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Uma década depois, famílias ainda buscam punição para Latam e Anac

Em 17 de julho de 2007, um acidente com um A320 da TAM matou 199 pessoas. 10 anos depois, os familiares relembram as vítimas e falam da mistura entre dor, saudade e indignação - até hoje, ninguém foi punido

reportagem ADAIR SANTOS

arte FABÍOLA SEGER KOLLING

As estudantes Rebecca Haddad e Thaís Volpi Scott, a comissária de voo Madalena Silva, o engenheiro Fernando de Oliveira, o deputado federal Júlio Redecker, o ex-presidente do Inter Paulo Rogério Amoretty Souza. Vidas interrompidas e ferimentos que, dez anos depois, ainda não cicatrizaram completamente em pais, mães, filhos, irmãos. A queda em Congonhas do Airbus A320 que havia partido de Porto Alegre no final da tarde de 17 de julho de 2007 virou de ponta-cabeça a vida dos familiares das 187 pessoas que estavam a bordo – além disso, morreram outras 12 que estavam em carros, em um posto de combustíveis e no prédio atingido pelo avião.

Uma década depois, parentes ainda lutam pela responsabilização criminal de ex-diretores da empresa aérea e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Houve responsabilidade de quem liberou a pista, que estava um verdadeiro ‘sabão’, e principalmente da companhia aérea, que ignorou os relatórios de perigo emitidos antes do acidente e a norma técnica que proibia aviões com reverso inoperante de pousar em Congonhas com chuva”, aponta o vice-presidente da Associação Brasileira de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abraapava), o comerciante hamburguense Christophe Haddad, 51 anos, que na ocasião perdeu a filha Rebecca, 14. O reverso inverte o fluxo de ar das turbinas para ajudar a parar a aeronave.

Adair Santos/Adair Santos/GES-Especial
Christophe Haddad

Rebecca ia para São Paulo passar férias na companhia da amiga Thaís Volpi Scott, 14. Apaixonada por futebol, a gremista Rebecca sonhava em ser jornalista esportiva. Hoje, ela estaria com 24 anos e, provavelmente, se formando, como o irmão Samuel, 22, que cursa Medicina. “A notícia oficial só veio às duas horas da madrugada, mas eu sabia que ela infelizmente estava naquele voo”, relembra.

Haddad tinha uma agência de viagens na época e escolheu, ele próprio, o que considerava a melhor companhia e o melhor horário do voo, que decolou por volta das 17h30 do Aeroporto Salgado Filho. Às 18h48, em meio a uma forte chuva, a aeronave não conseguiu parar e, após dar uma guinada para a esquerda, bateu contra o posto e o depósito da TAM Express localizados do outro lado da Avenida Washington Luís.

“Todos imaginam que um avião prestes a levantar voo está em totais condições, mas aquele não estava. O mais triste de tudo é falta de providências para tornar a aviação mais segura. Hoje, os mesmos acidentes registrados no Brasil aconteceriam novamente”, opina Haddad, com a experiência de quem conhece os bastidores por ter atuado, durante cinco anos, como comissário de voo na extinta Vasp. No dia anterior, um avião da Pantanal já havia derrapado na pista, mas sem deixar feridos.

Grooving

Após o acidente, ranhuras (grooving) foram implantadas na pista de Congonhas, que no entanto segue sem áreas de escape devido à falta de espaço, reduzindo muito a margem para erros. Seu comprimento total é de 1.945 m. Para efeitos comparativos, a do Salgado Filho tem 2.280 m e, a de Guarulhos, 3.700 m. Haddad acompanhou a apresentação do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão ligado à Aeronáutica. “Não foi muito conclusivo, colocando que poderia ter sido falha humana ou do avião, nos manetes”, diz. A companhia aérea, entretanto, por meio de sua assessoria de imprensa, diz que todas as informações sobre as causas foram esclarecidas nesse relatório do Cenipa, que também fez as recomendações sobre mudanças de procedimentos, todas adotadas.

Lacuna na atuação parlamentar

Uma década depois, o escritório é mantido praticamente do mesmo jeito que o deputado federal Júlio Redecker deixou. Além de livros, há muitos documentos e troféus – fruto da sua intensa atuação parlamentar. Uma homenagem à trajetória política que o filho, o deputado estadual Lucas Redecker, 36, faz questão de realizar.

“Todas as pessoas que morreram neste voo também tinham a sua parte profissional, cada uma dentro da sua área. No caso do meu pai, ele era uma pessoa pública, que defendia muito o setor coureiro-calçadista e a geração de empregos. Há um hiato, uma lacuna na atuação dessas pessoas. Por mais que outros se elejam, como eu, que de certa forma dou encaminhamento ao seu trabalho, não pensamos 100% como ele e não temos a mesma representatividade. Sempre ouço relatos de pessoas de todo o Estado sobre a falta que ele faz”, observa. Na última quarta-feira, ele faria 61 anos se estivesse vivo.

Após dez anos, confessa que a saudade não diminui, só aumenta. “A gente acaba se habituando com a situação e revertendo um pouco da tristeza para os ensinamentos, para o legado”, define ele, que agora é pai – João Lucas nasceu há um mês e meio. Sua queixa diz respeito apenas à absolvição, em segunda instância, dos acusados. “Meu lamento é em relação à Justiça. A TAM, na minha leitura, é parte dos culpados dessa tragédia, assim como a Anac”, pontua.

Joice sofreu um grande baque pela perda do marido

“Olha só a barbeiragem que este piloto fez”, bradou a dona de casa Joice Helena Vinholes Oliveira, 58, ao ver as cenas da tragédia ao vivo pela tevê. Ela não sabia, porém, que seu marido, Fernando Oliveira, então com 53 anos, também estava a bordo – a primeira notícia foi de que poderia ser um avião cargueiro. Sem desconfiar de nada, pediu para as filhas, Fernanda, hoje com 27 anos, e Renata, 26, desligarem a tevê e foi para o quarto descansar. Engenheiro elétrico que atuava em uma construtora com sede no Espírito Santo, Oliveira havia passado o final de semana com a família. Costumava voltar sempre na segunda-feira, mas desta vez resolveu voltar naquela fatídica terça-feira para São Paulo, onde faria conexão.

O telefone tocou e Joice atendeu normalmente. Era um conhecido que havia estado com Oliveira horas antes e sabia que ele estava naquele voo. Perguntou pelo engenheiro, mas quando percebeu que a esposa não sabia da tragédia, não teve a coragem de dar a notícia. Mais tarde, o telefone tocou novamente. Desta vez era o motorista que levaria o engenheiro do aeroporto até a casa dele no Espírito Santo. Falou sobre o atraso, mas Joice não estranhou, pois problemas nas conexões aéreas são comuns. Porém, a terceira ligação em um curto período de tempo fez com que começasse a estranhar a situação.

“Até que minha comadre veio nos dar a notícia. Nosso mundo sofreu uma reviravolta”, relembra. Apenas com a roupa do corpo, foi ao Aeroporto Salgado Filho com a intenção de rumar a São Paulo, onde chegou na mesma noite. “Na minha ideia, ele estava vivo, precisando da minha ajuda”, confessa. Retornou apenas um mês depois, quando os restos mortais foram identificados por meio de exames de DNA.

Luta contra o câncer

Já se passaram dez anos deste que foi o momento mais traumático já vivenciado por Joice, natural de Pelotas e residente em São Leopoldo. Mas em cada canto da casa – seja por meio de retratos ou de um banner com mensagens e uma foto – as lembranças de Fernando Oliveira estão ainda muito vivas. Joice faz questão que seja assim, para eternizar a sua alegria e companheirismo. Mas a voz embargada comprova: a dor da saudade vai e volta. O mais inusitado de tudo é que, ao ser questionado se não tinha medo de voar, sempre reforçava que era mais seguro do que andar de carro. Na época, as filhas eram adolescentes. “Meu marido era nosso pilar e eu tive que ser mãe e pai ao mesmo tempo”, relembra. Dois anos depois, mais um desafio bateu à porta: a descoberta de um tumor em uma das mamas, que ela atribui aos altos níveis de estresse enfrentados. Mas após tratamento, venceu a doença. Em 26 de dezembro próximo, ele completaria 63 anos. “A nossa ferida não cura nunca”, garante.

"Nós é que cumprimos uma pena perpétua", diz presidente da Afavitam

Presidente da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo TAM JJ 3054 (Afavitam), Dario Scott – que na época morava em São Leopoldo e há dois anos retornou a Valinhos, interior de São Paulo – lamenta a decisão, em segunda instância, no último dia 12 de junho, que absolveu dois ex-diretores da TAM e a ex-diretora da Anac, Denise Abreu, de responsabilidade criminal no acidente com o A320. Ele contesta a versão que atribui a queda ao mau posicionamento dos manetes. “Não há como saber a real posição física em que estavam. É mais provável que o erro tenha sido do computador do avião”, defende.

Passados dez anos, a reivindicação principal é uma só: “Queremos a responsabilização pelas ações, pois aquele aeroporto não deveria estar operando”, salienta. A filha Thaís Volpi Scott, bisneta do pintor italiano Volpi, então com 14 anos, ia para a casa dos avós passar férias. “Quem está cumprindo uma pena perpétua somos nós, familiares, que ficamos longe de quem gostamos”, observa. Hoje ele e a esposa, Ana, têm dois filhos gêmeos, com 7 anos.

Companhia diz seguir todas as regras do setor

A empresa aérea – que desde a fusão com Lan, em 2012, chama-se Latam Airlines – informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “se solidariza com todos aqueles que foram afetados por este acidente há dez anos. Embora consciente de que nada poderá compensar a perda de todas essas pessoas, empenhou-se, desde o primeiro momento, em apoiar os familiares de todas as maneiras e concluir o mais rapidamente possível o procedimento de indenização.”

Além disso, reitera que não houve falha no treinamento de pilotos, realizado conforme padrões mundiais de segurança e que segue, e sempre seguiu, todas as regulamentações do setor. Por fim, destaca uma das tecnologias que vem facilitando o dia a dia dos pilotos: o EFB (Electronic Flight Bag), um tipo de tablet que substituiu os manuais de consulta na cabine, consistindo em uma ferramenta autorizada para o cálculo de performance de decolagem e pouso nas aeronaves em condições de pista seca ou molhada, por exemplo.

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