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Mais Mundo

Referendo na Catalunha : crise política divide a Espanha

A crise política espanhola tem raízes profundas, e pode contagiar a Europa. .

Em Barcelona, manifestcão pacífica de jovens catalãos no dia seguinte ao Referendum de independência.


Domingo passado, o referendo de autodeterminação da Catalunha levou 43% dos catalães às urnas para votar majoritariamente (90% dos votos) em favor da independência da região do Estado Espanhol.


A repressão violenta da polícia espanhola fez as manchetes do mundo todo. A imagem de uma senhora idosa, cabelos brancos manchados de sangue, ferida pelos policiais durante uma operação de confisco do material de voto tornou-se rapidamente o símbolo da pior crise política espanhola das últimas décadas.


« O que se passou na cabeça de Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol e chefe do governo, para pensar que uma repressão violenta do voto poderia resolver a situação? », perguntava o jornal Libération em seu editorial da segunda-feira. « Como chegamos a este ponto? » questionava o jornal suíço Le Temps.


Em 2010, segundo pesquisas de opinião, apenas 15% de população catalã era favorável à independência da Catalunha. Naquele ano, a grande maioria defendia uma posição intermediária entre a posição independentista do atual governo catalão de Carles Puigdemont e a posição nacionalista do governo espanhol de Rajoy.


Quatro anos antes, em 2006, esta posição intermediária, ou seja, o reconhecimento da existência de uma nação catalã no seio da nação espanhola, dotada de competências fiscais especiais, já havia sido formalizada e batizada de Estatuto Catalão (Statut Catalan).

Naquele ano, o governo do então primeiro-ministro José Luis Rodriguez Zapatero (socialista), havia reconhecido legalmente o estatuto, com o aval do partido catalão Esquerda Republicana (ERC), historicamente independentista.


No entanto, desgostosa com a adoção do Estatuto, a então oposição ao governo Zapatero, constituída principalmente pelo Partido Popular (PP, do atual primeiro-ministro M. Rajoy) entrou com um processo junto à Corte Constitucional a fim de invalidá-lo.


Em 2010, a Corte Constitucional espanhola invalidou 14 dos 226 artigos do Estatuto, abrindo assim a via para uma rápida mudança da opinião pública catalã. « Madri contribuiu para a radicalização dos independentistas catalães », explica Jean-Jacques Kourliansky, especialista de questões ibéricas do Instituto de Pesquisa em Relações Internacionais (IRIS-Paris).


Desde então, a Catalunha sente-se traída por Madri. O importante partido catalão Convergência e União (CiU, que tornou-se PdeCat em 2016), até então nacionalista, aliou-se ao ERC, apoiando a causa independentista.


Crise política e econômica


Dois fatores principais parecem ter contribuído para esta evolução rápida da opinião pública na Catalunha. Primeiramente o contexto econômico, com a profunda crise econômica espanhola que começou em 2008. Região mais rica da Espanha e com o menor índice de desemprego, a Catalunha passou a sentir-se injustiçada « por sustentar sozinha a crise espanhola ».


Politicamente, a ascensão ao poder do Partido Popular em 2011, apesar dos diversos escândalos de corrupção dos quais são acusados muitos dos seus mais altos responsáveis (escândalo Gürtel, por exemplo), contribuiu para multiplicar os mal-entendidos entre Barcelona e Madri.


Mariano Rajoy, homem político espanhol que passou mais tempo no poder (9 legislaturas enquanto deputado federal, 5 vezes ministro, 8 anos como chefe do seu partido) preferiu apostar na carta legalista e no diálogo de surdos. Jogaram em seu favor as diversas batalhas políticas travadas localmente, na Catalunha, em torno da acusação de corrupção de Jardi Pujol, homem político incontornável e principal defensor da causa independentista.

Espanha dividida


Domingo passado, ao utilizar a violência contra o referendo, o governo espanhol contribuiu para dividir ainda mais os espanhóis, obrigando-os a escolher um campo. A imprensa espanhola é um espelho desta divisão.

Enquanto os jornais conservadores acusam a Catalunha de «desobediência aberta aos tribunais" (ABC), de « ilegalidade » (El Mundo) e de "manipulação da informação (La Razón), os jornais de esquerda ressaltam « a crise democrática espanhola » (La Vanguarda) e «o dia de infâmias » (La Voz de Galícia).


« Medalha de ouro para a pior resolução política de uma crise do século XXI », ironizava Le Temps. « Porta aberta para as ambições independentistas Europa afora», alertava o jornal inglês The Guardian. “Este referendum propulsou a Europa em território legal desconhecido », apontava o jornal sueco Svenska Dagbladet. « Resposta lenta e tardia da União Europeia, como sempre quando se trata de um assunto importante » acusava The Daily Telegraph. O tom da imprensa europeia indica que a crise espanhola apenas começou, e que ela vai contagiar a Europa. Tudo é uma questão de tempo.


Títulos Catástrofe: o mercado financeiro e as mudanças climáticas

Investidores acompanham a previsão do tempo no mundo em vez da evolução das bolsas de valores.

MARTIN BUREAU/AFP
Foto mostra destruição na ilha francesa de Grand-Case, no Caribe

Nos últimos três meses, a natureza rebelou-se.

Os números são todos elevadíssimos e sem precedentes. O furacão Irma foi o mais forte furacão jamais registrado, 295 Km por hora durante 33 horas seguidas, causou a destruição de 90% da infraestrutura na ilha de Saint-Martin e fez estragos enormes em outras ilhas do Caribe, em Cuba e na Flórida (EUA).

Algumas semanas antes, o furacão Harvey causou estragos históricos no Texas (EUA). E, no México, um terremoto de 8,2 pontos na escala Richter, o mais forte do ultimo século, causou a morte de quase cem pessoas. E as fatalidades não param por aí.

Durante os meses de julho e agosto, monções fortíssimas inundaram mais de um terço do território total do Bangladesh e causaram a morte de 1400 pessoas no sudeste da Ásia e na Índia. No Níger, em junho e julho, chuvas com uma intensidade jamais vista (o país é propício às secas) inundaram as principais cidades, obrigando milhares de pessoas a deixar suas casas. No Canadá, em maio, mais de 90 mil pessoas foram evacuadas em Fort McMurray, cidade completamente destruída por um incêndio florestal que queimou 10 mil hectares.

Cientistas concordam em dizer que fenômenos meteorológicos extremos sempre existiram, mas que as mudanças climáticas acentuam a quantidade e a intensidade dos mesmos.

Segundo o Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED), ligado à Universidade Católica de Louvain (Bélgica), o número de catástrofes naturais ocorridas entre 2005 e 2014 foi quatro vezes maior do que entre o período entre 1970 e 1979.

Com tamanho nível de destruição, os custos de evacuação, socorro e reconstrução das regiões atingidas alcançam níveis recordes.

Segundo o Swiss Re Institute, empresa privada especializada em investimentos climáticos, o custo total do furacão Harvey (seguro + perdas econômicas) está calculado em torno de 100 bilhões de dólares.

E a Caisse Centrale de Reassurance (CCR-França), banco estatal especializado em resseguro, estima que o prejuízo com seguro nas ilhas francêsas do Caribe – Saint-Martin e Saint-Barthélemy, será de 1,2 bilhões de euro.

“Irma é a catástrofe natural mais cara da história da França”, afirma Laurent Montador, diretor geral adjunto da CCR. Segundo ele, apenas 40% dos estragos em Saint-Martin e 60% dos estragos em Saint-Barthélemy estavam cobertos por um seguro contra catástrofes naturais, o que significa que o prejuízo real será muito mais elevado.

Quem vai pagar a conta?

Até os anos 1990, quem pagava a conta dos estragos provocados pelas catástrofes naturais eram exclusivamente os Estados e as companhias de seguro. Mas com a falência de centenas de companhias de seguro americanas após a passagem do furacão Andrew, na Flórida, em 1992, causando 46 bilhões de dólares de perdas, surgiu a ideia de transformar contratos de seguro e resseguro em títulos financeiros, os chamados "catastrophes bonds" (títulos catástrofe), ou "cat bonds".

Os cat bonds são contratos de seguro transformados em títulos da bolsa. O emissor, (uma companhia de seguro, de resseguro ou mesmo um Estado) cria uma estrutura jurídica que vende os títulos e investe o ganho desta venda em produtos financeiros de baixo risco, pagando aos investidores uma taxa de juros.

Tratando-se de uma operação de risco elevado, pois o cálculo de probabilidade ligado aos fenômenos naturais em um determinado período contém um fator de imprevisibilidade, os juros pagos são elevadíssimos.

O investidor por outro lado, aposta que nenhuma catástrofe natural acontecerá em um determinado local e período. Se a catástrofe acontece, ele perde todo o seu investimento, capital e juros.

Segundo Reporterre.net, jornal especializado no meio-ambiente, além da remuneração em juros altos, o que atrai os investidores em cat bonds é a possibilidade de diversificar o portfolio : o investidor compra títulos cuja evolução está desconectada dos altos e baixos da economia mundial, do CAC40 ou do Dow Jones por exemplo.

Para seguir a evolução do seu investimento, o investidor acompanha de perto a previsão do tempo no mundo todo, ao invés de acompanhar a evolução das bolsas de valores. « Trata-se de especulação climática », estima o jornalista do Reporterre.net.

O que não impede o negócio de prosperar. Segundo Artemis, empresa especializada em produtos de seguro climático, mais de 10 bilhões de dólares de cat bonds foram emitidos este ano, dez vezes mais do que há 20 anos atrás.

E se até o início dos anos 2000 grande parte deste tipo de títulos eram emitidos pelo setor privado, com o aumento da dívida pública, os Estados também começaram a lançar mão desta solução.

A começar pelo Banco Mundial. Em junho de 2014, o BIRD – Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, ligado ao Banco Mundial, anunciava a criação de seu primeiro Cat Bond, destinado a cobrir os riscos de terremoto e de tempestades tropicais em 16 países do Caribe. E em agosto deste ano, o Banco Mundial gerou títulos catástrofe no valor de 360 milhões de dólares em favor do México.

Se o Banco Mundial parece poder prever catástrofes, resta saber qual será a reação do mercado financeiro, que deverá financiar as perdas elevadíssimas ligadas às catástrofes naturais dos últimos meses, especulando sobre as catástrofes futuras.




Coreia do Norte: só o diálogo pode conter um desastre

Para que sejam eficazes, as sanções econômicas devem ser dosadas e acompanhadas de outras medidas tais como a contenção da escalada da violência e a abertura de um diálogo sério conduzido por mediadores determinados..

Cogumelo nuclear

Os jornais dos últimos três dias no mundo todo já disseram: no domingo, 3 de setembro a Coreia do Norte testou uma bomba nuclear que, segundo cientistas independentes sul-coreanos, tinha uma potência de 100 quilotoneladas, ou seja, 7 vezes a da bomba americana que destruiu Hiroshima, há exatos 72 anos.

O teste, subterrâneo, teve um efeito equivalente a um terremoto de 6,8 pontos na escala Richter e foi sentido até no norte da China, na região compreendida entre as megalópoles de Changchun e Shenyang. Seus mais de 100 milhões de habitantes se perguntam desde então se Pequim controla realmente a relação com seu país vizinho e protegido, a Coreia do Norte.

Hoje, torna-se evidente que o mundo subestimou a capacidade técnica e o know-how nuclear da Coreia do Norte. Como escreveu um jornalista do jornal Le Temps (Genebra, Suíça), “passou o tempo em que os testes norte-coreanos faziam rir: a imagem de um líder coreano sorridente dentro de uma sala de controle vetusta parecendo ter sido fabricada com cartolina e massinha de modelar”.

E agora?

O Conselho de Segurança da ONU se reuniu nesta segunda-feira em caráter de urgência, a França e o Reino Unido, apoiados pela Alemanha, pediram a adoção de sanções econômicas ainda mais restritas das que haviam sido adotadas em agosto último, quando a Coreia do Norte testou mísseis anti-balísticos que sobrevoaram os céus do Japão.

Tais sanções incluem privar o país dos ganhos obtidos com suas exportações de chumbo, ferro e outros minerais e inclusive da pesca. Segundo cálculos do próprio Conselho de Segurança, essas sanções privariam a Coreia do Norte de mais de 10 bilhões de dólares anuais, à condição de que elas sejam realmente respeitadas, o que não tem sido o caso. Hoje, mais de 90% das exportações da Coreia do Norte são destinadas à China.

No entanto, tratar a ameaça nuclear norte-coreana exclusivamente através da imposição de sanções econômicas, o que vem sendo feito há mais de uma década, não tem produzido os resultados esperados.

Em 2003, quando a Coreia do Norte se retirou do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares – instância jurídica internacional regendo os países detentores de arma nuclear, este tipo de reprimenda foi utilizado, o que não impediu Pyongyang de continuar desenvolvendo e testando sua tecnologia.

Além disso, mesmo que as atuais sanções econômicas da ONU visem a elite norte-coreana, se aplicadas rigorosamente como exigiram os americanos nesta segunda-feira, elas riscariam de causar uma crise humanitária semelhante àquela dos anos 1990. Ou ainda de incitar a Coreia do Norte a vender sua tecnologia e know-how nuclear no mercado negro para arrecadar divisas, o que seria perigosíssimo.

Escalada retórica e militar

Para que sejam eficazes, as sanções devem ser dosadas e acompanhadas de outras medidas tais como a contenção da escalada da violência e a abertura de um diálogo sério conduzido por mediadores determinados.

No imediato, é urgente conter a escalada, tanto retórica quanto militar.

Foram necessárias apenas 24 horas para que a Coreia do Sul reagisse ao teste nuclear do Norte, lançando seus próprios mísseis em exercícios militares conjuntos com as bases americanas no país.

Segundo o jornal Le Monde, o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, em conversa telefônica nesta segunda-feira com o presidente americano, Donald Trump, fechou um acordo de princípio para a compra de equipamentos militares e armas americanas no valor de vários milhões de dólares. Segundo as estatísticas do SIPRI (Instituto de Pesquisa sobre a Paz, baseado em Estocolmo) este valor soma-se-ia aos 5 bilhões de dólares já gastos pela Coreia do Sul com a compra de armamentos americanos entre 2010 e 2016.

Enquanto a indústria de armamento ganha com a escalada militar, a península coreana transforma-se rapidamente em um campo minado.

A proposta feita pela China e pela Rússia ao Conselho de Segurança nesta segunda-feira vai no sentido da contenção da escalada militar. Liu Jieyi, embaixador chinês junto à ONU, pediu aos países membros que eles considerem “seriamente” a proposta da “dupla suspensão", ou seja, tanto dos testes nucleares e balísticos norte-coreanos quanto das manobras militares americanas na Coreia do Sul.

Há também a questão da escalada retórica, igualmente perigosa. “Está historicamente comprovado que em um conflito, a escalada retórica pode transformar-se em lógica real rapidamente”, explica o diretor do SIPRI, Dan Smith. “Prometer jogar o fogo e a fúria contra a Coreia do Norte como fez Donald Trump serve apenas a legitimar o programa nuclear coreano em âmbito nacional”, explica Antoine Bondaz, especialista da Coreia do Norte na Fundação de Pesquisas Estratégicas (Ifri), em Paris.

Diálogo sim, twitter não

Para além das sanções e da contenção, um terceiro elemento urge: a abertura do diálogo. A Rússia parece disposta a conduzir as negociações. E a Suíça também.

Em entrevista à imprensa estrangeira na segunda-feira, Doris Leuthard, President da Confederação Suíça, salientou que “a hora do diálogo chegou”, propondo que seu país, onde o atual líder norte-coreano Kim Jong-un viveu durante sua juventude, seja o terreno neutro onde este diálogo possa ser estabelecido. “O Twitter não é o instrumento mais adequado para resolver este conflito” martelou Leuthard.

Mas quem vai dialogar e sobre o quê?

Para o jornal francês Le Monde, "Trump e Xi devem assumir suas responsabilidades sobre a crise coreana". Especialistas concordam que somente uma frente sino-americana seria capaz de, se não de impedir Pyongyang de se dotar de uma arma nuclear, ao menos conter os efeitos desestabilizantes do seu programa nuclear na região e no mundo.

Desde que assumiu o poder após a morte de seu pai, Kim Jong-un deseja ser recebido pelo presidente americano e e pelo seu homólogo chinês. Ele vem fazendo pressão sobre Xi Jinping, presidente chinês, para que este apoie a entrada da Coreia do Norte no clube dos países detentores da arma nuclear. Um encontro com os americanos e os chineses consagraria sua legitimidade, abrindo a porta para um real diálogo.

Supondo que tal encontro se realize, a escolha do conteúdo destas conversas seria bastante delicada.

Desde 2006, as potências ocidentais (EUA, Europa) pedem o "desmantelamento completo e verificável do programa nuclear norte-coreano", mas este objetivo provou ser irrealista, pelo menos a curto e médio prazo.

Isto porque o programa nuclear norte-coreano está intimamente ligado à identidade do regime. Em 2012, o estatuto de "potência nuclear" foi mesmo inscrito na Constituição. “Se queremos dialogar com os norte-coreanos, não podemos querer falar de desnuclearização.”, explica Bondaz. “Os líderes norte-coreanos desde a primeira geração foram amamentados à base de nuclear”, afirma ele.

Por outro lado, reconhecer a Coreia do Norte como uma potência nuclear seria um desrespeito ao Tratado de Não Proliferação e um convite ao Japão e à Coreia do Sul, principais alvos norte-coreanos, a se dotarem de armas nucleares também.

Então, o que exigir dos norte-coreanos? Que eles não proliferem sua tecnologia, que não vendam sua matéria nuclear no mercado negro, e que não usem suas armas. Obter estes acordos já seria um alívio para todos nós.

Finlândia comemora 100 anos de independência

A Finlândia comemora sua independência de forma inovante e interativa, e cria um feriado nacional em homenagem à natureza..

Foto divulgacao Finland 100Neste fim-de-semana, começam os cem dias de festividades que marcarão o aniversário de um século de independência da Finlândia, dezembro deste ano.

Independência de quem?, perguntariam alguns. Da Rússia. Território sueco à partir do século XVIII, a Finlândia passou a fazer parte do Império Russo em 1809 e tornou-se independente no final do atribulado ano de 1917, durante a Revolução Russa, após ter servido de exílio provisório a Lênin.


Desde então, a Finlândia soube manter o difícil equilíbrio político e econômico entre a União Europeia, da qual é país membro, e seus interesses econômicos junto à Rússia. A crise que afetou profundamente a economia finlandesa nos anos 1990 deu lugar à uma total reestruturação, resultando no atual modelo de social democracia nórdica, primeiro lugar mundial na classificação World Human Capital (Capital Humano Mundial) e Press Freedom Index (Índice de Liberdade de Imprensa), e uma das mais elevadas rendas per capita do mundo.


A comemoração Suomi 100 (Suomi = Finlândia, em finlandês), chama mais atenção pelo seu caráter interativo do que pela soma financeira investida. Poucos eventos foram programados com antecedência, deixando total liberdade para os quase 5,5 milhões de habitantes (associações, escolas, amigos, famílias, vizinhos, indivíduos) para agendar, sem seleção prévia, seus próprios eventos, a qualquer momento.


Para isto, o governo colocou à disposição da população um aplicativo que coordena e divulga ao vivo o programa dos eventos. Basta baixar o “Suomi 100 » e qualquer pessoa pode seguir a programação e propor algo, em qualquer parte do mundo: Canto à capela no meio da floresta, campeonato mundial de patinação no gelo, construção de uma sauna no alto de uma montanha, caminhadas em família ou com amigos, degustação de vodka, as escolhas são múltiplas.


O tema que permeia esta festa toda é « Together » (Juntos). « A idéia é que as pessoas criem o hábito de tomar iniciativas, de fazer coisas, e de fazer juntos », explica a secretária de Estado responsável pela organização da Suomi 100, Paula Lehtomäki.


Uma idéia que parece causar furor são as jantas “Finnish your diner”. Qualquer pessoa pode propor um jantar que contenha um ou mais ingredientes da cozinha finlandesa e registrá-la no aplicativo. Os convidados podem ser amigos ou família, mas também desconhecidos e curiosos da Finlândia. Para participar basta encontrar um jantar perto de você http://reservations.finnishyourdinner.fi/search


E para marcar o início das comemorações, o governo declarou o dia 26 de Agosto “dia da natureza”, fazendo da Finlândia o primeiro país do mundo a dedicar à natureza um feriado nacional.

Em um país com densidade populacional baixíssima (menos de um décimo da alemã ou da italiana por exemplo) e onde dois terços do território são cobertos por florestas, a decisão faz sentido. Mas ela coroa, sobretudo, a relação identitária que cada finlandês mantém com a natureza, e que é baseada no “direito de cada um” (jokamiehen oikeus), o direito de acesso livre aos campos e florestas, independentemente de quem detenha a propriedade dos mesmos.


Para mais informações sobre os diversos eventos da Suomi 100 consulte: http://suomifinland100.fi/?lang=en

Nota : Mais Mundo retorna após longas férias passadas em lugares bastante isolados do norte da Europa. Ao percorrer fiordes e montanhas cobertas de glaciares, enxerga-se a atualidade internacional de um ponto de vista panorâmico e privilegiado. A volta aos affaires du monde e ao business as usual é certamente inevitável, mas fica aqui a promessa de que os ensinamentos destas férias vividas em meio à natureza em seu estado bruto continuarão à permear estes artigos. Agradecemos sua fidelidade.

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