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Notícias | Região Entrevista

Raízes da nossa crise econômica

Especialista analisa os motivos que levaram o Brasil ao atual cenário e aponta problemas como a desindustrialização e a falta de uma discussão mais crítica para a busca de soluções

Última atualização: 15.07.2018 às 09:49

Fábio Radke e João Ávila

Daniele Souza/CMNH
Belluzzo: o País tem uma grande deficiência na estrutura tributária

O economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Gonzaga Belluzzo, em entrevista coletiva no Seminário de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo, da Câmara de Vereadores, no último dia 4, apresentou o cenário atual da economia brasileira. A reportagem do ABC Domingo teve a oportunidade de questionar o especialista sobre assuntos relacionados ao tema. Belluzzo já atuou como assessor econômico do Ministério da Fazenda, entre 1974 e 1992. Ele ainda foi responsável pela Secretaria de Política Econômica e chefia da Secretaria Especial de assuntos Econômicos do governo federal, entre 1985 e 1990, e consultor pessoal de economia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

ENTREVISTA

De que modo começou a derrocada da economia brasileira?
Luiz Gonzaga Belluzzo - Em 1980, o Brasil era o mais industrializado entre os países. O Brasil teve uma trajetória impressionante, posso pegar dos anos 30, mais intensamente de 37, voltando para 50, com o Plano de Metas de Juscelino (Kubitschek, presidente do Brasil de 1956 a 1961), depois com a estratégia dos governos militares. Quero dizer que fiz oposição aos governo militares e tenho que falar por certa distância, o que eles fizeram. Eles não abandonaram a estratégia de industrialização do País. E tanto que você estava me dizendo, que nos anos 60, essa cidade (Novo Hamburgo) teve um desenvolvimento impressionante.

Esse desenvolvimento estava no contexto...
Beluzzo - Vocês estavam na trajetória do projeto de industrialização, vocês foram os beneficiados nesse processo de industrialização e diversificação da estrutura produtiva. É importante que a gente tenha essa visão histórica, porque, na verdade, estávamos em uma posição em que exportávamos mais manufaturados do que a China e a Coreia. A pauta brasileira tinha participação de 52% em manufaturados e houve uma reprimarização. Hoje exportamos US$ 230 bilhões, enquanto a China exporta dois trilhões.

O que causou esse cenário?
Belluzzo - Há um divisor de águas, que é exatamente a crise da dívida externa em 80, porque avançamos na industrialização como uma forma de financiamento muito inadequada. Eu vou tentar explicar: o presidente Ernesto Geisel fez o segundo PND (Plano de Desenvolvimento), de 1974 a 1979, um programa de avanço industrial. A infraestrutura da Itaipu foi feita naquela época, os projetos de ferrosos e não ferrosos, as siderúrgicas avançaram muito. Os setores da terceira Revolução Industrial, não foram incorporados, as tecnologias de informação não foram contempladas, ficamos um pouco atrasados.

O que mais?
Beluzzo - Em outra dimensão financiamos, por exemplo, Itaipu com moeda estrangeira e você não cobra em dólar, mas em reais. Nós construímos estradas de rodagem em dólar e cobramos pedágio em reais, um famoso descasamento de moedas, fenômeno típico de País subdesenvolvido que usa moeda estrangeira para financiar.

E que medida foi tomada diante desse cenário?
Belluzzo - Durante todo período dos anos 70 enquanto avançamos, o nosso ministro do Planejamento, que era Mário Henrique (Simonsen), atrasou o reajuste de tarifas públicas e a desvalorização cambial, então, era uma base frágil que a gente tinha, nós ficamos muito vulneráveis. Em 1979 estava em reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), em que os europeus apresentaram uma proposta de substituição do dólar por uma moeda administrada pelo FMI, porque, quando nos endividamos, o dólar se desvalorizou, a inflação americana chegou a 13%, o que para eles é um absurdo. Havia uma pressão grande para que se substituísse a moeda, porque o dólar estava perdendo posição nas reservas, o Volcker (Fed Paul) subiu a taxa de juros americana de 6 para 8%, de 8 para 14, de 14 para 21%, isso no espaço de seis meses. Imagina um País endividado em dólar o que aconteceu, quebrou.

E a queda nas importações?
Belluzzo - As importações durante os anos 80 caíram para 3% do PIB, isso é uma anomalia, sinal de ineficiência, não pode um País ter esse grau de fechamento. Nós estávamos sufocados pelo constrangimento externo. A partir de junho de 94, tivemos um período em que já tínhamos sofrido os efeitos negativos da escolha de setores e da crise que durou mais de 10 anos, não tínhamos praticamente investimento produtivo e toda riqueza ficou concentrada nos ativos financeiros dolarizados ou corrigidos pela correção monetária, o que deformou a estrutura da riqueza de maneira assustadora.

O que representa o Brasil na participação no PIB?
Belluzzo - A indústria brasileira foi perdendo posição, mas ainda tinha participação de em torno de 21% no PIB, a partir de 94, passou a perder posição sistematicamente. A taxa de câmbio estava valorizada na ocasião em que a China estava escalando e eles concorrem sobretudo em preços, por que usaram salários muito baixos pela oferta limitada de mão de obra e depois usaram economias de escala. Hoje economias de ganhos de produtividade movem a economia chinesa. O Donald Trump não por acaso está fazendo uma ofensiva contra eles por isso então deixaram desvalorizar um pouco o Yuan para combater as tarifas.

E no Brasil?
Belluzzo - A indústria brasileira perdeu setores inteiros, como o de eletroeletrônicos, tínhamos as empresas aqui e isso se perdeu em um processo de desindustrialização. O Brasil perdeu posições e a China fez as reformas necessárias, tanto que exportam US$ 2,7 trilhões, sendo os maiores exportadores em todos os setores, sem exceção.

Como o Custo Brasil, com sua carga de impostos, interfere na participação do Brasil no mercado internacional?
Belluzzo - O Custo Brasil sobretudo é o custo de deficiência da estrutura pública. Por exemplo, o custo de transporte de soja lá do Centro-Oeste para cá é um absurdo e os portos funcionam bem? Não, né. A estrutura tributária é muito ruim e calcada em cima de impostos indiretos. Em torno de 52% da receita tributária é imposto indireto e quem paga são as camadas mais desfavorecidas. Você paga a mesma coisa que a mulher que ganha um salário mínimo, a alíquota é a mesma e tem uma diferenciação de cálculo. O sistema tributário é caótico, complexo, um dos mais regressivos do mundo e prejudica a eficiência das empresas.

E qual a saída?
Belluzzo - Hoje toda discussão está centrada na Reforma da Previdência, ajustes fiscal, tudo no seu devido lugar é importante, mas temos uma deterioração da nossa matriz. Não adianta fazer ajustes que não vai conseguir, tem uma discussão pouca esclarecedora da opinião pública em geral sobre as questões ditas macroeconômicas. Em 2014, ano da eleição, o Brasil cresceu meio por cento, isso não é nada, um efeito estatístico, simplesmente. O País vem desacelerando desde 2010, depois do círculo de commodities.

Quanto tempo o Brasil vai ter de dificuldades econômicas?
Belluzzo - A compreensão depende de convicções que estão espalhadas pela sociedade. Você liga a televisão e se repetem as mesmas coisas. E não tem possibilidade de contestação, toda discussão mais crítica do que acontece está sendo jogada para baixo do tapete. A situação ainda é agravada pelas redes sociais e por uma polarização política, onde o que um lado diz, o outro não escuta.

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