Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Rua Jornal NH, 99 - Bairro Ideal - Novo Hamburgo/RS - CEP: 93334-350
Fones: (51) 3065.4000 (51) 3594.0444 - Fax: (51) 3594.0448

PUBLICIDADE
Ciência

Físico brasileiro avança com teoria cosmológica que dispensa Big Bang

Pesquisador defende alternativa que prevê ciclos de expansão e contração de um Universo eterno
31/12/2017 10:17 31/12/2017 10:18

A galáxia de Andrômeda, em foto de telescópio de longo alcance. Em 10 bilhões de anos ela vai colidir com a Via Láctea. Em 100 bilhões de anos, astrônomos preveem que o Universo terá se expandido tanto que luzes e matéria não serão mais discerníveis "E tudo começou com um Big Bang". A frase, tirada da letra da vinheta de abertura de uma famosa série de TV, demonstra quanto esta teoria, que busca explicar o início de nosso Universo, está arraigada na cultura popular e no imaginário das pessoas. Mas, no mundo científico, ela é vista com cada vez mais ressalvas e desconfiança por muitos especialistas. E entre seus críticos ganhou destaque nas últimas semanas o físico brasileiro Juliano César Silva Neves.

Pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Neves publicou recentemente um artigo em um importante periódico da área, General Relativity and Gravitation, no qual uniu seus estudos sobre a física dos buracos negros à cosmologia para atacar, literalmente, o cerne da teoria do Big Bang.

Concebida na primeira metade do século XX para explicar então recentes observações de que o Universo, que se achava "estático", na verdade estava se expandindo, ela advém da ideia do que aconteceria se pudéssemos andar para trás com o "relógio" cósmico. Assim, as galáxias em geral, no lugar de estarem se afastando de nós mais rápido quanto mais distantes estivessem, começariam a se agrupar e fundir, com o espaço-tempo - conceito também então recém-apresentado por Albert Einstein em sua teoria da Relatividade Geral - encolhendo até que todo conteúdo de matéria e energia do Universo estivesse concentrado em um ponto microscópico de infinita densidade em que as equações da própria Relatividade deixam de "funcionar", uma chamada "singularidade inicial".

Acontece que os buracos negros também teriam suas próprias "singularidades". Estes objetos astronômicos, com um campo gravitacional tão poderoso que nem a luz consegue escapar, surgem do colapso de estrelas gigantes no qual toda sua massa também ficaria concentrada em um ponto de infinita densidade como consequência de soluções das equações de Einstein.

Mas outras soluções destas mesmas equações, que não levam à formação de uma singularidade, também são possíveis. E foi aplicando um destes caminhos, apresentado pelo físico americano John Bardeen nos anos 1960, na questão da singularidade inicial do Big Bang que Neves deu mais um passo em uma teoria alternativa para o início de nosso Universo. Conhecida como Big Bounce, ou cosmologia de ricochete, ela defende que o Universo passa por sucessivos processos de expansão e contração sem nunca chegar a formar uma singularidade em si e, portanto, sem início nem fim, no que se poderia chamar de um Cosmo "eterno".

"Nego o Big Bang usando duas perspectivas, física e filosófica", conta Neves. "A física para mim é clara. A ideia do Big Bang é apenas uma das soluções das equações de Einstein, na qual, se você presumir certas condições para o comportamento da matéria e da energia, você tem necessariamente esta singularidade inicial. Ela é o suposto estado inicial do universo, onde a física de hoje não é capaz de oferecer uma resposta segura caso você o aceite. Mas o conteúdo de matéria e energia do Universo não precisa obedecer essas condições impostas pelo teorema de singularidades de Hawking-Penrose, que ao longo dos anos foram encaradas até com certa naturalidade. De uns 20 anos para cá, porém, alguns começaram a colocar em dúvida essas condições. E se você resolver as equações de Einstein sem essas condições, você tem buracos negros sem singularidades, os chamados buracos negros regulares, e você tem as cosmologias de ricochete, sem Big Bang. Nas cosmologias com ricochete, a física funcionaria bem em todo momento, inclusive no ricochete".

Já do ponto de vista da filosofia, área que também estuda e escreve artigos, Neves destaca que a teoria do Big Bang, com sua noção de um início para tudo, acabou se mostrando bastante "aceitável" e "confortável" a uma visão hegemônica judaico-cristã do Universo.

"Minha ideia básica é acabar com essa noção de uma singularidade inicial, com o pensamento de uma origem para o Universo, porque para mim isso não faz sentido. Fico até abismado como muitos cosmólogos e físicos aceitam isso muitas vezes até de forma natural", diz. "Uma das explicações que encontro para isso está na própria tradição cultural judaico-cristã que o tempo, o Universo, tudo tem que ter um início, um meio e um fim. Mas hoje a gente já pode pensar o Cosmo, o tempo, de uma outra perspectiva. É possível encarar este problema da origem de uma forma científica hoje".

Juntando as duas perspectivas, Neves lembra que um dos grandes problemas da teoria do Big Bang é justamente não responder a uma pergunta simples, que é o que existia antes da singularidade inicial. "Filosófica e fisicamente também não faz sentido presumir um início do Universo do nada. Já as cosmologias do ricochete respondem a esta questão afirmando que o que existia antes deste Universo foi outro Universo que se contraiu e se expandiu de novo, e antes dele um outro, assim como depois do nosso surgirá outro, numa sucessão eterna de Universos alternando fases de expansão e contração".

Segundo Neves, os modelos de cosmologia de ricochete podem ser absolutamente compatíveis com dados observacionais que ajudaram a moldar e desenvolver a teoria do Big Bang no último século, como a chamada radiação cósmica de fundo, o "eco" em micro-ondas desta suposta grande explosão detectável para qualquer lado que se olhe o espaço. E isso inclui até a recém-descoberta aceleração da expansão do Universo, alimentada por uma misteriosa "energia escura", de natureza ainda desconhecida pelos cientistas. De acordo com ele, isso não descarta necessariamente a ideia de que nosso Universo eventualmente entre numa fase de contração no futuro.

"Pelo contrário, a energia escura mostra que pode-se violar as condições de comportamento da matéria e da energia do modelo padrão do Big Bang. Se é possível haver uma forma de energia escura que viola estas condições cosmológicas, isso significa que ela não satisfaz os teoremas de singularidade. E se temos algo que não satisfaz os teoremas de singularidade, isso significa que podemos aceitar a ideia de que não houve a singularidade inicial do Big Bang. Além disso, não sabemos o que é esta energia escura nem sua natureza, então é possível que ela mude seu comportamento, que numa determinada escala do Universo ela inverta sua influência e passe a forçar uma contração de forma que tenhamos um ricochete".

Mais do que isso, Neves vislumbra a possibilidade de se comprovar a cosmologia de ricochete, enterrando de vez a ideia de um Big Bang a partir de uma singularidade inicial. Um dos caminhos é o nascente campo da astronomia de ondas gravitacionais, oscilações no próprio espaço-tempo previstas pela Relatividade mas detectadas pela primeira vez apenas recentemente. Segundo ele, podemos encontrar meios de detectar ondas do tipo com uma "assinatura" que só poderia ter sido produzida em uma fase de contração de um Universo anterior ao nosso. Além disso, de volta aos seus estudos sobre buracos negros, Neves adianta que está finalizando trabalho a ser submetido em breve para publicação em que propõe uma maneira de usar a termodinâmica para distinguir buracos negros com e sem singularidades no seu interior. 

Neves, no entanto, não é o primeiro físico brasileiro a se destacar na defesa de um Universo cíclico e "eterno" no lugar de um "detonado" por um Big Bang. Decano da ciência nacional, Mario Novello, pesquisador e professor emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), desde os anos 1970 estuda e divulga estas teorias alternativas que agora ganham cada vez mais espaço no mundo científico, abrindo caminho para trabalhos como o do físico da Unicamp.

"Acho que o Mário sim sofreu preconceitos. Quando ele começou a defender cosmologias do tipo ricochete nos anos 1970, essa ideia era muito nova. Hoje o número de trabalhos em cosmologias ricochete é muito alto e elas são vistas como uma opção razoável. Tanto que vários grandes cosmólogos que trabalhavam no fortalecimento do modelo padrão do Big Bang e singularidade inicial no passado agora trabalham com teorias do modelo ricochete".



Jornal NH
PUBLICIDADE

WEBTV

PUBLICIDADE
Capa do dia

FOLHEIE O SEU JORNAL PREFERIDO NA TELA DO SEU COMPUTADOR.

ACESSE ASSINE AGORA
51 3600.3636
CENTRAL DO ASSINANTE

51 3591.2020
CENTRAL DE VENDAS DE ASSINATURAS