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Grupo Sinos
Publicado em 09/03/2015 - 06h44
Última atualização em 09/03/2015 - 13h49

Dívidas e empréstimos: a (dura) realidade da nova classe C

Cresce número de pessoas que pendura as contas no fiado, mostra pesquisa do Datafolha

Tatiana Hentz - tatiana.hentz@gruposinos.com.br

Foto: Tatiana Hentz/GES-Especial
Há 28 anos, Norivan Luís Soares, 55 anos, proprietário de um minimercado no bairro Jardim Mauá, em Novo Hamburgo, não consegue se livrar do famoso caderninho de fiado. No entanto, de uns tempos para cá as contas têm aumentado e as páginas do fiado têm se multiplicado. A prática se mantém especialmente com o endividamento da classe C, que tem renda familiar de 328 reais a R$ 1.128,00 por pessoa. O que Soares tem constatado foi comprovado na pesquisa do instituto Datafolha publicada na última quinta-feira: o comportamento cada vez mais comum de se pendurar a conta até que o dinheiro apareça. O percentual de pessoas da classe C que fazem uso do popular fiado pulou para 29% dos entrevistados, seis pontos percentuais acima do registrado na pesquisa de 2010.
 
Assim como Soares, que não acredita que o caderninho possa se aposentar, muitos comerciantes têm percebido as dificuldades que consumidores da classe C, que já é a maior em número de pessoas no País, têm para saldar dívidas. Conforme a pesquisa, 65% das pessoas considerou difícil ou muito difícil pagar as contas do dia a dia. Na pesquisa anterior, a quitação de contas era considerada um problema por 32% dos entrevistados.
 
Os números revelados pelas respostas de 3,5 mil pessoas entrevistadas de 150 cidades do País também mostraram um outro costume da classe C. Em caso de necessidade, esta parte da população não prefere financeiras nem bancos. A ajuda vem de perto: irmãos, pais, tios, primos. Nem os avós escapam da mordida amiga de quem precisa pagar o preço do passo maior que a perna. Os empréstimos informais, em que os laços pessoais são a garantia de pagamento, ou deveriam, têm se tornado cada vez mais comuns.
 
Os dados apontam que pelo menos 15% dos entrevistados já pediu auxílio aos parentes na hora do aperto financeiro. Apesar dos números não se mostrarem muito agressivos, eles se tornam preocupantes ao serem comparados com as informações levantadas pela mesma pesquisa em 2010, quando apenas 7% dos entrevistados da parte da classe C solicitava ajuda financeira junto à família.
 
Caderninho
O comerciante Norivan Luís Soares conta que vende fiado desde o início do negócio. “Tenho mais de 20 clientes que compram desta maneira. Sempre tivemos altos e baixos, mas este ano, janeiro e fevereiro começaram muito ruins. O pessoal está muito endividado. Não preciso ligar, mas, às vezes, dizem que não têm como pagar e a conta fica para outro mês”, destaca Soares. Segundo ele, cada vez se compra mais fiado. “Tenho contas de 800 reais, 900 reais e que chegam a ultrapassar os R$ 1 mil”, enfatiza, enquanto confere a situação no caderno.
 
 
Solidariedade na estratégia do empréstimo
De acordo com o sociólogo Norberto Kuhn Júnior, do Programa de Mestrado e Doutorado de Diversidade Cultural e Inclusão Social da Universidade Feevale, a classe C tem uma forma própria de buscar crédito. “Os grupos sociais possuem diferentes estratégias de sobrevivência. Como o crédito formal é inacessível, estes núcleos familiares têm aporte através de meios informais por conta da solidariedade de pessoas próximas como a da família, mas a busca de crédito também existe fora dos vínculos familiares. Também se recorre ao crédito facilitado de pessoas que têm um pouco mais de dinheiro ou ainda de agiotas”, pondera o professor da Feevale.
 
Kuhn lembra que as dívidas também são resultados de um mercado que tem estimulado a classe C a arriscar mais. “Existem articulações entre o mercado de consumo e a mídia que se retroalimentam. Além disso, o mercado também se constitui de uma cultura consumista e, nos últimos 30 anos, o País tem valorizado o consumo”, diz.
 
Cuide do bolso
- Não se empresta o que não se tem e também não se pega emprestado o que não se pode pagar.
- O empréstimo para emergências ligadas a problemas de saúde é compreensível.
Para bens de consumo, como eletrodomésticos, o melhor é que a pessoa poupe dinheiro para fazer a aquisição.
- Quem empresta, mesmo para parente, pode e deve cobrar correção. Em uma conta de R$ 1 mil, por exemplo, a taxa pode ser de 1% ao mês, ou 10 reais. Cobrar juros é educar financeiramente. Crédito fácil pode criar vício em quem pede.
- Quem empresta dinheiro deve colocar data de vencimento mensal e também data final para quitação da dívida.
- É necessário ter uma poupança ou dinheiro reserva para os imprevistos, que sempre acontecem.
- Saber o quanto se ganha com precisão ajuda no controle dos gastos. Separe o ganho bruto do líquido.
- Não confunda: dinheiro para poupança para a aposentadoria é dinheiro para o futuro, não é sobra.
- Todos comentem erros com o dinheiro, mas é necessário avaliar por que a dívida surgiu para não repetir o problema.
- Comece a pensar: o juro em sua essência é um prêmio que a pessoa recebe por gastar mais tarde. A melhor forma de ganhar dinheiro é pagando à vista, já que sempre se pode ganhar desconto.
Fonte: professor especialista em finanças pessoais do Curso de Ciências Contábeis da Feevale Flávio Stein
 
Mais controle com o dinheiro
Professor especialista em finanças pessoais do Curso de Ciências Contábeis da Feevale, Flávio Stein acredita que pagar com cartão, cheque ou até fiado pode ser uma grande armadilha para quem está no vermelho. “Comprar fiado é ruim, pois a pessoa quando compra assim nem olha o preço e acaba sempre levando mais do que realmente precisa. A mesma coisa acontece com o cartão. O bom é ter o dinheiro em papel porque se vê exatamente o quanto se está gastando”, enfatiza.
 
Para o superintendente regional da Caixa Federal, Mauro Roberto Bom, a maior dificuldade da classe C é a falta de educação financeira, principalmente ao lidar com o chamado dinheiro livre. “Existe endividamento por conta do dinheiro disponível obtido pelo cartão de crédito, cheque especial e o crédito direto ao consumidor (CDC). Há famílias que se endividaram além da conta, pegando cartão de crédito parcelado e depois pagando com o cheque especial. As pessoas ainda não estão preparadas para todas as ofertas que o mercado proporciona. Mas não temos tido retenção de automóveis, por exemplo, por falta de pagamento.”
 
Cartão amigo
Para o gerente regional da Caixa Federal, Mauro Roberto Bom, sabendo administrar bem o cartão de crédito ele pode ser um bom aliado no controle das contas. “Antigamente, nossos pais tinham uma caderneta, na qual anotavam todos os gastos. O cartão de crédito pode ser um grande aliado se administrado corretamente. Existem pessoas de baixa renda que o usam muito bem, pois tudo fica registrado. O cartão pode ser benéfico, mas se a pessoa comprar além da conta acaba deixando um saldo devedor no cartão que pode ter mais juros do que o cheque especial, que também só deve ser usado para emergências”, exemplifica.
 

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