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PROMETHEUS (Prometheus, EUA, 2012). Direção de Ridley Scott. Roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindelof. Com Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall Green.
Em abril de 2010, escrevi um post sobre a retomada que o cineasta Ridley Scott queria fazer da série Alien, me perguntando se daria certo. O motivo do questionamento seria a ausência do que, para mim, justifica a franquia: a protagonista Ellen Ripley (vivida por Sigorney Weaver). Ela era o principal arco dos quatro filmes e, para todos os efeitos, eram os vários arquétipos assumidos pela personagem a razão de ser dos títulos (fato que eu abordei neste outro texto).
Ridley Scott dirigiu o primeiro da série, Alien – o 8º Passageiro (1979) e não retornou à franquia (aliás, cada filme teve o seu diretor, todos de primeira linha: James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet). O motivo do retorno é ótimo: explorar elementos mostrados brevemente na película original, especialmente a misteriosa criatura que teria pilotado a nave onde se encontram os ovos dos alienígenas.
Aos poucos, a resposta à pergunta “dará certo?” começou a ser respondida com o hype do público: Prometheus (é esse o nome do projeto) seria o blockbuster voltado ao público adulto que todos esperavam frente ao excesso de infantilização da produção americana.
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Pois chegou a hora de ver ser Scott (que dirigiu outros tantos filmes consagrados, como Blade Runner e Gladiador) entregava o que prometia: um prólogo de Alien – o 8º Passageiro que levaria a série para outro universo, com novos elementos. A resposta é: Prometheus fica no meio do caminho desta jornada. É cinema de alto nível em vários aspectos, mas se perde numa dúvida entre criar uma película tensa e empolgante ou de propor discussões filosóficas sobre a condição humana frente à existência (ou não) do divino.
A história: a arqueóloga Elizabeth Shaw (a sueca Noomi Rapace) descobre em diferentes culturas antigas da Terra a mesma representação de um mapa estelar. Ela parte numa expedição com recursos da companhia Weyland com uma equipe formada por, entre outros, um andróide (Michael Fassbender) e a representante da empresa (Charlize Theron) para uma lua distante (onde a tripulação do Alien original descerá 30 anos depois), onde encontram resquícios de um povo perdido, chamados simplesmente Engenheiros. Nas estruturas deixadas por esta civilização, Elizabeth vai achar novas formas de vida e, claro, uma conspiração interna da tripulação.
Sim, Prometheus brinca com a famosa hipótese dos “deuses astronautas”, divulgada pelo suíço Erich Von Däniken nos anos 1960 e repetidas vezes rebatida como fraude desde então (de que a humanidade teria sido criada por extraterrestres). Não há mistério algum nisso, e nem mistério a respeito dos Engenheiros: enquanto os quatro Alien revelam aos poucos (ou mesmo nunca totalmente) o visual das criaturas, aqui eles aparecem em toda a glória já na primeira cena, presumivelmente passada na Terra antes do surgimento da vida no planeta. Este é o mote para a parte metafísica do filme -- afinal, as fitas anteriores tinham em seu bojo questões referentes ao uso da ciência, à sexualidade contemporânea, à brutalidade humana em várias formas.
Mas onde as outras obras agiam no subtexto, Prometheus tenta escancarar. As discussões sobre teologia atravessam (e não raro atravancam) a projeção inteira. Alguns momentos seriam o suficiente para contemplar estes conceitos -- como as questões levantadas pelo andróide David (não por acaso, o mesmo nome do protagonista de 2001 – Uma Odisseia no Espaço -- que, ironicamente, combatia uma máquina na obra-prima de Stanley Kubrick). Elizabeth fala “eles nos criaram, mas quem criou eles?”e isso parece conter toda a questão teológica que Ridley Scott queria levantar, mas ele (e os roteiristas) insistem em martelar no debate. Ou seja: Prometheus está cheio de metafísica de botequim. Precisa de mais tutano para resolver estas proposições filosóficas.
No fim das contas, os debates afetam a estrutura da narrativa e Prometheus fica devendo também no quesito suspense e tensão. Outro pecado é a falta de criaturas de fato assustadoras. Há mais de uma e nenhuma delas é tão icônica quanto o monstro original. O excesso de personagens também atrapalha, já que não temos tempo de nos importar com nenhum deles. Claro que há uma construção gradual e sólida (a exploração pelas estruturas extraterrestres são fascinantes e obviamente inspiradas pelo livro Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft) e cenas ótimas (a sequência do “parto” é candidata a clássico instantâneo). Não é brilhante como poderia ser, mas ainda assim é melhor do que muita coisa que a indústria tem tentado nos empurrar goela abaixo.
Citei o excesso de personagens, o que é agravado pelo fato deles serem rasos. Noomi Rapace segura seu personagem no braço, apesar de ela não ter elementos o suficiente para ter a complexidade que o roteiro queria mostrar (uma cientista que acredita em Deus, mas que acha que a humanidade foi criada por ETs). Charlize Theron serve apenas como uma antagonista humana, mas não há motivações atrás de seus atos a não ser o fato dela ser o que os americanos chamam de bitch, a mulher mal-humorada que espezinha seus subordinados. Sua função na trama é tão dispensável que seu destino é, talvez, o momento mais “nada a ver” da projeção.

Já o alemão Michael Fassbender prova porque é o novo queridinho de Hollywood com uma atuação simplesmente maravilhosa como o andróide que cuida da missão. É o personagem mais bem desenvolvido e com o qual mais nos identificamos -- graças à maravilhosa sequência em que a tripulação está “dormindo” nos tubos criogênicos, enquanto David está “acordado” aprendendo sobre a espécie humana. Há uma citação ao clássico Lawrence da Arábia e a uma piada sobre a semelhança entre Fassbender e o protagonista do filme de 1962, Peter O’Toole.
Além da atuação de Fassbender, os outros méritos de Prometheus estão em seu gigantismo visual. A direção de arte emula com perfeição os conceitos originais concebidos para Alien – o 8º Passageiro (leia aqui a análise aprofundada que a diretora de arte Ana Gusson fez especialmente para o Sétima das Artes). Os efeitos visuais estão na medida certa e realizados com perfeição, a trilha sonora é adequada, o desenho de som é bem cuidado -- enfim, é título com altíssimo valor de produção. O problema ficou mesmo no roteiro.
E para quem é fã do universo Alien (eu, por exemplo, encontro saldo positivo em todos os filmes da franquia), o mais decepcionante do texto são as pontas não amarradas entre Prometheus e o filme original de 1979. Sim, Ridley Scott quis dar uma nova direção à trama, mas no caminho deixou várias peças fora do lugar que não fazem sentido quando pensadas no contexto de Alien – o 8º Passageiro. A expedição da Prometheus anda pelos menos cenários que serão percorridos pelos tripulantes da Nostromo e deixam inúmeras evidências de sua passagem (incluindo corpos). Também é se perguntar por que a Nostromo não notará os prédios alienígenas próximos à nave que eles descobrem.
Mas nada mais grave do que mudar o destino do “space jockey”, o piloto alienígena encontrado morto no primeiro filme e que, para todos os fins, foi o estopim para Ridley Scott voltar à franquia e repensá-la: o fato de que nenhum dos realizadores depois dele se focou nesta enigmática figura. Ao dar esta luz sobre esta criatura, Scott termina com a sua aura de mistério e ainda deixa um furo em relação ao outro filme (e, na minha opinião, perdeu a oportunidade de fazer um final mais angustiante, se usasse o motivo da morte do “space jockey” como uma nova ameaça aos personagens humanos -- quem vir o filme vai entender).
Em suma, Prometheus poderia ser sim, um filmaço. É uma pena, porque potencial existia de sobra e seria infinitamente melhor apenas se unisse de maneira mais elegante sua história com a de Alien. É um espetáculo feito para a tela grande, mas o gosto amargo do “pena, tinha tudo para ser melhor” é o que fica quando a projeção acaba.
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[Atualização]: as incongruências apontadas no filme estão sendo tão veementes nas críticas que Ridley Scott rapidamente correu para explicar que Prometheus se passa em outro lugar, não no planetoide original de Alien - O 8o Passageiro.
De fato, a lua onde se passa o novo filme chama-se LV-223, enquanto que o filme original se passa em LV-426 -- mas esta informação é dada apenas em Aliens - O Resgate. A princípio, o planetoide não teria nome.
Isto, no entanto, não isenta o roteiro das incongruências. É visível que tenta-se levar o espectador ao engano de que se trata do mesmo lugar, a começar pelos nomes semelhantes do planetoide e da lua (ambos tem a mesma sigla seguida por numerais). A confusão permanece porque o ambiente entre os dois é praticamente o mesmo.
ATENÇÃO PARA O SPOILER: a contradição fica mais grave no caso da nave alienígena que aparece no final de Prometheus, que cai exatamente na mesma posição daquela vista em Alien. Sem contar que ela sofre três rombos iguais aos vistos no original, e que com certeza não fazem parte da sua estrutura (já quem tem marcas de derretimento nas bordas).
Em suma, o espectador é levado ao engano de achar que é o mesmo lugar. Apenas os mais fanáticos seriam capazes de saber que LV-223 não é LV-426 -- o que não justifica o roteiro deixar mais claro que se trata de um local totalmente diferente.