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Crianças esquartejadas

Liberados pela Justiça desabafam sobre o caso

Ouvimos os homens considerados inocentes pelo delegado Rogério Baggio
10/02/2018 09:38 10/02/2018 18:06

Mais de um mês após terem sido acusados pela morte de duas crianças, encontradas esquartejadas em Lomba Grande em setembro do ano passado, e na semana em que a Justiça devolveu-lhes a liberdade, por solicitação da própria Polícia, sete homens tentam reconstruir suas vidas.

Eles foram indiciados pelo delegado Moacir Fermino por participação em suposto ritual satânico, onde os irmãos – um menino e uma menina – teriam sido mortos com requintes de crueldade. No entanto, diante do recuo das testemunhas que até então sustentavam a investigação, e sem conseguir provas da autoria do crime, todos foram soltos a pedido do delegado Rogério Baggio Berbicz.

“A grande probabilidade, 99%, é de que essas pessoas são inocentes e estavam presas, estavam com sua liberdade restringida”, afirmou o delegado quarta, em coletiva de imprensa onde assumiu que o inquérito voltou à estaca zero.

Soltos por decisão da Justiça, Silvio Fernandes Rodrigues, Jair da Silva, Andrei Jorge da Silva, Márcio Miranda Brustolin, Anderson da Silva, Paulo Ademir Norbert da Silva e Jorge Adrian Alves ainda serão ouvidos pela Corregedoria da Polícia Civil, que está com o inquérito que apura a denunciação caluniosa das testemunhas e um suspeito preso nesta semana em São Leopoldo e ainda a conduta do delegado Fermino.

Dos sete, apenas Paulo não foi ouvido, pois não compareceu ao local e horário marcados para a entrevista. Já o delegado Fermino, citado pelos entrevistados, estava com o celular desligado.

“Cautela e rigor”

A Corregedoria da Polícia Civil (Cogepol) começa a ouvir na próxima quarta-feira os sete homens que foram liberados pela Justiça e ao menos três testemunhas que embasaram a tese de ritual satânico no caso das duas crianças encontradas esquartejadas em Novo Hamburgo, em setembro do ano passado.

Com a investigação retornando à estaca zero e a revelação de que testemunhas mentiram sobre a participação dos então acusados, o delegado-corregedor, Marcos Meirelles, irá se debruçar durante todo o feriado na leitura do segundo inquérito, entregue a ele ao final da manhã desta quinta pelo titular da delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo, Rogério Baggio. O primeiro inquérito do caso, de autoria do delegado Moacir Fermino, foi descartado pela Polícia Civil.

“Estamos analisando todos os depoimentos antes de começar as oitivas. É uma farta documentação”, resume Meirelles, ao pontuar que, além das oitivas, outras medidas não estão descartadas pela Cogepol e a delegacia de Feitos Especiais, ligada ao órgão. “Vamos com cautela, mas com vigor. Até pelos constrangimentos já ocorridos. Mas queremos ouvir todos os envolvidos, tanto testemunhas quanto supostos autores”, garante ele, assegurando que também o delegado Moacir Fermino e policiais de sua equipe serão chamados a esclarecimentos.

Meirelles ressalta que tem dez dias para findar a sua apuração. “Não quer dizer que eu não possa pedir prorrogação, mas a ideia é entregar nesses dez dias, até porque nesse inquérito há ainda uma pessoa presa.” (Amilton Belmonte)

O que dizem os que tinham sido acusados pelo crime 

Silvio Fernandes Rodrigues, 47 anos

“Eu perdoo por esse equívoco”

Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Silvio Fernandes Rodrigues, 47 anos
Com uma fala tranquila e ainda buscando reconstruir a vida após 46 dias preso, Silvio deixou claro que não é um bruxo e sim um mestre de magia com 21 anos de estudo. Também explicou que não segue o satanismo. A perseguição religiosa é, na visão dele, o principal motivo de ter sido alvo de investigações do caso. “Acredito no luciferanismo, que além de ser justo e correto, aprimora a pessoa a chegar a um objetivo. Algumas pessoas acreditam que nas trevas não há luz, mas há, até porque somos falhos, somos seres humanos e trabalhamos com a dualidade das energias positiva e negativa, bem e mal, certo e errado, o que inclusive te dá o direito de escolher o caminho que tu queres”, definiu.

Ele ainda reforçou que repudia qualquer tipo de religião ou crença que utiliza sangue ou corpos humanos. Sobre a situação que o levou à cela da Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), ele falou em perdão. Neste tempo, ficou em uma cela comum com outras cinco pessoas, que até lhe deram colchão e roupas. Ele também agradeceu ao tratamento que teve dentro da Terceira B, pavilhão da PEJ. “Eu perdoo ele [delegado Moacir] porque somos humanos, somos falhos. Os motivos para fazer o que fez não cabe a mim julgar, somente a Deus e à espiritualidade. Eu, como religioso que sou, eu perdoo por esse equívoco causado nesse sistema de policiamento.”

Ao lado da esposa, a empresária Aline Mello da Silva, 28, disse ainda temer represálias quanto a ter sido chamado de “assassino de criancinhas”, como ele mesmo definiu. “O medo é constante. Estou na rua e com medo, minha família respira o medo. Minha esposa ficou assim depois da armação covardemente que fizeram contra ela”, contou, em referência a uma operação contra uma suposta ligação clandestina de energia elétrica em sua propriedade.

Aline chegou a ficar presa por 48 horas no Presídio Estadual Feminino Madre Pelletier. “Minhas coisas religiosas foram depredadas, rasgadas, quebradas, estou juntando os cacos deixados para trás tanto nas coisas materiais quanto o psicológico. Só que nesse momento estou primando pela segurança e o restabelecimento da ordem e da moral da minha família”, acrescentou.

Jair da silva, 47 anos

“Com medo das ameaças

Jair da Silva, 47 anos Preso em 27 de dezembro em sua casa no bairro Lomba Grande e na frente da família, Jair era suspeito, conforme o inquérito de Fermino, de ter encomendando o suposto ritual macabro. No dia da abordagem, ele explica que o pedido da Polícia Civil era pelas cabeças das crianças. Dentro da viatura, a caminho da Delegacia, disse que ainda questionava o motivo da ação. “Mas estou sendo preso por quê? E eles só diziam: tu sabe, magia negra”, contou. “Eu sou evangélico, vou na igreja todo sábado e domingo. Nunca que eu ia fazer uma crueldade dessas. Foi tudo loucura desse homem. Se ele fosse evangélico, não usaria o nome de Deus em vão.”

Ele conta ainda que a casa ficou abandonada e que, nesse tempo de prisão, foi roubado. “Levaram fios de luz, cordas de amarrar gado, gerador de luz, até carne. Minha mulher foi para a casa do meu irmão e daí a casa foi invadida, quebraram as portas e levaram mais coisas miúdas. Soltaram os animais, eu tinha uns R$ 40 mil em porcos e tive que vender por R$ 5 mil para não perder tudo. Tinha até gente ameaçando colocar fogo na minha casa”, explicou.

Jair ficou detido por mais de 40 dias no presídio de Charqueadas e conta que viveu momentos terríveis. “Os presos diziam que iam matar a gente e eu também não sabia como estava a minha família, que sofria ameaças. Era horrível. Mas, quando eu fui para a ala dos evangélicos, ficou melhor, ainda bem que tinha pessoas de Deus lá dentro”, disse.

Sobre os R$ 25 mil pagos pelos ritual para obter prosperidade nos negócios, Jair se assusta com a história e acrescenta: “Eu nunca tinha ouvido falar desse cara”, em referência ao mestre de magia Silvio Rodrigues. “Por que eu botaria a culparia em alguém que eu nem conheço? Eu só orava pedindo a Deus para poderem achar a pessoa que fez isso, aí acabava tudo. Justiça seria terminar com tudo isso aí e seguir com a vida, normal, trabalhando.”

Sobre o inquérito policial que o levou à prisão, Jair também fala em perdão. “Mas eu perdoo o delegado. Estamos aliviados, mas com muito medo das ameaças. As pessoas precisam entender que somos inocentes”, ressaltou, acompanhado dos advogados Roger Alves da Rocha e Fábio Adams.

Jorge Adrian Alves, 33 anos, o Argentino

“Vi a foto e disse: não sou eu”

Jorge Adrian Alves, 33 anos, o Argentino  Foragido de um crime que até então nem conhecia muitos detalhes, Jorge diz que se assustou quando viu seu nome em um rosto diferente. Refere-se à fotografia divulgada pela Polícia. “Vi a foto e disse: ‘não sou eu, ele tem uma cicatriz do lado direito, a boca é diferente, o cabelo também’. Eu procurei no Google, investiguei, mas não sei quem é.”

Ainda amedrontado com a situação, revelou que se refugiou na casa da avó, onde ajudaria a arrumar o telhado. Pai de dois filhos que moram na Argentina, contou que não consegue entender a suposição de que teria buscado duas crianças no seu país para o suposto ritual. “Eu nunca consegui entender, tenho familiares em Buenos Aires, La Pampa, Córdoba, Missiones, mas Corrientes é o único lugar que eu não tenho contato”, destacou.

Márcio Miranda Brustolin, 32 anos

“Quero que o culpado apareça”

Márcio Miranda Brustolin, 32 anos Preso no dia 7 de janeiro, no momento em que compareceu espontaneamente à delegacia para prestar testemunho sobre o caso das crianças, Márcio diz ter sido instigado pela Polícia a “dizer a verdade”, que assim poderia ser solto. “Eles queriam que eu dissesse que era coisa do Jair, mas eu não faria isso, porque não é a verdade”, afirmou. “Me ofereceram pra fazer delação premiada, que iam me dar proteção se eu falasse. Mas eu não ia mentir”, relatou.

Sobre a postura do delegado Fermino, ele diz apenas que espera que ele se “se acerte com Deus”. “Quero que o culpado apareça. Agora a Justiça está sendo feita. Se eu fosse mesmo bandido, eu nunca teria ido à delegacia. Eu fiquei aqui trabalhando, nunca fugi”, disse junto de seus defensores.

Anderson da Silva, 23 anos, filho de Jair

“Gostaríamos de uma retratação”

Anderson da Silva, 23 anos, filho de Jair Foragido durante a investigação do delegado Fermino, Anderson viu o pai e o irmão serem levados pela Polícia, mas conseguiu se esconder na casa de familiares. “Eu estava trabalhando perto de casa e minha mãe veio correndo, assustada, me avisar pra fugir que a Polícia ia me matar. Por isso que não me entreguei”, contou ele ontem à tarde.

Trabalhador da construção civil, junto do pai, do irmão e com a parceria de Márcio e Jorge, Anderson também costumava vender melancias. “Quem deveria limpar nosso nome é quem sujou. Gostaríamos de uma retratação pública do delegado. Porque agora eu não posso sair de casa, como é que eu vou parar na estrada e vender melancia se a gente é ameaçado o tempo todo?”, questionou.

Andrei Jorge da Silva, 21 anos, filho de Jair

“Agora a Justiça está sendo feita”

Andrei Jorge da Silva, 21 anos, filho de Jair Detido junto do pai, em 27 de dezembro, Andrei relata que só conheceram o mestre de magia Silvio Fernandes na delegacia, onde ficaram presos durante quatro dias. Depois, foram transferidos ao presídio. “Lá, o pessoal gritava pra gente que iam ganhar R$ 50 mil pra nos matar. Que a gente era bruxo”, relembrou.

Ele também comemora o novo rumo da investigação. “Agora a Justiça está sendo feita, porque se provou que não somos nós os culpados. Mas ainda não estamos aliviados, porque sofremos ameaças. A gente quer voltar à nossa vida”, afirmou. “Eu espero que as pessoas não nos julguem sem saber a verdade. Quem nos conhece sabe que não tem a mínima chance de a gente fazer uma crueldade dessas”, relatou ontem à tarde.

Adriana Lima e Karina Sgarbi


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