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Publicado em 06/06/2015 - 16h41
Última atualização em 06/11/2015 - 17h17

Será que sou machista?

Dessa vez, Ivar A. Hartmann cede seu espaço para Paula Martins

Paula MartinsPaula Martins é jornalista
 
  
Nesta semana, está acontecendo a campanha #AgoraÉQueSãoElas. Homens com espaço na mídia estão cedendo a oportunidade para que mulheres possam falar sobre questões de gênero. À convite do professor Ivar A. Hartmann, estou ocupando seu espaço tradicional para falar sobre o feminismo. E, embora eu esteja tratando abertamente sobre o assunto com todos, direciono-me, especialmente, às mulheres. Mais precisamente àquelas que não se definem como feministas.

O feminismo é difícil de entender. Vivemos rodeados de extremismos e isso pode dificultar nosso discernimento. Difícil levantar a bandeira do movimento quando ele está associado a formas de protesto que parte da população vê de forma pejorativa – como a Marcha das Vadias, por exemplo. Por causa desses manifestos que vemos e eventualmente discordamos, é comum homens, e principalmente mulheres, se perguntarem: será que eu sou machista?

Mas podemos respirar aliviadas: não, não somos machistas. Pelo contrário. Se você é contra a violência doméstica, o estupro e a desigualdade salarial, você é feminista; se você revira os olhos quando recebe uma cantada na rua e se ofende quando um homem insinua que você será “recompensada” com algum benefício em troca de um “favor”, você é feminista. Mas entendo que você possa estar confusa em relação ao seu posicionamento.
 
Talvez, você acredite que uma cantada na rua não seja assédio, e sim, desrespeito. Palavras ditas às pressas enquanto ele passa por você numa calçada movimentada podem lhe soar como uma atitude baixa e de mau gosto. Mas você precisa entender que, ainda que a distância entre a cantada inocente e as perversas intenções do assédio seja grande, ambas são intoleráveis.
 
Cultura de estupro lhe parece surreal? Não é. Pense bem: milhões de mulheres são violentadas sexualmente por grupos masculinos. Existe, sim, uma construção no imaginário desses criminosos de que eles têm o direito de roubar o consentimento – e a autoestima, confiança e, enfim, a vida – das mulheres.

Você pode ter crescido dentro de um ambiente sadio e, por isso, não acredita que pequenas sutilezas façam alusão à violência. Mas, em algumas comunidades, esses pequenos incentivos – embora não pareçam estímulos – fragilizam ainda mais a segurança das mulheres.
 
Contemplada por essas reflexões, percebi que o feminismo possui uma série de vertentes. Não vou pintar a barriga e sair com os seios à mostra na rua para combater o machismo e não vou deixar de me maquiar em protesto aos padrões de beleza impostos pela sociedade. Mas acredito, de forma muito tenaz, que a mulher tem igual capacidade de sustentar a casa; que temos o direito de nos vestir e se despir da forma que quisermos, com quem quisermos e, principalmente, quando quisermos – respeitando, é lógico, determinados códigos de conduta; e que o feminismo é, para o nosso desagrado, um tema muito pertinente.

Por isso, não critiquemos as manifestantes da Marcha das Vadias, tampouco as mulheres que optam por ser donas de casa. Precisamos aceitar que somos feministas em diferentes proporções. E que todas temos os mesmos interesses: independência, segurança e, especialmente, respeito.

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