

Enviar por e-mail- Parte 1

Matt W. Moore
A literatura atual vive uma espécie de transformação: pouco a pouco, ela vai se distanciando de qualquer classificação possível. Pola Oloixarac com “As teorias selvagens” é só um dos exemplos, e talvez o mais intenso deles, na medida em que classificar seu livro é absolutamente impossível — talvez este seja seu mérito, mas também pode significar o oposto. Essa impossibilidade de enquadramento faz com que os críticos de jornais e revistas necessitem, por sua vez, de encontrar uma fórmula específica para avaliar as obras que lhes são designadas, ou que estes decidem que merecem atenção, inéditas e assinadas por autores de novatos aos já consagrados. Tudo, no fim, é escrita moderna, e dentro desta há possibilidades infinitas.
[Bom salientar que crítica é diferente de resumo. Não demandam absolutamente nenhum esforço as ações de visitar três ou quatro sites de editoras por dia e fazer um apanhado dos lançamentos, para em seguida reescrever as sinopses, listá-las e postá-las.]
Os críticos de longa data, os com espaço cativo nos melhores veículos, os que se atêm a obras novas, ou a relançamentos recém-saídos das gráficas, em todo caso a novidades, têm um conhecimento gigantesco sobre todas as escolas literárias para que seja possível executar com precisão sua função — é seu dever medir, pesar, relativizar e, com cautela, comparar. Eles conhecem, na medida do possível, seu lugar e seu público. Modelam com parcimônia o antigo e o novo e, cada um a sua maneira, encontram uma linguagem própria e um jeito emocionado e emocionante de fazer seu trabalho.
Os holofotes, portanto, também podem, e inevitavelmente vão, se voltar para o gosto pessoal do crítico, o que por sua vez remete a um tempero e a um sabor muito específicos e próprios de cada um. Porque a erudição sem personalidade é morna. É preciso haver um conjunto equilibrado.
Tudo isso, por mais absurdo que pareça, é só o primeiro desafio dos blogueiros literários. E o sabemos imenso. Muitos dos colegas tem deixado a desejar.
Óbvio que os blogs têm, até certo ponto, caráter de informalidade (os totalmente independentes, fixados no Blogspot ou Wordpress). Mas isso não quer dizer que o conteúdo deva ser pobre. A própria concorrência, inclusive com os críticos tarimbados, deveria motivar a busca por qualidade genuína. É o que acontece?
Sobre os blogs e sites literários:
- 90% vendeu a própria alma a editoras que, conhecendo o despreparo e o poder de persuasão dos meninos e meninas, os mais novos, os que evidentemente têm intimidade com a internet, apostaram em pequenas personalidades absurdamente clichês e obedientes; com isso, a literatura perdeu o caráter “subversivo”, e os formadores de opinião, os que motivam uma compra, o fazem aplaudindo best-sellers e acolhendo ingenuamente a notoriedade que, julgam, têm ao firmar parcerias;
Conclusão: perdemos, assim como alguns críticos da velha guarda ao receber benefícios, a liberdade. Mas em número maior, o que é, portanto, terrivelmente preocupante.
- 90%, os mesmo citados acima, não têm noção alguma do que estão falando. Não sabem sequer conceituar “surrealismo”, mas se acreditam capazes de falar, com alguma dignidade, sobre lançamentos e estilos.
Considero que deva haver um meio-termo: perder completamente o caráter acadêmico é preocupante, visto que se passa o bastão da formação de opinião a idiotas que não fazem ideia, ao ser questionados pelos leitores, de como dar uma resposta embasada. Ainda assim, insistir no hermetismo catedrático afasta os internautas do blog e, consequentemente, da leitura. Para onde corremos?
Precisamos saber. Precisamos estar preparados para defender e tomar posições claras. Ou seja: devemos ter o conhecimento, mas não despejá-lo de forma frustrante e entediante para o leitor. É uma equação complicada de equilibrar.
Continuo:
- 80% limita suas resenhas a temáticas de fantasia e romances açucarados, o que simplesmente complementa os pontos anteriores: as editoras lhes impõem aquilo que consideram que sua capacidade tem condição de absorver. Abanando os rabinhos, eles resenham.
Há pontos positivos. Estes jovens, porque a maioria tem mais ou menos a minha idade (23), incentivam outros dos mais novos neste caminho essencial que é o das letras. Os mais crescidinhos, entretanto, ficam, na web, praticamente desamparados.
Enxergo uma grande acomodação. Imensos egos, é evidente, relutam em buscar se aprimorar. Pra quê, se já são ótimos? A facilidade com que tudo acontece na internet (em termos), a pouca exigência de parte do público e os laços com editoras dão uma falsa impressão de solidez.
Não que não haja bons sites e blogs. Há. Mas são mais raros. E os desafios destes são apavorantes.
É preciso aceitar a opinião do leitor e debater com este em tempo real, porque na internet tudo é muito rápido. E todo mundo pode (e deve) participar. É preciso produzir com muito mais rapidez, e ainda assim mantendo a qualidade — nem sempre se acerta. É preciso leveza, porque se levar demasiado a sério (e ao pé da letra) é prejudicial e faz mal à humildade e, em consequência, ao aprendizado. É preciso estar antenado para tudo, em todos os idiomas possíveis. Não basta conhecer teoria literária, linguística, história e filosofia: é preciso saber um pouquinho de marketing digital, que inclui as redes sociais, um pouquinho de cultura pop, um pouquinho de html e css, um pouquinho de política de boa vizinhança, pero no mucho. É preciso ter ou desencavar muito tempo. É preciso ter vontade. É preciso dançar, cantar e representar. E misturar e chacoalhar tudo com a personalidade, essa sim, pessoal e intransferível. E aí tem-se... tem-se a satisfação pessoal.
Pola Oloixarac, quando misturou mil temas em seu livro, não estava tão errada assim. Geração Y, esta minha, plural que só ela.