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Publicado em 17/04/2015 - 00h11
Última atualização em 17/04/2015 - 21h12

Caso do bebê: pai revela em entrevista detalhes do crime que chocou a comunidade

Estudante alega que agiu assim porque achava que filho já estava morto na barriga da mãe

Sílvio Milani - silvio.milani@gruposinos.com.br

Foto: Reprodução
“O nome da mãe é Caroline Zimmer e o do pai é Eduardo Alex Schmitt.” Com estas palavras, em entrevista à Rádio ABC 900 AM, nesta quinta-feira (16), o delegado de Homicídios de Novo Hamburgo, Enizaldo Plentz, tornou público os nomes do casal de Presidente Lucena autuado em flagrante na manhã de segunda por infanticídio. Plentz quer transformar o indiciamento por tentativa de aborto, que resultaria em prisão de 2 a 6 anos, em tentativa de homicídio, com pena prevista entre 12 e 30 anos.
 
Eduardo, 21, estudante de Administração de Empresas, não concorda. Em entrevista ao Jornal NH, concedida na tarde desta quinta, ele apresentou sua versão para o que teria acontecido em uma história que começou ainda no sábado e que chocou a comunidade ao ser revelada. “É uma acusação injusta. Assumo que a gente tentou abortar um feto. A gente não sabia que ele ia sobreviver e, quando vi que estava vivo, fui logo para um hospital pra tentar salvar meu filho e minha namorada.”
 
O corte na cabeça do bebê, segundo o jovem, foi provocado por um alicate. “A Carol começou a ter contrações e eu peguei a ferramenta para ajudar a tirar o feto, que a gente pensava que estava morto, pois ela vinha tomando abortivos.” A criança está em estado estável no Hospital Municipal, assim como Caroline, 18, acadêmica de Direito. O casal se livrou da cadeia pela fiança. Cada um pagou R$ 20 mil.
  
Nota da redação

Na edição impressa desta quinta-feira (16) e ao longo do dia no site, o Jornal NH não revelou os nomes do pai e da mãe para não identificar o bebê, seguindo o que recomenda o Estatuto da Criança e do Adolescente. Contudo, a partir da divulgação pública dos nomes do casal pelo delegado Enizaldo Plentz, essa medida se tornou inócua.
 
'Não sei o que vai acontecer daqui pra frente, mas quero ter ele comigo'
 
Como aconteceu o ferimento na cabeça da criança?
Eduardo Alex Schmitt - A gente pensava que não tinha mais vida, porque ela tinha tomado um monte de remédio e tudo mais. E daí estava com muita dor. No sábado, de noitezinha, pediu para tentar ajudar, para tentar tirar.

Isso onde?
Na minha casa, minha mãe tava viajando, meu pai não tava e meu irmão tava na namorada dele. A gente tava sozinho, ela tava com muita dor, tava fazendo força pra tentar tirar. Fui tentar ver uma ferramenta pra tentar tirar e aí peguei um tipo de alicate, que tem uma ponta tipo pinça. Quando ela fazia força pra tirar o nenê, dava pra ver um pouco a cabeça. Peguei o alicatezinho lá, apertei, tentei ajudar pra puxar e tirar, porque pensei que estava morto. Ela tava sofrendo muito, gritando muito... Quando tentei fazer isso, acabei machucando a cabecinha. Peguei a pele como se fosse um beliscão e, no que puxei, acabei machucando. Deu um corte na cabeça.

Em que momento perceberam que o bebê estava vivo?
No momento em que fiz o corte, começou a sangrar. Daí eu parei. Nela não tinha machucado, não reclamou de dor. Ela foi tomar um banho e ficou por isso. Tinha tentado colocar uns dois dedos ao redor da cabeça, tentando puxar, mas não tinha espaço para nascer e falei pra ela que tinha que fazer força, tirar por si porque eu não tinha como ajudar muito. No domingo para segunda, eram umas 4h30 da manhã, não tinha conseguido dormir, com muita dor por causa das contrações. Fomos ao (Hospital) Regina, quando a gente tava chegando lá, disse que não queria, que a gente ia conseguir, que era pra voltar. A gente voltou, ela continuou com dor. Pediu pra ajudar a tirar o nenê, o feto, porque a gente pensou que estava morto. Daí coloquei o dedo por dentro do corte e tentei puxar pra ajudar a tirar, pra fazer força, nisso acabou machucando mais ainda, rasgou uma parte da pele e daí o nenê se puxou e se movimentou pra dentro. Perguntei pra Carol se tinha feito alguma coisa, se tinha sentido, disse que não tinha feito nada, aí vi que estava vivo.

E daí?
Falei pra Carol que tava vivo e tinha que ir ao hospital. A gente pensava que não tinha sobrevivido à quantidade de remédios que ela tomou. A gente passou na frente do hospital de Ivoti, mas tinha muita gente na emergência. A gente foi para o Regina, estacionou dentro do estacionamento, ela ficou no carro, peguei uma senha, expliquei o que tinha acontecido e disseram que sem convênio não atenderiam.

O médico perguntou sobre ferimentos?
Uma médica falou ‘ô pai, olha aqui. Só pra te avisar que esse ferimento não foi causado no hospital, pra te deixar ciente que não foi a gente que fez isso aqui.’ Eu falei que tinha ciência. Daí continuou o processo para o parto. Ela me falou antes de ele nascer.

Algum médico falou que ia à Polícia?
Não.

Ficou com a preocupação de que isso pudesse acontecer?
Fiquei um pouco preocupado, mas não pensei que alguém fosse achar que foi uma tentativa de homicídio, porque falaram na delegacia. Perguntaram se usei um espeto, uma faca, o que eu tinha usado pra tentar perfurar o cérebro do meu filho. Não foi isso. Na minha ideia o feto estava morto pela quantidade de remédio. Por que eu ia furar a cabeça do meu filho se para mim já estava morto? Por que eu ia matar alguma coisa que já tava morta na minha ideia?

Quanto tempo faz que souberam da gravidez?
Faz uns sete meses.

Por que decidiram pelo aborto?
A gente decidiu pelo aborto porque ela tinha se preparado, feito Enem. A Carol colocou metas na vida, tipo, daqui a seis anos e meio ou terminar minha faculdade, daqui a tantos anos quero morar num apartamento, meio que deixou a vida dela preparada e esse nenê agora nesse momento ia mudar a ideia de futuro dela. Eu também não queria. Achei que não estava preparado para ser pai.

E começou a tomar abortivos?
Nos três primeiros meses, muito chá. Canela, arruda. Depois, ela falou que não tava dando resultado, não tava aparecendo barriga, a gente falou em procurar alguma coisa mais potente pra abortar. Procurei em sites médicos o que era aconselhado para grávida tomar e o que a gente viu que causava aborto. Eu comprava e ela tomava.

Em que momento pensaram que o feto estava morto?
Ela tinha dito uma vez que tinha saído um pouco de sangue. E agora a gente não sabia se tava com sete, oito ou nove meses, achava que tava morto. Achava que tava acontecendo o aborto. Quando falou que tava doendo, pensamos que tava dando resultado. A gente pensou que tava acontecendo o aborto. A gente vai conseguir abortar e deu.

Vocês contaram para os pais?
Não. A gente escondia deles.

E o aspecto físico?
Não tinha barriga. Dá para ver. Fotos de redes sociais (mostra foto de duas semanas atrás). Ela não passava mal. A maioria vomita, passa mal. Com ela não teve nada disso. Como não tinha barriga, a gente não imaginava que ia ter bebê formado, que pesa agora três quilos. A gente imaginou que tava dando certo os remédios.

E agora que nasceu?
Quando a criança nasceu, logo pensei no meu pai, uma vez disse que queria muito ter um neto. Tava meio apavorado, mas fiquei feliz quando vi que estava bem, saudável, um guri grande com 3 quilos. Não consegui ver mais depois do nascimento porque o hospital não deixou. Ela tá na UTI neonatal, todo dia falam para minha mãe e sogra. Ele melhorou.

Comentaram se vai ter sequela?
Não falaram nada disso ainda. A informação que minha sogra ganhou que agora compraram uma chupeta, que não respira mais com aparelhos e que tava rindo para uma enfermeira. Reagindo bem aos medicamentos. Pelo que vi, vai melhorar. Não sei se vai ter alguma deficiência por causa dos remédios, mas para mim agora não faz diferença, pois agora só quero ter meu filho, minha família está apoiando. A gente sabe que foi um erro ter escondido, ter tentado abortar, mas agora passou e agora é criar, amar o filho meu e da Carol. E é isso.

E se não puder ficar com a criança?
Minha família está disposta a adotar. A mãe da Carol também. Eu quero ter meu filho comigo. Não sei o que vai acontecer daqui pra frente, mas quero ter ele aqui comigo.

Como vê a acusação da Polícia de tentativa de homicídio?
É injusta, porque não foi tentativa de homicídio. Assumo que a gente tentou abortar um feto, a gente não sabia que ele ia sobreviver. Quando vi que tava vivo, na segunda de manhã, não pensei e fui logo pra um hospital pra tentar achar um recurso, porque não podia fazer mais nada pelo meu filho e pela minha namorada. Não imaginava que ia ser um guri saudável com três quilos.

Tem medo de ser preso?
Tenho. Não foi tentativa de homicídio. Se é pra responder pela tentativa de aborto que eu sei que isso fiz, então que responda.
 
Advogado leva alicate ao Foro
 
O advogado Cláudio Rodrigues Neto, que assumiu nesta quinta a defesa, entregou à tarde no Foro o alicate que teria ferido o bebê. “Há resíduos na ferramenta. Solicitamos perícia. Também pedimos a quebra de sigilo telefônico do meu cliente e imagens dos locais por onde passou quando saiu em socorro. Queremos apurar a verdade. Levei à 1ª Vara Criminal porque o delegado não quis ouvi-lo. Não há nada de tesoura. Nada perfurante.”
 
Para o delegado Enizaldo Plentz, a defesa quer perturbar o inquérito. “Quem está presidindo o inquérito sou eu. Quando quiser ouvir, vou chamar. Estamos diante de um crime chocante, gravíssimo. Solicitei urgência nas perícias para que possa indiciar o casal e pedir a prisão preventiva.”

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