Jornais
FECHAR
  • Jornal VS
  • Diário de Canoas
  • Jornal de Gramado
  • Diário de Cachoeirinha
  • Correio de Gravataí
Grupo Sinos
Publicado em 20/10/2015 - 14h43     Última atualização em 21/10/2015 - 06h44

''Nós chegamos a treinar 11 horas por dia'', lembra o técnico Paulo Roese

Estado teve sua primeira equipe profissional de vôlei com o Sulbrasileiro

Vôlei Gaúcho em 5 sets - 1º Set
 
reportagem GUSTAVO HENEMANN
edição web e de vídeo RAQUEL RECKZIEGEL
 
imagens
DIVULGAÇÃO
GUSTAVO HENEMANN/GES-ESPECIAL
 
Desta terça-feira até sábado, a série Vôlei Gaúcho em 5 sets mostra a trajetória do vôlei no Rio Grande do Sul
e as grandes equipes que contribuíram e contribuem para fazer do Estado um verdadeiro celeiro
de bons atletas e casa de times e personagens que fizeram história. 
 
No ano de 1983, o Estado teve o seu primeiro clube profissional, o Sulbrasileiro
No ano de 1983, o Estado teve o seu primeiro clube profissional, o Sulbrasileiro, patrocinado pelo banco de mesmo nome na época. Em 1984, a equipe era a seguinte: De pé - Duda (técnico), Ricardo (preparador físico), Paulão, Virgílio, Leco, Aldmir, Marcus Vinícius, Marcelo, Talmai, Betô (assistente técnico), Jorge Thomaz (supervisor). Agachados - Negreli, Joca, Renan Dal Zotto, Paulo Roese, Doro, André e Márcio. Em 1985, o Sulbrasileiro fechou e abandonou o vôlei.
 
O voleibol, ou simplesmente vôlei, se tornou ao longo do tempo um dos esportes mais praticados pelos brasileiros. No Rio Grande do Sul, a modalidade chegou no início do século XX, com a criação da Associação Cristã de Moços, em 1901. Durante alguns anos, ainda desconhecido por parte da população, a prática se restringia a Porto Alegre, onde por volta da década de 30 teve certa evolução e passou a estar presente em clubes importantes do Estado, como a Sogipa e o Grêmio Náutico União.

A criação, em 1954, da Federação Gaúcha de Voleibol (FGV) e da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) alavancou o esporte de maneira geral. O processo de formação de atletas para as seleções gaúchas femininas e masculinas é exemplo do movimento de expansão do vôlei, levando vários atletas para a seleção brasileira.

Entre os anos 60 e final de 70, o Rio Grande do Sul esteve representado na Taça Brasil, competição completamente amadora na época, sendo que em algumas oportunidades sequer conseguiu entrar na disputa. A transição do amadorismo à profissionalização do esporte no Estado se tornou realidade a partir do Campeonato Brasileiro de 1983, quando houve a criação da equipe do Sulbrasileiro, ainda durante os últimos anos da ditadura militar que imperava no País. Sem alcançar os resultados esperados e pela quebra do banco, em 1985, a equipe se desfez.

“Em 84, a poupança Sulbrasileiro, nem era o banco, investiu forte. Trouxeram o Renan Dal Zotto (leopoldense), que era o melhor jogador do mundo na época, Marcus Vinícius (Bento Gonçalves) e Paulo Roese (Novo Hamburgo). Aí o banco teve um problema e o Rio Grande do Sul entrou num limbo”, aponta o ex-jogador do Sulbrasileiro Régis Ruschel, o Leco. Ainda antes do Sulbrasileiro, havia o Riograndense, clube de Montenegro, que não chegou a se tornar profissional, mas que dominou o Estado.

Em meio ao processo de profissionalização, os atletas gaúchos já se destacavam no cenário nacional. Ainda sem ser reconhecido como potência no esporte, o vôlei brasileiro passou a ser tratado de outra maneira a partir de 1984. Em Los Angeles, o Brasil conquistou a primeira medalha em Olimpíada, consagrando a geração de prata, comandada por Bebeto de Freitas, e que teve em quadra Renan Dal Zotto, Marcus Vinícius, Montanaro, Xandó, William, Bernard, Bernadinho, entre outros nomes.
 
 
 
Migração para o eixo Rio de Janeiro/São Paulo

Foto: Divulgação
Heloísa Roese, ex-jogadora da seleção brasileira feminina, foi para o Rio de Janeiro em busca da profissionalização
Ainda entre as décadas de 70 e 80, um dos problemas do esporte era o fraco investimento nas categorias de base. Jovens atletas não enxergavam no Estado um projeto de futuro para seguir carreira no esporte. Na fase de transição entre a adolescência e a fase adulta, muitos precisaram procurar no centro do País uma oportunidade para dar prosseguimento no vôlei. E vários desses gaúchos aventureiros tiveram papéis fundamentais no crescimento do esporte no Brasil.

Um exemplo é o leopoldense Renan Dal Zotto, um dos maiores atletas da história do voleibol brasileiro e que inspirou toda uma geração. “Fui pela primeira vez convocado em 1976 para seleção. Em 1981, teve o primeiro projeto profissional, que foi o Atlântica/Boa Vista (RJ), equipe que me contratou. Em 1984, joguei no Rio Grande do Sul (Sulbrasileiro), e foi legal jogar perto de casa junto da família. Essa foi minha passagem no Rio Grande do Sul depois que me tornei profissional”, lembra Renan.

Em Novo Hamburgo, Heloísa Roese foi uma das primeiras mulheres a deixar o Estado em busca da realização profissional. O ex-levantador e atual treinador da Voleisul/Paquetá Esportes, Paulo Roese, recorda de sua grande incentivadora, a irmã Heloísa. “Eu peguei uma fase muito legal que foi a da minha irmã, a Heloísa. Ela, com 16 anos de idade, teve que ir para o Rio exatamente pela falta de profissionais aqui no Sul”, afirma Roese. “Na época se jogava por amor. Estudava de manhã, trabalhava à tarde para poder ter um dinheiro e treinava à noite. A gente não recebia nenhum salário, era tudo por conta. Até quando fui para o Rio continuou um pouco assim. Quando fui para o Bradesco, em São Paulo, que a coisa ficou mais profissional”, recorda Heloísa.

Paulo Roese reforça que passou pela mesma situação da irmã. “Eu tinha 16 anos e fui junto com o Renan para o Rio na equipe do Antônio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, que para mim foi o ícone do esporte no Brasil. Ele que teve a visão, junto com o Carlos Arthur Nuzmann, então presidente da CBV e atual presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), e fez a equipe da Atlântica/Boa Vista e a Pirelli”, destaca Roese.
 
O ápice da Frangosul foi em 1994/1995, quando venceu a 1ª edição da Superliga
A Frangosul, antiga empresa frigorífica, apostou no vôlei como meio de divulgar sua marca. O ápice do
seu projeto foi em 1994/1995, quando venceu a 1ª edição da Superliga

 
O primeiro projeto duradouro de vôlei no RS

Mesmo com o fim do Sulbrasileiro, a chama gaúcha em desenvolver o vôlei não se apagou. No final de 85, a Frangosul, empresa do ramo frigorífico de frangos estabelecida em Montenegro, resolveu entrar na parada e, em 1986, estreou como patrocinadora de um longínquo projeto de vôlei. Quem se recorda é Adriano Oliveira, ex-diretor de vôlei da Frangosul em Montenegro. “A Frangosul se deu principalmente pela rivalidade que se criou entre os frigoríficos. Já existia uma equipe de voleibol em Chapecó, que levava o nome da cidade, e uma que era a Sadia, em Concórdia. Havia também, só que daí no futsal, uma equipe forte que era a Perdigão. Então, esses donos de frigoríficos eram todos amigos e rivais por consequência, por aquilo que queriam vender. Então, Flávio Wallauer, diretor-presidente da Frangosul, me procurou e pediu que fizesse um projeto de vôlei para colocar o marketing deles para faturar mais”, lembra Oliveira. “A Frangosul achava que o esporte era uma boa forma de fazer um investimento. Ela veio fazendo de uma forma gradativa. Veio aos poucos aumentando e foi mais conhecida nacionalmente. Ele (Flávio) começou de uma forma bem amadora e foi tomando gosto pela coisa”, afirma Marcelo Wallauer, filho do ex-diretor-presidente da Frangosul, Flávio Wallauer, e ex-atleta da equipe.
 
Iniciativas isoladas

Foto: Gustavo Henemann/GES-Especial
Para Carlos Cimino, a criação da Frangosul foi questão de mercado
O atual presidente da FGV, Carlos Cimino, ressalta que no passado as iniciativas de se fazer vôlei no Sul eram isoladas de determinados patrocinadores, que seriam mais afeiçoados com as pessoas que dirigiam os projetos e, pela amizade, investiam no esporte. “Com o passar do tempo, houve a necessidade de profissionalizar. Hoje, quem patrocina não quer só o retorno de mídia, ele quer um acordo comercial onde ele possa colocar seus produtos no mercado em função da visibilidade que ele teve ao agregar sua marca às equipes de voleibol”, opina.

Cimino observa que nos anos 80, a criação da Frangosul se deu por uma questão mercadológica. “Devido a uma queda econômica mundial e uma quebra na exportação de frangos, houve a necessidade da Frangosul de investir no mercado brasileiro. E fez isso investindo no esporte, que deu retorno de mídia e consequentemente abriu o mercado, porque nós já tínhamos outras marcas. Foi uma sacada inteligente naquele período entre os anos 80 e 90. E com isso, lógico, se atingiu uma meta de mercado”, comenta. “Foram anos de aprendizado para nós da comissão técnica e para a empresa. Nós porque estávamos saindo do amadorismo para o profissionalismo. Sob nossa direção, a Frangosul foi octacampeã gaúcha”, completa Adriano Oliveira, que seguiu até 1992 à frente dos assuntos da equipe, ano em que houve a união entre a Frangosul e Sociedade Ginástica Novo Hamburgo (SGNH).
 
The Beatles do vôlei

O ex-jogador Paulo Roese lembra muito bem do período em que serviu à seleção brasileira na década de 80. “Nós íamos jogar no interior do Brasil, com Renan, Montanaro, Bernard, Xandó, Bernardinho, os caras pareciam os Beatles. O Bebeto de Freitas (treinador) terminava o treino e mandava a gente ficar correndo em volta da quadra. Recordo-me muito porque é engraçada essa cena. Acabava o treino e, para não ter invasão, quando ele dava o sinal a gente saía correndo para o ônibus porque as gurias pegavam os cabelos dos caras. Eu acho que ali que começou tudo. Ali que o profissionalismo do voleibol foi encarado de outra forma”, aponta Roese.
 
 
 Na quarta-feira, você confere uma reportagem sobre a Frangosul/Ginástica, que
conquistou a primeira edição da Superliga na temporada 1994/1995

Publicidade