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03 de Outubro de 2011 - 20h49

Manifesto contra o filme dublado

Por Ulisses da Motta Costa

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Hoje fui ver Amizade Colorida para fazer a resenha aqui para o blog (amanhã no ar). Foi somente após ter comprado o ingresso num cinema aqui do Vale que eu lembrei de verificar se o filme seria exibido dublado ou legendado. Claro que era dublado, para o meu imenso desgosto. Logo o desagrado virou irritação: os atendentes do cinema costumam avisar quando o filme é legendado; porém, não avisaram no caso contrário.

Em suma: ver filmes dublados tem virado a regra. O legendado passou a ser a exceção. Não é novidade. As cópias no Brasil dos grandes lançamentos já são em maior número que as legendadas, o que limita a opção de quem vai aos cinemas. É algo triste -- porque diminui a qualidade do cinema assistido no país.

Há quem quem defenda sua preferência por ver filmes dublados. Bem, preferência é algo pessoal. Há quem prefira ver filmes na tevê, dublados, com comerciais, barulho na casa, numa tela minúscula. Há quem prefira funk, quem prefira Paulo Coelho, quem prefira não ir ao teatro, ao museu, à biblioteca -- o que não quer dizer que sejam atitudes defensáveis apenas por ser o "gosto" de alguém.

O problema do filme dublado é que a dublagem, por melhor que seja feita, deturpa a obra cinematográfica. O primeiro afetado é o trabalho do ator, que ganha uma voz e uma entonação que não são suas. Se o desempenho do ator fica prejudicado, consequentemente o drama, a graça, o suspense, a profundidade de um filme se perde. As nuances pensadas por ele, pelo diretor e pelo roteirista (e que podem ser a diferença para uma cena ficar genial) são simplesmente postas no lixo. Tente ver um épico como Senhor dos Aneis na forma dublada para ver se os desempenhos não alcançam a seriedade que precisam para sustentar a trilogia.

O segundo afetado é o som, que é praticamente violentado. O áudio original de um filme é algo pensado à exaustão. É preciso se combinar com detalhismo os diálogos, a música, o som ambiente, os efeitos sonoros. Cada um destes elementos é tratado separadamente, com minúcias técnicas e estéticas. Quando se dubla um filme, bagunça-se toda sua estrutura sonora. Os diálogos novos são jogados por cima dos demais elementos, que viram uma massaroca de qualidade sofrível. E sim: um som ruim interfere diretamente na relação do espectador com a obra.

Por fim, todo o trabalho de concepção de um filme é atacado: uma equipe de dezenas (quando não mais) de pessoas convergiu seu pensamento durante vários meses (às vezes, anos) numa única direção para, no fim das contas, ter um dos seus elementos mais centrais -- as falas do elenco -- mudado por gente que não participou de momento nenhum desta exaustiva jornada. A musicalidade buscada pelo roteirista no diálogo, os detalhes pensados pelo diretor -- tudo posto à prova.

Alguém pode lembrar que um filme bom continua bom mesmo dublado. Verdade -- assim como um bom filme a cores continua bom se visto em preto-e-branco. Mas, de todo modo, não é esta a forma na qual esta obra de arte foi pensada. Para ser apreciada em sua completude, precisa ser vista com seu som (e imagem) original. É como ver uma versão reggae para uma música dos Beatles, ou ver versões impressas em tamanhos menores de pinturas do Renascimento: podem continuar belas enquanto arte, mas estão longe da fonte que as pensou. Guardam mais impacto sendo apreciadas na maneira como foram criadas e executadas -- e só esta grandeza original fundamenta a importância de uma obra, portanto tornando possível estas releituras.

O filme dublado pode agradar a uma parcela do público, que comparece ao cinema de maneira mais esporádica e que não tem este tipo ou grau de exigência. No entanto, o espectador cinéfilo, que ama o cinema e que vai constantemente ver de tudo um pouco será gradativamente afastado. Quem perderá com isso será o cinema -- e portanto os distribuidores e exibidores que hoje trabalham para não dar opção aos seus consumidores.

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