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Sétima das Artes

Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Filme francês voltado para mercado internacional tem visual deslumbrante e história confusa.

ValerianA nova empreitada do diretor Luc Besson (de O Quinto Elemento e O Profissional, entre outros) tem um problema. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é baseado numa história em quadrinhos que foi publicada na França há 50 anos. Era uma HQ revolucionária que influenciou toda a produção cinematográfica de sci-fi das décadas seguintes. Guerra nas Estrelas, principalmente, bebe muito dessa fonte. Mesmo em obras recentes, como Avatar, encontramos seu eco. 

O problema é precisamente esse: Valerian nasce como um filme que, mesmo se baseando num material original, se parece com muita coisa que o público já assistiu. 

Besson luta na sua adaptação para manter o frescor, porém. Ele investe pesadamente no aspecto visual da fita, com um grau de detalhismo muito belo. Os efeitos por computação gráfica são magistrais e as cores e texturas deste universo são fascinantes. 

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, apesar do elenco falando em inglês, é uma produção francesa (a mais cara já realizada no país, 190 milhões de euros). Prometia-se como um candidato a quebrar a monotonia visual das grandes produções de Hollywood. Quase consegue.

As imagens de tons pasteis contrastam com a estética de cores dessaturadas e contrastes tendendo para o escuro que vemos nos títulos da Marvel (para ficar apenas num exemplo mais exitoso). O próprio uso do 3D se justifica plenamente num sem-número de enquadramentos e é um dos poucos filmes recentes no formato que valem a pena.

Triste é que não há visual que se sustente sem uma boa narrativa.

O roteiro, também assinado por Besson, é muito confuso para contar uma trama relativamente simples. Há constantes furos e inconstâncias, como se ninguém tivesse revisado o texto. Os diálogos são ruins. O problema maior, contudo, fica nos personagens e na escolha dos atores para interpretá-los.

Os jovens Dane DeHaan (Valerian) e Cara Delevigne (Laureline) não tem o carisma necessário para segurarem os protagonistas -- que já são mal desenvolvidos no roteiro. Pior ainda, não possuem química entre si que os justifique como casal. Diz-se que a relação de ambos nas HQs influenciou a interação entre Han Solo e a Princesa Leia. Mas a dupla escolhida por Besson não chega nem perto de algo assim.

O que resulta num filme aborrecido, apesar da grande quantidade de cenas de ação bem realizadas. Não nos importamos com os personagens. Não temos motivo para torcer por eles. 

A despeito de ideias muito divertidas (como a alienígena que assume diferentes formas interpretada por Rihana, ou o hilário trio de criaturas que vende informações) e da beleza estonteante de cada cenário e criatura que aparece na tela, fica difícil se empolgar. Contudo, sua estética funciona melhor na tela grande do que funcionará na tela pequena. Se for pra ver, veja no cinema.

Crítica: Planeta dos Macacos: A Guerra

Capítulo final da trilogia honra os filmes anteriores.

Karin Konoval, left, and Amiah Miller in Twentieth Century Fox's "War for the Planet of the Apes."O recomeço (ou na linguagem da indústria cinematográfica, o reboot) da franquia Planeta dos Macacos é francamente surpreendente. A série reiniciou em 2011 com Planeta dos Macacos: A Origem, que venceu a desconfiança original entregando um excelente filme. Continuou em 2014, com o sensacional Planeta dos Macacos: O Confronto. Agora, o terceiro capítulo encerra mantendo o patamar altíssimo.

A Origem e O Confronto eram refilmagens/releituras muito livres dos dois títulos mais fracos da série original, respectivamente Conquista do Planeta dos Macacos (1972) e Batalha do Planeta dos Macacos (1973) -- o que, por si só, é uma decisão acertada. O Planeta dos Macacos original, de 1968, é um clássico irretocável. A tentativa de refilmagem levada a cabo por Tim Burton em 2001 (e seu fracasso) mostra isso.

Melhor, portanto, era rever os elos mais fracos da corrente e recriar a história de César, o criador da civilização de símios. Este Planeta dos Macacos: A Guerra é, por sua vez, uma história totalmente nova neste universo -- curiosamente, também encerra não só os filmes atuais numa trilogia, como também se porta como um prólogo ao original.

Não é um filme óbvio. Ele transita de gênero a cada um dos seus atos. Começa como uma história de vingança, vira uma jornada de procura e termina como uma fita de fuga de prisão (misturado com western "de forte", aqueles em que a cavalaria aguarda o ataque indígena protegida por muros precários). Sem esquecer a guerra propriamente dita, claro.

O que chama a atenção na dramaturgia é que, apesar de ser uma megaprodução, a narrativa não se comporta como tal. Não há nenhuma grande cena de ação (como o clímax na Golden Gate de Origem, ou o ataque noturno dos macacos ao assentamento humano de Confronto). A ação, quando vem, não é para ser eletrizante ou virtuosa, mas sim dramática e, não raro, trágica. É uma abordagem madura. 

César, tal como nos outros filmes, é trazido à vida graças à captura de performance do ator inglês Andy Serkis. Os efeitos são incríveis, não precisamos dizer. O que é fascinante, contudo, é saber que a tecnologia consegue passar a intenção original dos atores. Há closes muito próximos dos símios e de alguma forma conseguimos "ver" por trás do efeito o ator -- em especial nas cenas do orangotango Maurice, interpretado pela atriz Karin Konoval. 

Aliás, que ótimo ver uma história com personagens tão bons. A começar pelo coronel interpretado por Woody Harrelson, a nêmesis de César. A cena em que ele expõe seus motivos para lutar contra os macacos é poderosa e faz o espectador entender seus atos. Há ainda o gorila vermelho que serve aos humanos, a menina muda resgatada pelos macacos e o chimpanzé de zoo (que se auto-intitula "Mau Macaco" e, interpretado por Steve Zahn, é o único alívio cômico da trilogia inteira).

Não quero falar muito da história para deixar o caro leitor se envolver naturalmente com o filme -- a jornada vale a pena. O importante é dizer que A Guerra realmente se presta a pavimentar o caminho do filme de 1968, com referências (em especial alguns nomes) e explicando elementos do original (como o motivo dos humanos não conseguirem mais falar). No final, a câmera aponta para as estrelas -- fazendo ligação direta com o longa de 1968, que começa com um plano do espaço. 

Assim como seus dois antecessores, esta fita preserva a sensação de acompanharmos uma história mitológica sendo criada para depois ser contada por gerações a vir. Vale muito a pena assistir.

Permitam-me agora me aprofundar numa pequena análise de um elemento que envolve o lindo trabalho musica de Michael Giachinno  -- e que mostra o cuidado com que se realizou o filme. Aviso: pode ter algum spoiler, então melhor ler depois de assistir.

Na cena em que Maurice encontra a menina muda (grande performance da estreante Amiah Miller), o silêncio impera. Ouvimos apenas o ruído distante do mar. Nada de música. Como se a menina desprovida de fala também o fosse de personalidade; como se ela fosse um recipiente vazio.

À medida que a guria vai aprendendo pequenas coisas (como se comunicar por gestos), suas ações são acompanhadas por uma simples melodia de piano. É uma escolha quase clichê, porém eficiente: uma música delicada e emotiva como tema da personagem. A sua presença da sopra vida e personalidade na garota.   

Chegamos no ponto de virada para o terceiro ato, em que a menina entra na prisão os macacos são mantidos -- e onde César está numa espécie de solitária. Ela leva alimento que os símios lhe dão até César, salvando-o de morrer de fome.

Nesse momento, os macacos fazem o gesto (presente desde Origem) que indica a união dos macacos. O tema musical da menina volta, desta vez tocado de forma orquestral. É triunfante. Enfim, a própria menina faz o gesto de união para César. 

A música que antes indicava a delicadeza de uma personagem frágil começando a entender seu lugar no mundo vira um tema de esperança e perseverança. O que me leva a lembrar:

Uma boa trilha não é aquela que sublinha o que estamos vendo na tela; uma boa trilha é aquela que se associa a determinada sensação durante a projeção e que, em dado momento, surge para retomar essa sensação numa cena que conta algo novo. Ela traz uma nova informação e, portanto, uma emoção a mais. 

Um belo filme, de fato. 

Crítica: Dunkirk

O cineasta Christopher Nolan sai da zona de conforto com filme de guerra intenso.

DunkirkEm sua titânica obra A Segunda Guerra Mundial, editada em 1965, o historiador Raymond Cartier dedica um capítulo inteiro à Batalha de Dunquerque. Chamado "Milagre em Dunquerque", o capítulo coloca o evento num status similar ao desembarque da Normandia, o ataque a Pearl Harbor e a Batalha de Stalingrado.

O fato em si acontece no ápice da ofensiva nazista sobre a Europa Ocidental. Cerca de 400 mil soldados britânicos e franceses ficam cercados no porto de Dunquerque, esperando o resgate vir do outro lado da Canal da Mancha. Tais eventos já foram representados na tela grande - em especial num filme inglês de 1958, O Drama de Dunquerque

O que levaria então o cineasta Christopher Nolan, conhecido por sua virtuose narrativa em filmes de temática fantástica - como Interestelar, A Origem, O Grande Truque e a trilogia do Cavaleiro das Trevas -, se interessar por um tema assim? 

Dunkirk (ainda não entendi porque o título não usou o nome aportuguesado) é o décimo longa do cineasta. Para chegar nesse marco, Nolan parece querer sair da zona de conforto e fazer algo diferente da sua obra pregressa. Parece se testar - ou, então, queria provocar seus críticos.

Virou costume apontar alguns problemas em filmes mais recentes do diretor britânico. Como o excesso de didatismo e explicações; ou o fato de que algumas de suas cenas de ação apresentam cortes incoerentes. Ele aposta então numa narrativa com poucas falas, apesar do grande número de personagens. Nas sequências de ação, a ênfase é maior na decupagem (ou seja, no planejamento do que será filmado) do que no ritmo frenético da edição.

Contudo, não é precisamente uma reinvenção de Nolan como artista. Há um elemento típico seu, que é a virtuose narrativa. Dunkirk conta três histórias paralelas, cada uma delas com tempos diferentes: há os soldados que esperam o resgate por uma semana, os civis que navegam para salvá-los por um dia, os aviadores numa missão de uma hora.

Há uma perfeita cadência na alternância dessas histórias, e também do verbo que elas conjugam como temática. Numa, é sobreviver; na outra, salvar; na terceira, lutar.

O envolvimento entre esses três níveis garante aquilo que o filme mais tem: tensão. Os respiros são breves e, na verdade, são quase pegadinhas: quando achamos que podemos relaxarr, o perigo reaparece com mais drama.

Em suma, Dunkirk é aquele tipo de filme que te deixa na ponta da poltrona a projeção inteira.

É um grande cinema sensorial e imersivo em termos de experiência. Há quem não vai gostar. Eu achei incrível. O nível de realismo obtido por Nolan, que é adepto dos efeitos práticos ao invés de computação gráfica, é surpreendente. Os combates aéreos são poderosos exatamente pelo seu realismo, e não por efeitos visuais superlativos. 

Tecnicamente, é um filme soberbo, belamente fotografado e com uma edição de som esmagadora. O uso enfático dos graves já na primeira cena mostra obriga a imersão do espectador; há detalhes bem pensados, como o sacudir barulhento nos precários aviões de caça. A trilha de Hans Zimmer, que às vezes se compõe apenas de ruídos mecânicos, acrescenta na angústia das cenas. 

Dramaticamente, o melhor segmento é o que acontece dentro do barco, por ter mais camadas emotivas entre os personagens; ele contrasta com o quase egoísmo pela sobrevivência dos soldados na praia e com a vontade focada dos pilotos. Essas oposições se alimentam. 

No último ato do filme, Nolan se permite um momento poético quase trágico, quando um avião sem motor sobrevoa a praia cheia de homens em fuga. Mais adiante, ele se rende a um dos seus truques estilísticos, uma montagem com uma narração em off, que tem um certo tom de patriotada britânica e que talvez fosse dispensável. Ou talvez não, já que o texto lido é um poderoso discurso de Winston Churchill.

Dunkirk é um filme para ser visto no cinema. E é grande candidato ao Oscar do ano que vem. E Nolan me mantêm sempre interessadíssimo em seu próximo filme. 

Crítica: Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Novo filme do Aranha é mais um acerto da Marvel.

A franquia do mundo da Marvel nos cinemas se fortalece ainda mais com essa divertida retomada do Homem-Aranha. O filme é muito bacana e, em comparação com os demais filmes deste universo (que já somam 16), traz algumas novidades.

A primeira delas é que o título é bastante voltado para o público mais jovem. Os fãs do Aranha irão gostar porque ele recupera muita coisa original do personagem (incluindo a sua idade adolescente). Mas é inegável a pegada leve voltada para um público infanto-juvenil. Isso não é ruim: até para fazer um filme leve que funcione as decisões precisam ser acertadas.

O humor é inteligente e bem sacado, e nunca fora de contexto -- o que é um probleminha em Doutor Fantástico, por exemplo. Tom Holland, o novo Peter Parker, mostra que tem talento de sobra com seu timing cômico (o que não deixa de ser surpreendente, já que o filme que o lançou foi o angustiante drama O Impossível). Notem o ator na segunda sequência da projeção, que mostra Peter filmando em celular sua participação em Capitão América: Guerra Civil: ele encarna o personagem de maneira maravilhosa.  

Um acerto mais incomum no caso da Marvel é o vilão Abutre. Os filmes do estúdio têm uma tendência a apresentarem antagonistas esquemáticos e pouco interessantes. Até o momento, apenas Loki conseguiu algum destaque. Porém, o roteiro busca dar uma dimensão diferente para o personagem vivido com muita competência por Michael Keaton. Pode-se argumentar que a galeria de inimigos do Homem-Aranha é de longe a melhor da Marvel nos quadrinhos; porém, há visivelmente um cuidado em estabelecer bem o vilão e sua relação com o herói no decorrer da narrativa.

Nesse contexto, a presença de Robert Downey Jr. como o Homem de Ferro é curiosamente econômica. Os trailers vendem uma participação maior. O fato dela não se confirmar, na verdade, não é ruim. Mostra que o universo particular criado para o Aranha está bem sólido no filme. O Homem de Ferro funciona quase que como um "núcleo de novela": os mundos de Peter Parker e Tony Stark se encostam, mas nunca se invadem. 

O único ponto negativo, curiosamente, são as cenas de ação. A maior parte delas é muita escura e montada de maneira pouco coerente. O primeiro encontro entre herói e antagonista é particularmente confuso.

A falta do grande espetáculo, porém, não tira a graça da brincadeira. Vale a diversão.

O filme tem duas cenas nos créditos. A última delas é totalmente brilhante.  

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