Jornais
FECHAR
  • Jornal VS
  • Diário de Canoas
  • Jornal de Gramado
  • Diário de Cachoeirinha
  • Correio de Gravataí
Grupo Sinos
Publicado em 07/12/2014 - 09h00
Última atualização em 07/12/2014 - 09h16

Conheça a história de casais que optaram por não ter filhos

No Brasil, a opção de não aumentar a família tem sido cada vez mais comum

Laura Píffero - laura.piffero@gruposinos.com.br

Quem sabe o poder de escolha, a liberdade conquistada, os desejos, os sonhos que mudaram. Quem sabe o individualismo, o mercado de trabalho, o medo de mudar o corpo, a falta de preparo, de dinheiro, a insegurança, ou tudo junto. Mas a questão é a seguinte: há no Brasil cada vez mais famílias sendo formadas sem filhos. O que era norma, agora é uma escolha. Difícil decisão, legítima dentro da lei, mas que ainda pede justificativas em uma sociedade patriarcal, criada em cima do sonho de uma mesa farta e cheia de gente no domingo ou de alguém para levar o nome da família. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), desde 2002, há crescimento da proporção de pessoas que vivem sozinhas. Em dez anos, esse número passou de 9,3% para 13,2%.
 
Em dez anos, também (de 2002 a 2012) os casais que resolveram ter filhos caíram de 52,7% para 45%. Por outro lado, as famílias sem filhos cresceram de 14% para 19%. A quantidade de mulheres que não são casadas com filhos também caiu: de 17,9% para 16,2%. O que está havendo? A psicóloga Andrea da Luz Orives, 41 anos, especialista em Psicoterapia Familiar e de Casa, aponta diferentes fatores. “Em se tratando de se ter ou não filhos, há muitas questões a serem analisadas, a história de vida de cada indivíduo, o modelo de vida familiar que foi vivenciado, traumas vividos que o impedem de pensar na possibilidade, ou, simplesmente, o fato não ter o desejo de ser mãe ou pai”, analisa ela. Veja histórias de casais que optaram por não serem papais e mamães.
 
A vida tranquila que eles sonharam
 
Foto: Laura Píffero/GES-Especial
A decisão de não ter filhos do casal Cátia Costa, 44 anos, e Matheus de Andrade, 29, foi tomada com o tempo. Cátia é funcionária pública e passeadora de cães, Matheus é vendedor. Com ajuda da terapeuta, eles perceberam que crianças não faziam parte dos planos futuros. No apartamento novo e todo cheio de detalhes, em Novo Hamburgo, eles curtem o tempo que têm juntos. Os dois são mais caseiros, mas gostam de viajar, sair para jantar, olhar um filme, acordar tarde no fim de semana e cuidar dos bichinhos de estimação, a gata Betina e os cães Catarina e Valentin.
 
Cátia explica que percebeu que não queria gerar um filho quando foi postergando a decisão, colocando sonhos na frente da maternidade. “Primeiro queria me formar, depois casar, depois comprar apartamento, mas chegou uma hora que pensei que quando a gente quer algo não espera tanto e não dá desculpas”, analisa ela. Os dois são enfáticos quando afirmam que a questão não é não gostar de crianças, mas apenas a opção de não tê-las em casa, sob sua responsabilidade. Os dois estão juntos há 8 anos e farão sua primeira grande viagem para Itália agora em janeiro. “Quem sabe se tivéssemos filhos não poderíamos fazer tudo que queremos e quando queremos. Mas acreditamos que não há certo e errado, cada um faz suas escolhas e deve viver da maneira que lhe faz mais feliz”, explica Matheus. 
 
A certeza que apaixonados encontram
 
Foto: Laura Píffero/GES-Especial
Há 22 anos eles se tornaram um casal apaixonado e que criou suas próprias regras e alegrias. Raquel Guimarães, 50 anos, e Antônio Sérgio Fulginiti, 51, “fugiram” de casar na Igreja, uniram-se apenas no civil em um jantar para os amigos mais próximos e familiares. Eles não usam aliança e ela não trocou o nome. Juntos, dentro de uma cumplicidade visível, também tomaram outra decisão: não ter filhos. “Simplesmente não tenho vocação para ser mãe, desde que eu era nova eu dizia que não queria, o Antônio sabia, mas para a família fomos contando aos poucos”, explica Raquel. Uma das coisas que os casais sem filhos ouvem é que “vão se arrepender”. Mas não foi isso que aconteceu com Raquel e Antônio. Quando questionados se eles são felizes assim, os dois se olham, sorriem e ecoam. “Sim, muito”, diz ela. Tratadas como “filhas de quatro patas” , a bagunça da casa fica por conta das cadelinhas Belinha e Kate, resgatadas da rua. 
 
Hoje o casal mora em Novo Hamburgo, Raquel é jornalista e Antônio trabalha no setor de TI de um banco em Porto Alegre. Ter profissões bem diferentes foi o que os uniu. Os dois trabalhavam em um jornal da capital quando se conheceram e começaram uma vida juntos. “Hoje eu acho que teria maturidade para ser mãe, mas não vontade. Então, fiz a escolha certa. Existem pessoas que nasceram para ser mães e outras não”, analisa ela. Entre alguns motivos de não aderir à maternidade, Raquel aponta a insegurança do mundo. “Eu acho que não iria mais dormir se um filho adolescente meu saísse para noite, do jeito que está a violência”, diz ela. Antônio afirma que nunca tinha planejado ter filhos e, com a decisão de Raquel, tudo se encaixou. “Fazemos tudo juntos, viajamos, temos amigos em comum e adoramos nossos sobrinhos e crianças. A nossa decisão não tem a ver com não gostar de crianças e sim de não querer ter filhos apenas”, explica ele. E Raquel dá um conselho importante. “Essa tem que ser uma decisão conjunta, se um quer ter filhos e outro não, não vai dar certo. Não há casamento que resista. Essa é uma decisão muito forte”, diz ela.
 
Opção pelo sossego do lar só deles
 
Foto: Laura Píffero/GES-Especial
Eles trabalham juntos, estão casados há 20 anos, adotaram seis cachorros e fazem do lar um espaço de aconchego só dos dois e o que eles chamam de “filhos de quatro patas”. Iara Rodrigues, 32 anos, e Marcelo Santos, 37, decidiram não ter filhos ao longo do tempo, pois, segundo o casal, a vida deles já está completa e feliz assim. “Eu me sinto pai dos meus cachorros, sou muito feliz, não somos muito de sair, tenho tudo que amo em casa: minha mulher e meus bichos”, relata ele. O casal, que hoje trabalha com costura, relembra que, quando Iara tinha 14 anos, eles ficaram sabendo que iriam ser pais de gêmeos.
 
Os dois então foram morar juntos, mas, aos seis meses, os meninos nasceram e não sobreviveram. “Na época, tínhamos a expectativa de esperar as crianças, mas nunca mais sonhamos em sermos pais”, relata Marcelo. Iara também diz que nunca sentiu vontade de ser mãe, pois gosta do sossego do lar e lembra que a primeira gravidez não foi planejada. “A família pergunta porque não gostamos de sair, porque não queremos ter filhos, mas não tem uma resposta, a única resposta é que somos felizes assim”, simplifica ela. Assim como a maioria das mulheres que precisam dar uma justificativa por ter optado pela vida sem filhos, Iara reafirma que gosta de crianças, tanto que trabalha também em uma casa de festas infantil. Mas, mesmo assim, nunca sentiu vontade de ter a sua.
 
Saiba mais
 
- Segundo o IBGE, no levantamento de 2010, há mais casais sem filhos. Em 1999 eles eram 13%, em 2010 - 17%. Um crescimento de 28%, enquanto a proporção de casais com filhos caiu de 55% para 47% em dez anos.
 
- Uma pesquisa da London School of Economics calculou que, quanto maior o Quociente de Inteligência da mulher, menor a vontade de ter filhos. A cada 15 pontos a mais no QI, cai em 25% o desejo de ser mãe.
 
- Crianças já ficam fora dos planos de 14% das mulheres brasileiras, que não veem mais como uma obrigação conciliar a maternidade com uma carreira.
 
- Uma recente pesquisa da Vanity Fair, que tinha como tema central “a mulher perfeita”, aponta que, dos 1.017 participantes masculinos, 39% responderam que a
maior qualidade de uma mulher é ser uma boa mãe, item que ficou acima de requisitos como inteligência, senso de humor e uma vida sexual saudável.

- Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Michigan, Estados Unidos, com 6 mil mulheres com idade entre 50 e 60 anos, revelou que ter ou não ter filhos não tem efeito relevante no bem-estar psicológico nessa faixa etária – o que, de certa forma, contradiz a ideia de que é preciso criar os filhos para ter com quem contar no futuro. Nos últimos 50 anos, a média de filhos por mulher no Brasil caiu 6,1%.
 
- Um em cada cinco casais brasileiros opta por não ter filhos. Entre os mais jovens, a tendência é mais forte – 42,8% têm entre 25 e 34 anos. No Brasil, a taxa de 19% de lares sem filhos é um indício de um movimento. Há pouco mais de dez anos, esse número era de 14%. Entre eles, 20,7% são casais em que ambos têm renda. Para esse caso, há um nome especial: são os dinks (“double income, no kids” – em português renda dupla, sem filhos). 
 
- O custo de se ter um filho também é um dos fatores analisados pelos casais. Segundo um levantamento de 2013 feito pelo Instituto de Vendas e Trade Marketing (Invent), um filho pode custar, dependendo da faixa de renda da família, entre R$ 2 milhões (classe A) a R$ 407 mil (classe C), do nascimento até os 23 anos. 

Publicidade