

Hoje no almoço aconteceu uma coisa engraçada: eu fui almoçar com outros dois colegas e estavam servindo como sobremesa pudim de leite. Todos nós comemos, porque é uma de nossas sobremesas favoritas. Mas foi interessante observar a culpa que só aumentava em cada um de nós a cada colherada do doce. No final, corremos até a mesa onde estavam servindo o doce para olhar a plaquinha que mostrava quantas calorias exisitam em cada fatia.
Com certeza, cuidar da saúde e da alimentação é extremamente importante. Jamais diria o contrário sobre isso. Mas acho que no episódio da fatia de pudim, o buraco era mais embaixo: ninguém ali queria ficar gordo pela diminuição de saúde que isso implica, mas sim porque a nossa sociedade impôs que ser gordo é sinônimo de ser feio. E nós abraçamos essa causa com todas as nossas forças.
Aí comecei a refletir sobre tudo que "não podemos ser": não podemos ser gordos, não podemos ser carecas, não podemos ter cicatrizes, estrias, varizes e celulites, não podemos ser pobres, não podemos ser baixos, em casos extremos não podemos ser negros, não podemos gostar de coisas que a maioria não gosta. Se pudéssemos dar um "pitaco" sobre como a humanidade deveria ser e tivessemos poderes mágicos suficientes para isso, estaríamos todos nós andando pelas ruas como astros e estrelas de Hollywood, do tipo que todo mundo pensa que acorda com aquela cara maravilhosa, que está sempre bem e que não precisa das coisas mais básicas como comida, água, um bom banho etc...uma verdadeira multidão de corpos esculpidos e belezas dignas de um Olimpo.
Eu estaria mentindo se dissesse que não penso desta maneira, que não me importaria em ser feia, gorda, varizenta e desdentada...afinal de contas eu faço parte desta nossa sociedade. Mas eu também percebo o perigo que isso representa para uma mente saudável: é total falta de criatividade e imaginação seguir um padrão de beleza. Se essa fosse a intenção, não haveria um código genético...não existe motivo para implicar com a cor do cabelo, com a estrutura óssea, com a cor da pele, com a quantidade de pelos no braço, com o formato do joelho e todas as outras coisinhas pequenas que tanto nos apegamos, temos que botar na nossa cabeça que somos o que somos e pronto. Marcas e imperfeições fazem parte da nossa identidade e das nossas experiências. Claro que é importante cuidarmos do que nos foi dado, nos alimentarmos bem, fazer um exercício, fazer unhas e etc, mas a linha entre a beleza e a paranóia é muito tênue.
Segundo fator preocupante é a maneira que damos importância para o físico e deixamos de lado os valores que a nossa humanidade vem perdendo com o passar dos dias. Qual foi a última vez que você ajudou o seu vizinho, brincou com o seu filho, foi a algum culto religioso, ensinou algo a uma criança?
Acho que deveríamos ter outro tipo de padrão de beleza....ser belo deveria significar ser uma pessoa humilde, corajosa, caridosa, inteligente, carinhosa e solidária. Beleza deveria ser a capacidade de lutar por transformar a nossa sociedade em motivo de orgulho, e não em uma multidão de top models e super-homens. Cuide do seu corpo, mas cuide também da sua mente e cuide dos que estão na sua volta...quando você envelhecer, ela terá muito mais valor!
