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Luiz Coronel

O julgamento de Lula

"A uma entrevista respondo com texto de Cecília Meireles: Não absolvo, nem condeno. Contemplo, tristemente"
04/02/2018 06:40

Luiz Coronel Luiz Coronel é poeta
www.luizcoronel.com.br

O pouso em São Paulo acontecia ao anoitecer. Uma infinita constelação de lâmpadas brilhando nas extensões da imensa cidade. Pensei, demoradamente, em um pequeno homem de origem humilde, ao qual a história, em seus passos e passes misteriosos, colocou sobre seus ombros a inquietação de um país continente. Aquele homem, ao escovar seus dentes, deitar a cabeça no travesseiro, recompõe sua trajetória de nordestino humilde às galas e tumultos do poder. Seu nome passa a dividir uma nação. Ao olhar seu rosto no espelho, de quais verdades ele foge, que sonhos reconstrói, o que resta inalterado em sua vontade política? O que se lambuzou em sua trajetória política?

A uma entrevista respondo com texto de Cecília Meireles : “Não absolvo, nem condeno. Contemplo, tristemente”. Não precisávamos chegar a este triste momento. Poderíamos estar presenciando um notável crescimento econômico e cultural, uma construção política promissora. Construímos a “República Plurisalafrária”, dos partidos abocalhando cargos, assaltando os cofres públicos, sem que o rei ou a rainha nada soubessem e o seu parlamento conivente, nada denunciasse. Não terá sido por atos de virtude que resvalamos no lodaçal!

A negação sistemática de culpa não consolida uma prova de inocência do ex-presidente. Seria necessário que a Legião Lulista contestasse a cada uma das provas que organizaram a condenação. E isto não está acontecendo. A doutrina da conspiração coloca em suspeita não apenas os doutos juízes, mas o Poder Judiciário. Sob o ritmo dos tamborins, sob a euforia da Copa do Mundo, uma procissão de candidatos estará postulando a faixa presidencial nas eleições 2018. Que triste destino tem a América Latina. A esquerda, historicamente, foi proponente de novos caminhos. Nossa esquerda sofre de uma melancolia saudosista, atolada nos dogmas políticos do século 19, algemada aos superados ímpetos revolucionários dos anos 60. Águas passadas não movem moinhos. Os novos tempos exigem ideias novas. A história não quer andar com as rotas chinelas das utopias e ideologias de antiquário. Nosso discurso político é um guarda-chuvas com varetas quebradas, camisa com colarinho poído, produto com data vencida. Hoje já é ontem ante a velocidade de nosso tempo. Ante drones e naves espaciais somos tartarugas arrastando-se nas areias que lentamente deslizam na ampulheta do tempo.


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