

Taquara - Acusado de um dos maiores casos de pedofilia do Brasil, o norte-americano Frederic Calvin Louderback, 65 anos, se diz vítima de uma armação de inimigos na comunidade naturista Colina do Sol, em Taquara. Piloto de caça aposentado da Marinha dos Estados Unidos, ele e a mulher, Barbara Louise Anner, 73, se mudaram para a propriedade nudista em 1999. Os dois foram presos na manhã de 11 de dezembro de 2007, em megaoperação do Departamento Estadual de Operações Especiais (Deic), junto com o casal vizinho André Ricardo Lisboa Herdy, 37, dentista carioca, e Cleci Heggli da Silva, 46. Com exceção de Barbara, que ganhou prisão domiciliar para cuidar de problemas de saúde nos Estados Unidos, os réus ficaram 13 meses no presídio. "Não somos pedófilos e não há vítimas, testemunhas, nem evidências", salienta Louderback.
A Polícia apreendeu fotos de crianças nuas e material pedófilo em sua casa?
Frederic Calvin Louderback - Eles não têm muitas fotos. E não desse tipo. Há fotos nuas de naturismo. Por exemplo, a foto de um bebê recém-nascido pelado é muito comum de se ver. E as únicas fotos na casa eram de sobrinhos e netos da Barbara, no naturismo. Eram de familiares. Eles não pegaram nada de pedofilia conosco.
O senhor foi condenado por abuso sexual de uma menina de 16 anos nos Estados Unidos?
Louderback - Isso é uma mentira e já foi provado. Eu nunca molestei uma criança ou adolescente, exceto quando eu tinha 16 anos e minha namorada tinha a mesma idade. Nunca ninguém havia feito processo desse tipo contra mim. E nunca fui condenado por qualquer crime.
Como o senhor se sente como acusado de pedofilia contra uma comunidade de crianças?
Louderback - (Risos) Uma terrível acusação falsa. Mais que isso, sinto muito pelo sofrimento e injustiça que o delegado Juliano Ferreira e o Ministério Público trouxeram ao pessoal do Morro da Pedra. O que causaram para a associação que organiza todos os tipos de tratamento médico, educação extra, que eram muito necessárias para os moradores.
Qual era sua relação com as crianças que estão no processo como suas vítimas de abusos?
Louderback - A primeira vez que ouvi sobre problemas de crianças no Morro da Pedra, adultos vieram a mim e pediram ajuda. Disseram que as crianças estavam trabalhando nas pedreiras ao invés de ir para a escola. Falei com um amigo que mora em Nova York, que trabalhava com a Unicef. Disse para abrir associação, que me ajudariam. Foi assim que abrimos, em 2005, a ONG New Face, que atendia mais de 100 crianças.
A que o senhor atribui essa gama de acusações de pedofilia?
Louderback - A pessoa que deveria ter prevenido essas acusações é o delegado Juliano Ferreira. Nunca fez investigação correta e, passados dois anos, nunca sequer conversou conosco. Nunca vi ele.
Como essas denúncias chegaram à Polícia?
Louderback - Isso é interessante. O Juliano foi questionado com a mesma pergunta que você me fez. E ele mentiu. Disse que foi uma ligação anônima. Mas a verdade é que o (nome do suposto acusador) foi mandado a Juliano por pessoas da Colina do Sol.
Que pessoas são essas?
Louderback - Quer os nomes? (...) É uma gangue que odiava o Wayne (Dana Wayne Harbour, 79, encontrado morto em sua casa na Colina do Sol um mês antes das prisões por pedofilia) e todos os estrangeiros e os moradores do Morro da Pedra. Essas pessoas assinaram o processo contra nós.
O senhor sofreu represálias no presídio como preso por pedofilia?
Louderback - Fui colocado em uma galeria de policiais presos e eles fizeram meu julgamento com as mesmas informações que o Juliano Ferreira tinha. Concluíram que eu e o André éramos inocentes e nunca tínhamos feito nada.
Qual sua opinião sobre pedofilia?
Louderback - Não sou médico, não sou policial. Só sei o que leio e acredito que aqui no Brasil a maioria dos que sofrem essas acusações são pessoas boas. Pedofilia é ilegal. Já passei por 126 países e tenho visto esse tipo de loucura só em dois: Estados Unidos e Brasil. Somente no Brasil se prende um pai por beijar a filha.
Depoimentos, fotos e laudos controversos
Na época das prisões, o delegado Juliano Ferreira afirmou que foram apreendidas centenas de fotos de crianças nuas nas residências dos casais. O policial relatou supostos abusos sexuais praticados contra cerca de 70 menores. A maioria das vítimas seriam menores atendidos na ONG fundada pelos réus em 2005, na localidade do Morro da Pedra, vizinha à comunidade naturista. Passados dois anos, o delegado prefere não falar, sob alegação de que o processo está sob segredo de justiça. A promotora Natália Cagliari, que também denunciou três pais como coniventes com os abusos dos filhos, sustenta acusação em 37 fatos, que incluem atentado violento ao pudor e até formação de quadrilha. Ainda não há data para julgamento do processo. A defesa nega apreensão de material pedófilo e cita atestados médicos que indicariam inexistência dos crimes. Também denuncia um laudo de falsa psiquiatra. "Se meu filho tivesse sido vítima disso, eu faria justiça com as próprias mãos", salienta um agricultor de 54 anos, denunciado como pai conivente. Os quatro filhos dele, vítimas no processo, negam os abusos.
Foto: Rodrigo Rodrigues/GES