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Grupo Sinos
Publicado em 04/04/2015 - 17h19
Última atualização em 04/11/2015 - 18h49

Desvendando Alien/Iansã, o novo disco da Siléste

O Bah!rulho conversou com a banda leopoldense durante um almoço para saber quais foram as inspirações para esse segundo álbum

André Heck - andré.heck@gruposinos.com.br

Foto: Mario Arruda/Divulgação
Siléste inicia divulgação do seu novo disco com show em São Paulo
O Bah!rulho reuniu a gurizada da Siléste para uma espécie de almoço nu – com a permissão do escritor beat William Burroughs e o seu Naked Lunch. Em uma lanchonete hamburguense, o almoço regado a cerveja e vodka – no caso do Cidade – tinha uma motivação especial: o lançamendo do segundo disco da banda leopoldense. Depois da estreia homônima que saiu no final de 2012, Everton Cidade (letras e vocais), Cristiano Spaniol (guitarras), Leonardo Serafini (guitarras) e Mádger Barte (bateria) lançaram recentemente Alien/Iansã.

O novo álbum foi produzido e gravado por Stefano Fell, guitarrista da banda Loomer, e lançado pelo selo Lezma Records. A banda se apresenta nesta sexta-feira, dia 6 de novembro, no 74 Club, em Santo André (SP). Em seguida, a Siléste volta a São Leopoldo para seguir a divulgação do novo trabalho. Durante o encontro dos caras com o Bah!rulho, eles falaram sobre a proposta do novo disco e ainda comentaram, faixa a faixa, esse novo e classudo trabalho. Tudo foi gravado e a conversa é reproduzida abaixo. Se liga aí:

Vocês pensaram em mudar a proposta para esse segundo disco?

Léo - A fórmula das composições é a mesma do primeiro disco. Usamos as mesmas técnicas, as mesmas influências, mas a maior diferença é que a gente se propôs a diminuir um pouco a velocidade, tentamos segurar e ficar um pouco mais contido.

Cris - Pensei que seria mais introvertido, mas a maioria dos sons acabaram ficando bem pop, pela produção e tudo, ficou mais pop.

Um pop palatável, agradável...

Cidade - Sim, pop palatável no sentido bom de ser palatável. Também acho o primeiro disco muito palatável, mas era um disco punk. O primeiro é um disco punk, punk inteligente, como disseram, mas um disco punk.

Léo - Mas o primeiro não é muito inteligente. Ele é bem raivoso e essa é a diferença, desse segundo disco parecer mais pop, é porque o primeiro é muito raivoso. Era uma época mais densa. Agora a gente estava só mais triste, mas não tão raivoso.

Cidade - O nosso sonho é fazer um disco ensolarado ainda, né. A gente sempre planeja fazer um disco ensolarado, mas...

Mádger - Esse foi o máximo de sol que a gente conseguiu botar num disco até então. Eu até considero ele ensolarado, na real.

Cidade - É, mas a nossa praia é uma praia de Rimbaud...

Mádger - O resultado desse disco também tem a ver com a questão de que o primeiro tu quer ter um disco inicial, tu quer lançar até independente de como seja. Tu quer que ele saia pra tu circular. No segundo, estávamos mais experientes em gravar e em compor. A gente ousou mais nas composições, mas foi natural, não foi pensado. A gente que estava diferente mesmo.

E o que vocês esperam de resultado desse disco?

Cidade - Eu não sei na verdade, cara. Às vezes eu escuto e acho o melhor disco do mundo, sabe, e eu realmente vou ficar muito triste se não tiver um retorno grande, mas a gente nunca sabe, né... E é o segundo disco, e segundo disco é sempre uma coisa difícil né, cara, eu realmente não sei o que esperar.

Léo - A expectativa, na verdade, já foi alcançada. Porque esse disco foi todo bem pensado como deveria soar e pra mim já é uma vitória ter conseguido alcançar a forma que ele alcançou porque essa era a proposta: chegar naquele nível de som e era isso. Então, o que esperar dele... Basicamente, a gente já alcançou o que esperava.

Léo, tu já me falou que o som é nichado. Qual é o nicho da Siléste?

Léo - O nichado é que a gente trabalha com elementos diferentes da música popular brasileira que o pessoal costuma ouvir. Então é nichado porque trabalha com referências diferentes, mas a gente se aproxima de uma música bem autêntica por ser daqui. Nenhuma outra banda do mundo conseguiria fazer o som que a gente faz, só a gente, por estar inserido nesse contexto. E dentro desse contexto ainda existe esse nicho. Não é pra qualquer um ouvir mesmo, tem que querer gastar um pouco mais de tempo pra entender.

Então a banda ainda está procurando o seu público?

Mádger - Eu vejo um público muito urbano, mas urbano true, urbano cinza mesmo.

Cris - Tem um pessoal que gostou do nosso primeiro disco, mas esse segundo já está diferente, então a gente não sabe como o pessoal vai reagir. Até os que gostaram do primeiro podem não gostar do que fizemos agora. A gente gosta muito, mas não tem muita ideia do que esperar porque não é a mesma coisa.

Cidade - A aceitação do primeiro foi uma surpresa também. A gente não esperava uma recepção tão bacana. Desde que eu trabalho com música, eu e o Cris, que estamos tanto tempo juntos, foi a melhor recepção que a gente já teve com um trabalho, foi incrível.

A Siléste me chamou a atenção por ter uma estética diferente, por ser um som diferente do que se vê por aí...

Mádger - A estética é fundamental na banda. É uma coisa que a gente preza bastante.

Léo - É que a nossa arte é propor essa estética...
 

FAIXA A FAIXA

CASMURRICE
 

Léo - Acho que Casmurrice é a principal música do disco. É a primeira que foi composta e é a que eu acho que mais sintetiza o que é a Siléste. O que a Siléste vai ser e o que ela já foi, está tudo ali. Foi um momento de transição do primeiro pro segundo disco e nos abriu uma visão nova de música. É muito o que é a Siléste, tem muitas referências brasileiras e outras coisas que a gente sempre ouviu. É uma música de abertura de disco.

Mádger - É o nosso abre alas. Ela soa como um abre alas. Ela abriu alas pra figura estética que a gente apresentou no segundo disco. Foi abre alas antes de ser o segundo disco, porque ela poderia ter entrado no primeiro...

Léo - Ela poderia ser um single também, ela é completa.

KIKA
 

Cidade - Eu tinha no pensamento quando fiz a letra uma amiga minha que morreu de leucemia e que foi uma pessoa muito importante na minha vida, nas minhas épocas de anos loucos, jovens e rebeldes. Era uma pessoa que era legal a ponto de, como eu não comia, pelos devaneios químicos, né, ela botava chocolate escondido no meu café preto pra eu ter uma substância no corpo. Então é uma música claustrofóbica, uma música que fala de morte. É a minha visão da morte.

Mádger - Acho a música mais forte, impactante do disco. Tanto que é a minha favorita. É uma das que eu mais gosto de tocar e é uma viagem porque quando a gente toca ela, parece que a gente fica super protegido como banda, parece que nada vai nos atingir. A gente meio que sai da realidade e fica dentro da música, fica de dentro pra fora, nada vem de fora pra dentro quando a gente está tocando ela. Eu fico preso nela quando a gente está tocando.

RÔMULO
 

Cris - É por causa de um amigo nosso que está sempre junto com a gente no dia a dia. É bem simples, a guitarra bem minimalista e bem limpa, mas ao redor dessa limpeza tem guitarra meio estridente em algumas partes, parece ronco de motor às vezes (risos). A batera do Mádger é bem arrastada e por isso ela acaba ficando bem saliente nesse som. Ela é forte, espaçosa, tem alguns espaços curtos de silêncio.

Léo - Rômulo é a musica que influenciou a capa do disco. O Felipe, que criou a capa, falou que queria que a capa transparecesse os sentimentos que o Rômulo transparece, que é tu, mesmo numa situação desfavorável, se mostrar confiante, tipo, nada vai te abalar, e é o que a gente queria passar com esse disco.

Mádger - É o que a frase principal da música fala, "fechou-se em nós". Pra mim essa frase diz muita coisa, fala sobre esse lance do indivíduo e desses pequenos grupos que se protegem dentro de uma ideologia, ou como nós quatro, por exemplo, estamos fechados dentro da ideologia que a gente acredita.

Cris - Fechou-se em nós é isso, fechou com nós, o Rômulo está sempre com a gente e eu e o Cidade crescemos junto com ele, curtimos a mesmas coisas, os mesmos sons, as mesmas drogas...

Cidade - As mesmas mulheres...

CRAZY KIDS NEVER DIE

 
Cidade - Fiz essa música para a Liege, da (banda) Medialunas, esposa do Andrio, que gravou nosso primeiro disco. Eles queriam muito ter um filho na época, e a letra fala disso, de assentar, ter uma casa, ter uma família e ser feliz com isso. A letra me remete a um dia que eu e o Léo, depois de uma balada, com a Gabi Tellini e as pessoas todas, a gente foi prum morro, muito verde, muito sol. E a gente ficou lá deitado às 8 da manhã, só curtindo o sol e a energia entre a gente. O amor que estava ali, naqueles cinco minutos que ficamos ali, foi imenso e a letra é isso. É de um amor imenso. Eu não tenho filho, mas acredito que ter um filho é emergir no amor de uma maneira sem comparações. É emergir no amor sem dor, que é o que todo mundo procura o tempo todo.

Léo - Pra mim essa música me lembra das piores ressacas (risos).

BEM ESTAR
 

Cris - Eu trouxe de casa esse riff. Tenho um monte de coisas gravadas em casa e às vezes eu levo pro ensaio pra gente ver se faz alguma coisa. No fim eu fiz um riff bem melódico e o Léo acrescentou uma outra guitarra que ficou bem separada. As guitarras ficaram bem separadas, distintas uma da outra. Às vezes eu faço ela ficar mais encorpada, às vezes mais flutuante, meio bem estar de chapado mesmo, é que a letra é assim, bem estar de flutuar, às vezes o Léo coloca uns efeitos...

Léo - Na verdade essa música o Cris trouxe toda pronta. A guitarra que ele disse que eu fiz, foi ele que fez. Aí eu adorei a música e disse que essa a gente ia tocar. Ela é uma música muito querida nossa, feita pelo Cris. Ele quase nunca apresentava nada, até que ele botou Bem Estar pra nós tocarmos.

RÁDIO
 

Mádger - Pra mim Rádio representa a visão lúdica de ter uma banda e almejar ouvir tua banda tocando numa rádio. Hoje em dia isso já é ultrapassado, que nem a gente tava falando de jornal, tipo, ainda leio jornal, ainda ouço rádio. Tu ainda ouvir radio e o auge duma banda seria tu ouvir tua banda tocando numa rádio, saber que tua música seria radiofônica.

Léo - O engraçado do Mádger falar isso é que eu e o Cidade compomos essa música pensando no apocalipse, final do mundo. E pro Mádger o final do mundo é estar morrendo e estar lá ouvindo a gente tocar na rádio. Acho essa uma boa experiência.

Cidade - A ideia da letra é: acabou tudo, deu um cataclisma e tu só recebe notícias pelo rádio. Computador não funciona, nada mais funciona. Só tem o rádio que é a coisa mais antiga de comunicação mundial. A ideia é essa. As tecnologias velhas sempre vão ser usadas.

MARINHO
 

Cidade - Fiz a letra na gravação. É sobre juventude, sobre ser feliz, sobre aceitar a felicidade, sobre aceitar que às vezes tu pode ser arrogante sem ser cruel. Aceitar que às vezes tu pode estar por cima de pessoas que te destruíram anteriormente. Mas na verdade é sobre a velocidade da mocidade, a coisa camaleônica da mocidade, que é um trabalho incrível. É difícil ser moço. É um dos trabalhos mais difíceis que tem.

TRISTE ESFORÇO DE SER MOÇO

 
Cris - O Léo começou a fazer esse riff num ensaio, acho até que o Rômulo estava junto naquele dia. E eu, sem saber muito o que fazer, comecei a largar a mão na guitarra, bater nas cordas mesmo, e ela acabou ficando bem arrastada e meio pesada, meio densa. Acho ela bem parecida com Stars Are Stars, do Echo and the Bunnymen, só que o som deles é mais alegrinho. A gente consegue ser mais triste...

Cidade - Mais triste que o Ian McCulloch. As músicas do Léo são músicas de guitarrista. Tem que se desdobrar pra colocar um vocal pra não estragar a música. Mas a ideia da letra vem de uma música do Tom Zé, que é Sofro de Juventude, ele fala que quando está no ponto, se frita e acaba. E a ideia é essa: triste esforço de ser moço, esse alvoroço de pele e osso, que são os hormônios, tu tem 16 anos, tem que trabalhar com o desejo sexual, arrumar um trabalho, tu ainda tem que ser o querido da tua mãe, tu tem que odiar o mundo e o mundo te odeia. Pra mim essa é metade Tom Zé e metade Smiths.

HIENA
 


Mádger - Essa é uma do Dead Kennedys que eles acabaram não botando no disco deles porque tava muito barra pesada dai a gente acabou aproveitando o material pra botar no nosso disco. É mais ou menos isso esse som. (risos)
 
Cidade - A letra tem uma parte que o refrão é: azar de zeus, que é uma referência a uma música da (banda) Blanched. Eu fiz o verso em cima do verso deles, que é uma banda que eu amo muito.

Léo - É uma música que nós fizemos na temporada que o Fernando Fischer (guitarrista de Novo Hamburgo, assim como a Blanched) fez parte da Siléste. É uma música bem raivosa, bem pra mandar todo mundo se fuder, porque é bem Novo Hamburgo mesmo, é bem essa ideia.

Cidade - E tem o último verso que é homoerótico pra caramba...

Cris - Achei massa que botaram um efeito bem legal na voz, que fica meio alien mesmo, meio alien/hiena. Ficou bem tri.

Cidade - Eu me lembro sempre do Ira quando eu canto essa música. Eu sou tão canastrão quanto o Nasi. Acho que é isso (risos).