

Enviar por e-mailQuando se fala em inferno para um fã de heavy metal, isso não é necessariamente encarado como algo ruim. Mas os dois dias de Metal Open Air, em São Luís, no Maranhão, foram o inferno no pior sentido da palavra para os milhares de fãs que se deslocaram de todo o Brasil, e até de países vizinhos como Argentina, Uruguai e Colômbia.
Originalmente pensado para ser o maior festival de som pesado da história do Brasil e da América Latina, o M.O.A. foi um espetáculo de desorganização e falta de respeito com o público, a cidade e o País. Das 45 bandas escaladas para tocar, apenas 16 subiram nos palcos. Dos três dias (20, 21 e 22 de abril), restaram dois, e muito desfalcados - no segundo, apenas quatro atrações se apresentaram.
Os problemas começaram a aparecer apenas três dias antes, quando a primeira banda nacional, justamente os gaúchos da Hangar, anunciaram desistência por falta de pagamento. A essa altura, São Luís já recebia centenas de turistas especialmente para o evento. Mas a coisa foi ficar séria quando o show dos ingleses do Venom, headliner do último dia, foi cancelado sob uma desculpa bem furada: os vistos teriam ido para a África, e não para a América do Sul. Ninguém acreditou na história, até porque pouco tempo depois os também ingleses do Saxon, o segundo headliner da última noite, cancelaram seu show por “grave violação no contrato”. Daí em diante, uma após a outra, as bandas do segundo dia cancelavam seus shows devido a total falta de estrutura.
O caos da entrada
A chegada ao festival no primeiro dia já mostrava o caos que seria. A entrada do público era feita em uma área coberta por uma tenda, com filas desordenadas para a troca dos ingressos. Funcionários da empresa que fez a venda dos ingressos se viravam para tentar atender bem o público em três laptops instalados em mesas de escola, em cima da grama embarrada. No canto, a imprensa se amontoava na espera das credenciais, que ainda não estavam no local. Além disso, os e-tickets comprados pelo site do festival eram trocados por fitinhas de pano. Do lado de fora seguranças vendiam essas mesmas fitinhas, como cambistas.
Falta de informação
Se o público não era informado de nada pelas produtoras, os jornalistas também estavam perdidos. O credenciamento só foi feito após o primeiro show, do Exciter. Nesse momento, uma produtora informou que a escalação de bandas naquele dia seria fora de ordem, mas que ainda na sexta-feira seria enviada uma nota para a imprensa com a nova ordem das bandas para o sábado e domingo. Até hoje este e-mail não chegou.
Dentro do local, também não havia informação oficial. Tudo o que chegava ao ouvido de fãs e jornalistas era através de notas das bandas ou boatos em redes sociais. E sempre eram notícias de cancelamentos. Apenas em um momento, no segundo dia, um produtor teve capacidade de subir no palco e falar com o público, e mesmo assim deu uma informação errada, ao anunciar shows de diversas bandas internacionais que não subiram no palco.
Segurança inexistente
As produtoras soltaram notas oficiais após o fiasco que foi o festival, na qual rebateram alegações de bandas internacionais sobre a falta de segurança no local. Pois os responsáveis pelo evento devem ter ido em outro festival. Dentro do Parque Independência era ridícula a segurança. Ela era feita por meia-dúzia de homens e mulheres, e mais um ou outro policial. Na frente dos palcos, onde os fotógrafos se posicionam, era fácil entrar sem credencial, especialmente no segundo dia, quando o local ficou sem um segurança até o terceiro show, algo completamente impensável em qualquer show sério.
Além disso, o local, cheio de terra e barro, devido a chuva que cai todos os dias em São Luís nessa época do ano, tinha fios mal protegidos por todos os cantos. Outra coisa completamente sem sentido: eram vendidas latas de bebidas para o público. Isso não acontece em show algum, para evitar que alguém resolva atirar isso nos palcos. Mas o mais absurdo nesse quesito foi que pessoas entravam no parque com garrafas de vidro! Para a sorte da “organização”, o público foi muito pacífico, pois isso tudo poderia ter virado arma em uma confusão.
Algo se salvou no festival?
Sim, mas com ressalvas. Os poucos shows que ocorreram, em geral foram muito bons, mas tiveram todos muitos problemas técnicos. Falta de retorno para os músicos, som mal equalizado para o público, e por aí vai.
Os destaques ficaram, principalmente, no primeiro dia. O Orphaned Land, de Israel, tocou ainda de dia e surpreendeu muitos que não conheciam a banda com um show muito divertido, com músicos realmente empolgados por estarem no palco.

Orphaned Land

Orphaned Land
Os canadenses do Anvil fizeram outra grande apresentação. O trio liderado pelo guitarrista e vocalista Lips tocou como se as suas vidas dependessem daquilo. Lips, alias, é uma figura. O show inteiro ele fez caretas dignas de alguém que saiu direto do sanatório para o palco, brincou, falou com os fãs pela guitarra e bateu cabeça como um guri em seu primeiro show, enquanto mandava clássicos como Metal On Metal, que fechou o show.

Anvil
O Destruction levou o thrash metal alemão ao palco e fez um dos shows mais barulhentos do festival. Atrás de seu baixo, o gigante Schmier comandou uma destruição de pescoços menos acostumados com um set direto, com direito a Mad Butcher, The Butcher Strikes Back e finalizaram com a destruidora Curse The Gods.

Destruction
O melhor show da primeira noite – e de todo o festival – foi sem dúvida o dos norte-americanos do Exodus. A lenda do thrash da Bay Area teve que encurtar seu set list, para fúria do vocalista Rob Dukes, o que parece só ter aumentado o ódio nas músicas. Com Dukes em sua tradicional performance insana, e o monstruoso Gary Hold detronando nas seis cordas, a apresentação foi arregaçadora. Começando com The Ballad Of Leonard And Charles e encerrando com Strike Of The Beast, foi um show cataclísmico, com direito a rodas de mosh e Wall Of Death. Mesmo com menos músicas, Children Of A Worthless God, And Then There Were None, Blacklist e Bonded By Blood fizeram o público enlouquecer.

Exodus
O Symphony X também fez um bom show, para quem gosta de power metal. O grande destaque nessa apresentação foram o virtuosismo do guitarrista Michael Romeo e a ótima performance do vocalista Russell Allen.
O único headliner que não cancelou seu show foi o Megadeth, mas fez um show que pode ser classificado no máximo como razoável. Não era para menos, já que desde o começo os problemas com o vocal e a guitarra do vocalista, guitarrista e dono da banda, Dave Mustaine, estavam muito claros. Mesmo assim os caras se esforçaram. A apresentação começou com Trust, já emendada com Hangar 18, para delírio dos fãs. Só que aí tudo para e a banda sai de cena. Mustaine volta ao palco e explica que tem problemas no equipamento, mas continua com She Wolf. Durante toda a apresentação a banda saía do palco após as músicas, para tentar resolver os problemas. Mas após A Tout Le Monde, Symphony Of Deatruction e Peace Sells, Mustaine se despediu do público. Após alguns minutos a banda voltou para Holy Wars... The Punishment Due, e encerrar de vez a apresentação que durou menos de uma hora.

Megadeth
O segundo dia teve apenas quatro shows. As brasileiras Ácido e Dark Avenger tocaram seus sets como se estivessem no melhor festival de todos os tempos, e parece que ignoravam que tudo aquilo estava um caos. A única banda internacional da noite, o Legion Of The Damned, fez um show bastante competente para quem gosta de death metal, mas também teve muitos problemas no som.
O festival foi encerrado pelos brasileiros do Korzus, única banda nacional realmente digna de nota. Não porque os outros shows de brasileiros tenham sido ruins, mas porque foram os únicos que tiveram capacidade de dizer claramente que aquilo tudo era um desrespeito com o público.
Neste dia várias bandas internacionais estavam em São Luís, mas desistiram do festival pela total falta de estrutura: U.D.O., Grave Digger, Blind Guardian e Anthrax se juntaram ao Rock And Roll All Stars e Glen Hughes, que já estavam fora desde o primeiro dia. O domingo nem teve shows, e a produção não teve a dignidade de avisar isso aos fãs ao final do show do Korzus.

Korzus
Vergonhosa atitude de bandas nacionais
Duas bandas das que subiram no palco no primeiro dia precisam repensar suas atitudes: Almah e Shaman. Foi vergonhoso ver dois nomes fortes do heavy metal brasileiro defendendo os produtores, como se eles fossem mártires, quando na verdade eram os algozes. O vocalista do Almah, Edu Falaschi, precisa urgentemente decidir o que ele pensa sobre a cena metal. Em 2011, em um desabafo, ele gerou uma grande polêmica por criticar veementemente a forma como as bandas do país são tratadas. E no M.O.A. foi ao palco e defendeu tudo o que tinha criticado: a desorganização das produtoras e a falta de pagamento correto aos artistas nacionais, ao bater no peito para dizer que tinha pago do próprio bolso o hotel. Se isso estava errado em 2011, por que em 2012 se tornou certo?
O público: pacífico, mas calado demais
Para sorte dos organizadores, o público que foi ao Metal Open Air foi extremamente pacífico. Não houve quebra-quebra, brigas ou tentativas de agressões. No entanto, também praticamente não houve protestos, e isso é errado. Durante todo o tempo os fãs deveriam ter exigido os seus direitos e cobrado dos produtores, mas fizeram isso em duas ou três oportunidades, timidamente. Mas ainda dá tempo de fazer algo. Quem foi no festival deve guardar todos os comprovantes de passagens aéreas ou ônibus, gastos com hospedagem e com a compra de ingressos, e procurar o Procon e Ministério Público, para exigir o ressarcimento.

Público