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19 de Maio de 2012 - 07h45

Uma carta: despedida e desabafo

Por Martin Behrend

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Abaixo publico carta enviada por músico da Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo. Ele se afasta do grupo após alguns descontentamentos. Na seqüência da carta, veiculo esclarecimentos do presidente da Associação dos Profissionais das Artes e Técnicas Afins (Aprata), Max Soares da Silva. É a entidade que administra a OSNH.

 Como admirador e fã da Orquestra de Sopros, lamento ter de publicar mais este capítulo de turbulência do conjunto. Não é o tipo de notícia que me enche de satisfação.

 Como jornalista, é meu dever acompanhar as informações de uma entidade que recebe, por ano, cerca de meio milhão de reais da Prefeitura de Novo Hamburgo - ou seja, dos hamburguenses.

À população de Novo Hamburgo

É muito difícil tentar expressar em palavras escritas o que significa para mim abandonar um prazer que havia servido de alimento para minha alma desde o ano de 2007 até os dias de hoje.
Propositalmente empreguei a palavra prazer ao invés da palavra trabalho, pois geralmente associamos tal vernáculo a alguma atividade que desempenhamos em troca de alguma remuneração mensal durante nosso período de vida economicamente "útil" à sociedade. Particularmente em meu caso nunca, em momento algum de minha vida e carreira dentro da música, posso afirmar que fiz algo apenas com esse intuito e que não estivesse coroado de ânimo, prazer e uma satisfação ímpar aumentada em proporção geométrica a cada aplauso recebido pelo público em geral e o hamburguense em especial. Realidade vivenciada intensamente durante minha permanência na vaga de primeiro trombonista da orquestra de sopros de Novo Hamburgo e também como responsável direto por mais de 80% de todo o repertório por ela executado na função de principal arranjador até o início das mudanças em sua estrutura artística em janeiro passado.
Todo o esforço até então, no que tange à elaboração, ideias, estruturação e planejamento de cada concerto oficial da OSNH durante o ano era definido nos primeiros dias de trabalho, geralmente ainda em janeiro, pelo então maestro e diretor artístico Marcos Gröff. As decisões eram a mim repassadas para que fossem iniciados os trabalhos referentes a escolha de repertório e a confecção dos arranjos, adaptações e transcrições para que dessa semente germinasse o que seria acima de qualquer coisa a busca da satisfação do público hamburguense e o aprimoramento e desenvolvimento do grupo que um dia foi uma pequena banda e hoje é uma das mais competentes e gabaritadas orquestras de sopros do país.
Era nessa única e elevada visão que o trabalho era realizado. Crescer e ocupar um lugar de destaque no cenário musical do País, fazendo isso sem perder a proximidade com a população e a informalidade no tratamento com o público que a mantinha viva. O público de Novo Hamburgo.
Tomar como modelo grandes orquestras, como a do maestro francês Andre Rieu, que popularizaram sua forma de execução e se aproximaram mais da plateia, deixando de lado a velha forma de concertos eruditos onde as pessoas entravam, ouviam e deixavam as salas de concertos sem ao menos sequer ouvir a voz do maestro que se posicionava a frente do espetáculo. Isso foi diminuído gradativamente sempre em concordância com o tipo de evento e de público envolvido. E convenhamos, deu muito certo.
Eu poderia citar como prova dessa afirmação vários concertos oficiais da OSNH durante esses cinco anos, mas tomo como evento mais recente e de um brilho ímpar, o encerramento do Natal dos Sinos 2011 na Praça do Imigrante em janeiro deste ano. Com certeza, quem esteve presente lembrará e visualizará em sua memória a grande noite que Novo Hamburgo vivenciou.
Mas qual era necessariamente meu papel dentro desse conjunto?
Além de ocupar a vaga de instrumentista dentro da orquestra, desde o ano de 2007 até janeiro de 2012 eu fazia o que para mim é algo indescritível de ser narrado em palavras. Eu transformava sons em partituras. Isso mesmo. A partir de uma melodia, de uma gravação ou mesmo de uma partitura, eu arranjei, adaptei e transcrevi mais de sessenta obras que foram executadas pela OSNH nas mais diversas apresentações em que ela esteve envolvida, tendo 4 desses trabalhos gravados no CD da OSNH, lançado em novembro do ano passado e concretizando em realidade um sonho de muitos anos.
Então, como qualquer outra função que ocupa determinado tempo do nosso dia, ou mesmo das nossas noites, escrever para a OSNH era sinônimo de orgulho e de uma responsabilidade ímpar, pois o sucesso de cada concerto e a aceitação do público dependia primariamente daquilo que era ouvido por ele, obras em que em 80% dos casos minha assinatura e nome estavam gravados, quase sempre de forma anônima e reservada.
Depois de todo esse texto, surge uma inevitável questão. Por que, de forma quase voluntária fiz isso durante cinco anos e hoje não faço mais?
Primeiramente ressalto que desde o meu retorno ao quadro de músicos da OSNH, a convite do maestro Marcos Gröff, vivi com ela um verdadeiro caso de amor e dedicação a tudo que pudesse contribuir para o seu crescimento. Não diferente de outras tantas organizações culturais do País, os recursos financeiros repassados pela administração municipal à Aprata (Associação que mantém a OSNH e presta serviço à Prefeitura de Novo Hamburgo) sempre foram enxutos e utilizados de forma coerente com a realidade. Por isso havia uma parceria fraterna entre meu trabalho e a orquestra, mais precisamente na pessoa do maestro Marcos Gröff, apoiador e incentivador de meu trabalho junto ao grupo. Foi dele também a promessa de que com a aprovação do financiamento de vários concertos em 2012 pela Lei de Incentivo à Cultura, eu seria devidamente remunerado pela função de arranjador, o que vinha fazendo desde 2007 sem qualquer remuneração.
E o financiamento do projeto foi aprovado. Tal fato tornaria possível o reconhecimento de meu trabalho e não comprometeria as finanças da OSNH.
E muitas mudanças ocorreram desde janeiro passado. A desvinculação da direção artística da regência, o afastamento do maestro Marcos Gröff e a nova visão implantada pela recém empossada direção artística da OSNH, ainda em fase de desenvolvimento, com certeza causaram e causam muitos questionamentos tanto aos seus integrantes como à população e administração de Novo Hamburgo, fato normal perante a qualquer mudança.
Permaneci no grupo, munido da mesma dedicação e com os mesmos ideais de crescimento apresentados até então quando que, para minha surpresa, no ensaio do dia 3 de maio, me deparei com quatro arranjos inéditos elaborados por outro profissional. Músicas populares escritas para orquestra e voz e ensaiadas para o próximo concerto oficial da OSNH em junho próximo. Até aí tudo bem, afinal de contas nunca exigi exclusividade quanto ao meu trabalho ou afirmei que apenas obras minhas deveriam ser executas. De forma alguma pensei ou disse isso, entendendo que a diversificação das composições e dos arranjos colabora para o crescimento musical do grupo. Isso é fato, e não está em discussão em meu ponto de vista
O que realmente me deixou triste e muito chateado, causando meu afastamento da orquestra, foi o fato de que trabalhei durante quase cinco anos sem remuneração adequada, tive quatro trabalhos gravados em CD comercializado e pelos quais não recebi valor algum pelas suas elaborações, e naquele momento me deparava com uma pessoa estranha, apresentando um trabalho inédito e com certeza bem remunerado para tal feito.
Isso, em meu ponto de vista, fez com que meu esforço fosse ignorado, minha dedicação fosse desprezada e acima de tudo, fosse desvalorizado aquilo que fiz e me dediquei por tanto tempo sem chamar de trabalho aquilo que chamei de prazer, no início desse texto.
Musicalmente falando, não tenho nada a dizer sobre as pessoas hoje responsáveis pela direção artística da OSNH, pois seus currículos falam por si só. Tenho certeza da capacitação e conhecimento musical dos mesmos e em momento algum coloco isso à prova ou questiono algo a respeito.
Aos músicos, pessoas maravilhosas e idôneas, meus amigos e companheiros de longa data, apenas minha admiração e respeito total pelo amor e dedicação que empregam dentro da orquestra. Foi muito gratificante estar sentado ao lado de pessoas desse quilate.
Quanto ao meu trabalho de cinco anos como músico, também não tenho nada a reivindicar, pois fui remunerado mensalmente para isso.
Como arranjador, depois de todos esses acontecimentos, da não mais participação no projeto da Lei de Incentivo a Cultura e da saída do maestro Marcos Gröff, principal incentivador de meu trabalho, irei sim buscar o que me é de direito junto aos órgãos e autoridades cabíveis, principalmente no que se refere à minha participação no CD da orquestra, sendo responsável pela confecção de 3 arranjos inéditos e uma transcrição.
Enviei um e-mail ao presidente da Aprata expondo esse pensamento e tentando um acordo extra judicial e sem prejuízo algum ao caixa da OSNH, onde solicito o pagamento de uma quantia irrisória por todos os cinco anos de trabalho dentro da função de arranjador.
A resposta que obtive, via e-mail, foi de que no entender da Aprata esta não me deve nada e que eu necessitaria de provas perante o que estou dizendo.
Pois bem, não traria ao conhecimento da população uma afirmação sem fundamento ou algo parecido. Por isso, a todos aqueles que possuem o CD, peço que olhem na relação das obras e procurem o nome de Márcio Renato de Souza em algumas das músicas. Também para as pessoas que estiveram nos concertos oficiais e levaram consigo a programação impressa do mesmo, devem achar com facilidade meu nome impresso em alguma música de algum concerto oficial da OSNH de 2007 até os dias de hoje. Acho que isso basta como prova do que estou relatando.
Com relação a Aprata, na pessoa de seu presidente, ao dizer que não possui dívida alguma comigo, esta deve com certeza ter em seu poder os devidos recibos e notas inerentes a cada trabalho meu, devidamente assinados por mim. Mas essa discussão não irá acrescentar nenhum benefício à população de Novo Hamburgo, apenas servindo de explicação e justificativa para o meu afastamento da orquestra.
E é a esta população que agradeço por todos os momentos vivenciados e por todas as horas maravilhosas que tive a satisfação de vivenciar dentro da OSNH. Espero que essa mesma OSNH saiba retribuir com a mesma grandeza todo o carinho e o respeito que recebeu do público hamburguense, o verdadeiro elemento motivador e mantenedor se sua existência. Muito obrigado por tudo.

Márcio renato de souza - 1º trombonista e arranjador principal da Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo de julho de 2007 a janeiro de 2012.

 ESCLARECIMENTOS

Segundo o atual presidente da Aprata, Max Soares da Silva, o trombonista Márcio Renato de Souza tinha um acerto anterior com o maestro Marcos Gröff – que também era diretor artístico e tesoureiro. E que este acerto nunca foi questionado e vinha sendo colocado em prática. É possível confirmar, segundo Max, o recebimento de um valor extra por arranjos realizados no valor repassado mensalmente ao músico. Max espera esclarecer qualquer dúvida, até para não impactar valores para orquestra que poderiam representar perdas importantes para o grupo.

Max Soares da Silva avalia que este tipo de situação ainda é reflexo da saída do maestro Marcos Gröff, e não descarta um novo desgaste com algum músico que não esteja se sentindo adaptando à proposta do novo diretor artístico, Ramon Stein, e do novo maestro, Lincoln da Gama Lobo.

Max Soares da Silva tem certeza que o trabalho da Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo seguirá encantando milhares de pessoas.

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