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Questão de Gênero
Blog Questão de Gênero

A psicologia e as pessoas trans

Uma revisão sobre a última letra da sigla LGBT e entrevista com o psicólogo e psicoterapeuta Ramiro Figueiredo Catelan.

O que as palavras transar, transação, transatlântico, transbordar, transcendente, transcorrer, transcrever, transe, transferência, transfiguração, transformar, transgênico, transgredir, transição, transitar, trânsito, transmissão, transparente, transpirar, transplante, transportar, transporte e transversal têm em comum?

Pois bem, o prefixo “trans” não é um conceito tão incomum na nossa realidade, ele está presente em nosso dia a dia muito mais do que imaginamos, de maneira natural. Na sigla LGBT, a última letra representa as pessoas transgênero – transexuais e travestis – e sempre foi a mais esquecida e deixada de lado, pois não trata de orientação sexual como as outras (Lésbicas, Gays e Bissexuais).

Uma pessoa transgênero é aquela que transita entre os dois gêneros, isto é, não se identifica pelo gênero imposto no seu nascimento com base em seu sexo biológico. Um homem trans é quem, ao nascer, foi designado mulher, porém se identifica e se percebe como homem, assim como uma mulher trans, que foi designada homem ao seu nascimento, mas se identifica e se percebe como mulher. Em suma, são homens e mulheres que, por muitas vezes, sofreram pela falta de compreensão sobre si mesmos e pelos outros, e tiveram a coragem de ser quem realmente são e lutarem todos os dias por seus direitos.

Faz-se necessário, também, destacar que ser uma pessoa transexual ou travesti é uma questão de autoidentificação, ou seja, a pessoa assume e se designa o conceito que melhor se identifica. Na maioria dos casos, a pessoa trans passa pelo processo de transição, em que normalmente faz uso de hormônios para se sentir mais confortável com o gênero de sua percepção; e a pessoa travesti, que muitas vezes se afirma como um terceiro gênero, costuma ter uma expressão mais feminina.

Ser uma pessoa transgênero não influencia diretamente em uma orientação sexual - ser hétero, homo ou bi - visto que gênero e orientação não se configuram em um padrão de combinação. Assim como não é regra a busca de sujeitos trans pela redesignação genital, tudo depende muito de como a pessoa se sente. Por isso, faz-se importante não generalizar ou julgar, mas sim conhecer melhor, pois cada caso é um caso, e todos devem ser respeitados.

Atualmente, o Brasil é o país onde há mais assassinatos de pessoas trans no mundo tudo, de acordo com a organização Transgender Europe, que reuniu dados de janeiro de 2008 a dezembro de 2014. Esse levantamento revelou que 51% dos assassinatos de indivíduos trans na América Central e do Sul aconteceram em nosso país, sendo contabilizadas 689 mortes, sendo usa maior parte de jovens.

Para a comunidade médica mundial, os casos de pessoas transgênero ainda estão na lista de doenças mentais, mas a OMS (Organização Mundial da Saúde), pressionada pela Anistia Internacional e associações de defesa dos direitos do LGBT, com apoio da ONU, trabalha na retirada da transgeneridade da CID (Classificação Internacional de Doenças). O novo manual, a ser publicado em maio de 2018, espera garantir de que os sujeitos trans recebam tratamento igualitário de redes públicas e particulares, influenciando, também, na aceitação por parte da sociedade e na luta por direitos dessas pessoas.

O blog QUESTÃO DE GÊNERO entrevistou o psicólogo e psicoterapeuta Ramiro Figueiredo Catelan – CRP 07/26017, graduado em Psicologia, pós-graduando em Terapia Cognitivo-Comportamental e mestrando em Psicologia Social e Institucional, sobre a relação da psicologia com a transgeneridade.

RamiroBlog QUESTÃO DE GÊNERO – Em seu TCC de graduação, “Intervenções psicológicas para pessoas transgêneros: uma revisão sistemática”, quais foram suas principais considerações finais?
Ramiro – Eu desenvolvi no meu trabalho de conclusão de curso uma revisão sistemática da literatura sobre intervenções psicológicas para pessoas trans, que no momento está em processo de publicação. Revisei estudos de 1980 a 2015 que tratassem do tema. As principais considerações foram que um percentual bastante elevado das intervenções psicológicas tinha um caráter conversivo, moralista e estigmatizante, provocando malefícios às pessoas trans. Ao mesmo tempo, meu estudo demonstrou que as intervenções mais recentes, mais especificamente a partir do final da década de 1990, tem tido um viés mais positivo, afirmativo e validante em relação às pessoas trans. Ou seja, uma grande parte dos estudos teve viés mais negativo, mas eram estudos mais antigos, quando o paradigma hegemônico no estudo da transexualidade e das identidades de gênero era outro. Isso pode ser explicado pelo gradativo combate à visão psicopatologizante da transexualidade e também pelo crescente movimento que tem procurado entender as identidades trans como espectros normais e possíveis de identidade de gênero, sem caracterizá-las como transtornos ou desvios. É uma área em disputa ainda por diversos atores, o movimento social das pessoas trans pró-despatologização, acadêmicos de diversas áreas, gestores de políticas públicas, mas o meu estudo mostra que quanto mais caminharmos em direção à despatologização e a intervenções mais afirmativas, melhores condições psicológicas as pessoas trans podem ter para enfrentar os diversos desafios que se colocam no cotidiano de uma sociedade infelizmente ainda muito invalidante e transfóbica.

Blog QUESTÃO DE GÊNERO – Como a psicologia vê os transgêneros frente à OMS e sua classificação?
Ramiro – A psicologia foi uma ciência que, durante muitas décadas, ajudou a criar, reforçar e validar estereótipos em relação à população trans, contribuindo para o processo de psicopatologização que trouxe diversos efeitos negativos tanto simbólica quanto pragmaticamente. Atualmente, há um movimento crescente na psicologia nacional e internacional em prol da despatologização das identidades trans, buscando entender o gênero como autodesignado e validando expressões de gênero não-hegemônicas. Esse mesmo movimento da psicologia, no âmbito acadêmico, tem buscado desenvolver pesquisas que apontem as condições precárias e vulneráveis de vida a que estão expostas as pessoas trans, procurando criar recursos para atuação psicossocial na prevenção à violência e no aumento da capacidade de resiliência, por exemplo.

Blog QUESTÃO DE GÊNERO – Quais as principais mudanças que teremos ao retirar os casos de pessoas transgênero da lista de doenças mentais?
Ramiro – Essas mudanças ainda carecem de estudos e maiores análises, pois cada país lida de uma forma diferente com os sistemas de diagnóstico e suas relações com a saúde, pública e privada. A OMS está caminhando em direção ao alocamento da transexualidade para condições médicas de saúde geral, retirando-a do capítulo dos transtornos mentais. É uma decisão polêmica, não há consenso em relação a isso dentro do movimento social e entre os pesquisadores, pois não se sabe o efeito que isso pode ter no SUS sobre o custeamento de processos de afirmação de gênero como cirurgias de redesignação genital e terapia hormonal, por exemplo. Precisaremos aguardar a publicação da nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11) para sabermos os reais impactos dessas mudanças, mas tanto o movimento social quanto os pesquisadores ligados à pauta tem estado otimistas. O estigma do transtorno mental sobre uma categoria que não representa um transtorno mental é muito pesado. Nem todas as pessoas trans têm disforia de gênero. É muito complicado generalizar. Deixando como está, cria-se uma situação complicada, que submete a vida de pessoas e decisões sobre seus corpos na mão de profissionais da saúde que nem sempre tem o preparo adequado e uma postura ética para lidar com esses casos. É preciso caminhar cada vez mais em direção à autonomia das pessoas trans sobre o que fazer com suas vidas, seus corpos. Para além disso, há implicações para a saúde geral das pessoas trans nesses processos de mudança diagnóstica. O acesso à saúde ainda encontra muitas barreiras aqui no Brasil; as pessoas antecipam a discriminação e acabam não acessando os serviços, e quando acessam são maltratadas. Precisamos modificar urgentemente esse quadro, criando ações de educação e treinamento de profissionais da saúde para acolher a diversidade sexual e de gênero. Os núcleos de pesquisa dos quais faço parte na UFRGS e na PUCRS têm desenvolvido pesquisas a respeito.

Blog QUESTÃO DE GÊNERO – É possível traçar aspectos psicológicos característicos do agressor transfóbico?
Ramiro – Há toda uma discussão sobre termos como homofobia e transfobia, que tendem a individualizar um problema que tem raízes em discursos sociais, na cultura. Fobia está relacionada a transtornos de ansiedade, à psicopatologia. Atitudes negativas contra pessoas trans não são uma doença, mas um preconceito. Preconceito é um fenômeno que cria vieses, em geral negativos, contra determinados grupos, gerando distorções e generalizações. O preconceito é uma atitude, ou seja, composto por crenças, respostas emocionais e comportamentos em direção a determinados grupos. É preciso atuar nos três níveis para promover modificações. Nossas pesquisas têm demonstrado que falta de acesso à informação, falta de contato com a diferença e um pensamento mais conservador, entre outras variáveis, podem estar relacionados ao preconceito. Não existe exatamente um perfil da pessoa que discrimina, mas há variáveis que se relacionam com o preconceito, como citei anteriormente.

Blog QUESTÃO DE GÊNERO – Como é a avaliação e acompanhamento psicológico para pessoas trans que busquem procedimentos de reafirmação de gênero?
Ramiro – As normativas que regulam o chamado processo transexualizador determinam que haja, no mínimo, dois anos de acompanhamento psicológico para pessoas que desejem procedimentos de afirmação de gênero mais "duros", como cirurgias que modifiquem genitais, por exemplo. Esse acompanhamento pode ser feito tanto no âmbito público, em serviços de saúde, quanto no privado, em consultórios particulares. Uma avaliação com viés não patológico deve buscar conhecer e validar a história de vida da pessoa, procurar conhecer com detalhes o contexto de vida, respeitando a autonomia e as decisões da pessoa que busca esses procedimentos, ajudando-a a lidar com crenças e emoções relacionadas tanto ao processo de afirmação de gênero quanto a outros aspectos da vida, pois ninguém é só gênero; as pessoas têm uma série de questões ao longo do cotidiano que merecem ser escutadas para que, a partir disso, possa-se construir um processo terapêutico positivo, afirmativo e validante. O objetivo de um processo de psicoterapia é, fundamentalmente, proporcionar mudança, crescimento e afirmação. É preciso investir cada vez mais na capacitação de profissionais da psicologia para respeitar e trabalhar com pessoas trans, pois os estudos indicam que profissionais com mais treinamento em gênero e sexualidade podem promover intervenções mais positivas, efetivas e empáticas em comparação com profissionais não familiarizados com as temáticas.

Questão de Gênero

por Cristiano Rosa
cristiano1105@hotmail.com

Corpo, cultura, direitos sexuais, educação, gênero, políticas públicas, saúde e sexualidade. O objetivo do blog Questão de Gênero é dialogar todos esses temas por meio de crônicas interativas semanais, com debates, dicas de filmes, livros e música, entrevistas, notícias e vídeos. A ideia principal é comentar e propor reflexões sobre tudo aquilo que envolva a cultura e a diversidade sexual, as relações de conceitos, práticas e teorias sobre sexualidade e o respeito pela igualdade de gêneros. Cristiano Rosa é professor de línguas, especialista em Educação a Distância e pesquisador na área de Educação, Sexualidade e Relações de Gênero.

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