segundo a jovem, depois da timidez, a maior dificuldade que enfrentou foi controlar a bagunça. A mudança no comportamento foi percebida por colegas e professores. A docente Bianca Steigleder Bazzan, responsável pelo projeto Cooperativas escolares em Igrejinha, destaca que o protagonismo dos alunos cresce quando participam da atividade. “Eles começam a falar mais, a colocar mais as ideias, serem autônomos, não só no trabalho da cooperativa, mas na escola como um tudo também. A Suelen é um exemplo claro disso”, comenta. Para Bianca, os alunos levarão para suas vidas a importância de ajudar aos outros, organização do trabalho em grupo e a divisão de tarefas, além de serem cidadãos mais críticos e conscientes. Já o diretor Amarildo José Rodrigues, pontua a felicidade dos alunos em gerirem a CooperDom. “Eles se sentem gratificados e valorizados pelo trabalho que eles estão fazendo e buscam cada vez mais fazer o melhor”, garante.


Aprendendo a fazer sal temperado

A Escola Dom Pedro II atende 97 alunos da zona rural, entre o 4.º e 9.º ano do ensino fundamental. Foi justamente por essa característica de ser uma escola do campo que surgiu a ideia do objeto de estudo da cooperativa fundada em novembro de 2016 ser o sal temperado. Há um grupo de mulheres na localidade chamado Girassol que foi até o colégio aplicar uma oficina sobre o produto. “Achamos fácil de fazer e começamos com essa ideia. Neste ano a gente também está começando a fazer mandala para vender”, conta Suelen. A clientela dos associados é a comunidade escolar, além do público que frequenta eventos como o Matchê Arte e a Feira do Livro.

Todo o tempero utilizado na receita é colhido na horta construída por intermédio de uma gincana. A professora orientadora da cooperativa, Simone Cardoso de Souza, conta que foram coletadas garrafas pets utilizadas para fazer os canteiros, que com a ajuda de uma família, ganharam o formato de pétalas de flores. Em cada pétala, são cultivados diversos temperos como salsa, cebolinha, alecrim, manjericão e tomilho. Assim, os clientes da Cooedom consomem menos sódio e mais sabor na comida.

As alunas Amanda Bueno, Náthali Rafaelli de Assis, e Jaqueline Cavalheiro de Freitas, ambas de 14 anos, auxiliam na embalagem do produto.


FIQUE POR DENTRO

Brasão da CooedomTodas cooperativas escolares criam uma logomarca de identificação, trazendo elementos do cooperativismo e símbolos locais. Assim, a bandeira da CooeDom mostra as sete cores do cooperativismo e os dois pinheiros, fazendo referência a igualdade entre os pilares do social e econômico. Além disso, ao fundo se vê o Morro da Cruz, paisagem que os moradores de Linha Solitária contemplam diariamente e está nos fundos da área da escola.

União que dá vida a cartões de papel reciclado

Com caixas de coleta distribuídas em todas as salas de aula, todos os 221 alunos da Escola Municipal Santo Antônio, de Rolante, no Vale do Paranhana, já sabem que papel não é mais lixo, mas matéria-prima valiosa para a cooperativa. Todas as sextas-feiras as caixas são esvaziadas e o material é picado para começar a preparação da polpa que será transformada em papel reciclado. Essa ideia a UniSanto teve depois de participar de oficinas de artesanato, que só aconteceram no colégio graças ao projeto da cooperativa escolar. “A gente coloca aqui de molho, deixa parado até a outra semana, bate no liquidificador e coloca ali dentro da bacia e vira o papel reciclado. Aí a gente passa a telinha”, explica o Michael Kunzler, 11 anos, aluno do 6.º ano.

Depois que o papel está seco, começa a produção de cartões, de variadas cores e mensagens. “Eu entrei no meio do ano passado. Achei que eu poderia aprender a trabalhar em grupo, em equipe. Eu gosto de ajudar”, conta Thaísa Lagori, 14 anos, do 9.º ano. O foco dos associados agora é o Natal. Todos trabalham juntos para confeccionar o maior número possível, que será oferecido aos familiares, amigos, vizinhos e moradores da cidade. Por enquanto, eles não sabem o que farão com as sobras, o lucro obtido com as vendas, embora tenham definido que a meta seja ajudar a escola.

Cooperativismo que transforma a escola

A UniSanto foi fundada em 24 de outubro de 2016 com 20 associados. Segundo a diretora Ana Elicker, não teve critérios de escolha, todos foram convidados e quem aceitou participou da formação. Depois que os alunos apresentaram a proposta para os demais, novos cooperados começaram a chegar. Natália Corá Kirsch, 14 anos, acompanhou o processo desde o início. “Eu acho que é muito importante participar. Eu ensino o que eu sei e aprendo com os meus amigos, que também se tornaram cooperados”, ensina. De acordo com ela, a Santo Antônio foi transformada pela experiência da cooperativa escolar. “Tanto os alunos como os professores se uniram muito, foi uma experiência incrível estar aqui, o que mudou bastante a escola. Eu não conhecia a cooperativa antes do projeto. Esse é o primeiro passo para gente aprender a cooperar entre pessoas”, garante.

O boom das cooperativas escolares


Embora já existissem cooperativas escolares no Estado, foi apenas em 2010 que a iniciativa tomou corpo e passou a conquistar mais adeptos. Naquele ano, foi firmado um termo de irmandade entre Nova Petrópolis, capital nacional do Cooperativismo, e a cidade argentina de Sunchales, que também tem a mesma vocação. Por meio dessa parceria, o cooperativismo passou a ser base de aprendizado nas escolas tendo como fomentador a Casa Cooperativa de Nova Petrópolis, mantida pela Sicredi Pioneira e a Cooperativa Piá. Neste ano, o programa União faz a vida, do Sicredi, também passou a apoiar a iniciativa. Assim, como explica o professor Everaldo Marini, assessor da Casa Cooperativa, surgiu um novo modelo de cooperativa escolar, onde o mais importante não é o produzir e vender, mas o aspecto pedagógico. “A cooperativa se torna um grande laboratório de pesquisa onde os alunos desenvolvem várias habilidades”, diz.
Dessa maneira, conhecimentos como a língua portuguesa e matemática são colocados em prática quando os cooperados redigem e corrigem uma ata ou planejam a sua produção.
A primeira cooperativa constituída com esse novos formato foi a Cooebompa, pertencente à Escola Técnica Bom Pastor, de Nova Petrópolis. Foi fundada em 18 de novembro de 2010 graças à irmandade entre as duas cidades.

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