Meio Ambiente - 28/04/2012 08h15
Atualizado em 28/04/2012 10h26

Força-tarefa vai avaliar contaminação no Rio dos Sinos

Entidades se unem para investigar crime ambiental na água.


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Isabella Belli/Da Redação

São Leopoldo  - Em uma força-tarefa, representantes de várias entidades uniram-se, ontem pela manhã, no barco Martim Pescador, no bairro Rio dos Sinos, para investigar a contaminação da água, provavelmente, por metais pesados, o tipo de produto que teria alterado a condutividade de 300 para 1,3 mil microsiemens em apenas dois dias e a origem desse material para, após, responsabilizar os culpados. A investigação inclui monitoramento dos Arroios Portão e Estância Velha, medição dos níveis em diversos pontos do rio, recolhimento da água em alguns pontos para análise e visitação a indústrias e curtumes da região para verificar se algum está trabalhando sem a licença da Fepam.

Ontem, por volta das 10 horas, na saída do Arroio Portão no Rio dos Sinos, a condutividade era de 1,3 mil microsiemens por centímetro, de acordo com o gestor ambiental do Instituto Martim Pescador, Lincoln Czerwinski. Na quarta-feira, no mesmo horário, a condutividade estava em 1.050, o que significa que em 24 horas aumentou 250 microsiemens por centímetro. “Por ser uma região metalmecânica e coureiro-calçadista, deduzimos que a origem desse efluente esteja em uma dessas áreas, mas a confirmação só poderá ser dada ou não após a análise das águas’’, destacou Czerwinski. Para isso, foram recolhidas amostras da água do Sinos em diversos pontos. O resultado, porém, só sairá daqui a 15 dias.

Participaram do encontro representantes do Ministério Público, da Delegacia de Proteção do Meio Ambiente da Polícia Civil, Fepam, Corsan, Instituto Martim Pescador, além das Secretarias do Meio Ambiente de Portão e Estância Velha e da Brigada Militar.

Entrevista

O que as medições mostram na prática?

Lincoln Czerwinski - Os parâmetros mostrados pelas sondas não determinam o que existe na água, apenas que aconteceu uma alteração brusca mas não sabemos qual o metal e nem a origem dele.

Qual a gravidade desta contaminação?

Czerwinski - Ainda tem efluentes descendo. Se for constatado que é metal pesado, a consequência é que isso se acumulará no peixe. Ele não vai morrer e quem comer este peixe também não, mas já não será mais indicado para consumo. Metais pesados no organismo humano podem causar câncer, por exemplo.

Com efluentes ainda descendo, qual a expectativa para os próximos dias?

Czerwinski - Os efluentes já começaram a dissolver, tanto que hoje (ontem) já não se via mais mancha. Temos que levar em consideração que com a força-tarefa fiscalizando, quem estiver despejando irregularmente irá parar nos próximos dias.

Qual a possibilidade de mortandade?

Czerwinski - Mesmo com a temperatura aumentando, essa possibilidade não existe.

Casos críticos

  • Outubro de 2006 Maior mortandade da história do Rio dos Sinos: 86 toneladas de peixes mortos. A empresa Utresa, de Estância Velha, foi uma das principais responsabilizadas. No entanto, naquele caso, o material jogado no rio atingiu a oxigenação e não a condutividade. Portanto, os peixes acabaram morrendo por falta de oxigênio. Nesse caso, os peixes absorvem o metal pesado. Não morrem, mas quem consumir os peixes acaba ingerindo o metal.
  • Novembro de 2010 Dez mil peixes mortos. A Delegacia Especializada do Meio Ambiente (Dema) do Deic se uniu às fiscalizações. Duas empresas em Novo Hamburgo foram interditadas. O Ministério Público do Estado propôs medidas no Sinos no documento Pacto pelo Rio dos Sinos chamando os municípios a fazer sua parte.
  • Novembro de 2011 Quantidade de peixes mortos foi menor e não chegou a ser divulgada.
  • Abril de 2012 Centenas de peixes apareceram mortos no Rio dos Sinos. O Pró-Sinos e o Instituto Martim Pescador monitoraram o rio e não falaram em números, mas pescadores mostraram-se preocupados.

Trecho de São Leopoldo ao Delta do Jacuí foi atingido

A mancha que existia na água do Sinos na quinta-feira se dissolveu na água e ontem já não se via mais, porém isso não significa que a contaminação sumiu. Conforme o gestor ambiental Lincoln Czerwinski, todo o Rio dos Sinos, de São Leopoldo até o Delta do Jacuí, foi atingido, já que as medições mostraram que houve alteração na condutividade em todo esse trecho. Todos os dias, técnicos do Instituto Martim Pescador medem os níveis de condutividade, oxigenação, PH e temperatura no ponto fixo, que fica na Rua da Praia, no bairro Rio dos Sinos. Pelo menos uma vez por semana essas mesmas medições são feitas ao longo de todo o rio em 15 pontos diferentes.

Nos próximos dias as medições e inspeções continuarão em todo o trecho. “A ideia, a partir dessa força-tarefa, é prevenir para que não aconteça esse tipo de problema novamente. Sabemos que os problemas aqui são recorrentes, mas é importante nos prepararmos porque temos que ser rápidos e eficazes para coibir’’, ressaltou o engenheiro sanitarista do Ministério Público, Márcio Frangi.

Mancha não está mais visível

A coordenadora técnica do laboratório central de águas da Corsan, Andrea dos Anjos, explica que não há como o esgoto ter causado a contaminação. “Com os níveis de condutividade e de PH tão altos, podemos pré-avaliar como lançamento industrial e químico. Esgoto não faz os níveis aumentarem tanto”, diz ela, que garante que a qualidade da água para tratamento e distribuição não foi afetada.

Chuva mais intensa deve vir em junho

De acordo com dados da MetSul Meteorologia, anos que começam com La Niña e tiveram El Niño, como este ano, tendem a ter o trimestre de março, abril e maio com chuva abaixo da média e o trimestre de junho, julho e agosto com precipitação próxima da média.

Porém, no final de outono, no inverno e na primavera, não se descartam episódios de chuva significativa, com risco de cheias. A maior probabilidade é de chuva extrema entre agosto e setembro. Uma das maiores enchentes do Vale do Sinos foi em agosto de 1965, um ano que começou com La Niña e depois teve El Niño.






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