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Da invasão emocional ao mal-estar físico: cuidado com as pessoas tóxicas

Segundo especialistas, por trás de pessoas arrogantes, onipotentes, que buscam impor suas ideias ou são angustiadas demais, existe muito sofrimento e uma grande dificuldade em lidar com as próprias emoções

reportagem DÉBORA ERTEL
arte ALAN MACHADO
edição web e de vídeo RAQUEL RECKZIEGEL
Perigo tóxico
Já chegou no trabalho, deu de cara um colega meio desagradável e sentiu algo ruim? Ou voltou para casa, encontrou o cunhado e depois ficou com dor de cabeça? Entrou em pânico porque novamente teria uma reunião com um colega chato? Cuidado! Você pode estar vivendo com pessoas tóxicas, capazes de provocar sensações nada agradáveis nos outros. Gente que contamina o ambiente com suas atitudes e causa mal-estar nos outros são apontadas como tóxicas. A psicóloga Anie Stürmer, diretora do Instituto de Psicologia de Novo Hamburgo (Ipsi), com mais de 30 anos de experiência, explica que a terminologia gente tóxica não é comum no Brasil, embora seja utilizada em outros lugares do mundo. No entanto, isso não é razão para que não existam pessoas com esse perfil por aqui. “São pessoas geralmente arrogantes, onipotentes, que querem impor a sua ideia ou que são muito angustiadas. É aquele sujeito que quando entra numa sala, o ambiente já fica pesado”, exemplifica.
A mestre em Psicologia e doutoranda em Gestão de Pessoas, Alessandra Gonzaga, diz que a pessoa tóxica é aquela que toma o espaço que não lhe pertence. “É o tipo espaçoso, que não percebe que invadiu o espaço do outro ou até faz isso deliberativamente”, comenta. O assunto, inclusive, rendeu um best seller ao escritor argentino Bernardo Stamateas com o livro Gente tóxica- Como lidar com pessoas difíceis e não ser dominado por elas, lançado em 2009 no Brasil. Ele lista 13 personalidades tóxicas mais frequentes e comenta sobre cada uma delas, com exemplos e situações do cotidiano. “São pessoas tóxicas que potencializam nossas debilidades, nos enchem de cargas e frustrações. Certamente, elas sabem tudo o que acontece na vida alheia, mas se esquecem de ver o que está dentro delas”, escreve Stamateas. No entanto, entre os especialistas dizem que todo mundo tem seu dia de contaminação e, para aprender a lidar com essa carga de energia negativa, que tanto pode vir de fora como de dentro, é preciso se conhecer.

A esponja

Para Anie Stürmer, quem não consegue conter os seus sentimentos negativos acaba transbordando essas sensações para os outros, para que terceiros sintam também o que está sentindo. “Em psicanálise a gente chama isso de identificação projetiva”, comenta. Segundo a profissional, é algo muito sútil, mas que pode ser sentido na convivência do dia a dia. No entanto, ela chama atenção para o outro lado da moeda. Para cada pessoa contaminada, existe quem absorve essa negatividade, cumprindo a função de esponja. A resposta para esse comportamento pode estar na história de vida de cada um. Uma das possibilidades é que quando bebê essa pessoa não teve uma mãe ou um ambiente que contivesse suas angústias. Por outro lado, quem é esponja também pode ter sentido falta, também na infância, de quem acolhesse sua angústia, sua dor e seu choro. “A pessoa acaba levando isso consigo e transborda para os outros, tanto a tóxica, quanto a esponja”, analisa.

No trabalho

Em uma relação de trabalho, onde há o convívio diário, os venenosos são pessoas muito autoritárias, que precisam impor sua vontade. “Neste caso, a onipotência e a arrogância estão diretamente ligadas ao desamparo”, salienta. A pessoa que se sente muito desamparada deposita esse sentimento no outro. “Ele se impõe, é agressivo, deixa o outro com medo e acuado”, completa. Conforme a psicóloga, quem age desta maneira tem uma falha grande de personalidade. “Então ela precisa fazer isso com o outro. Agora o outro será uma esponja ou não? Aquele que absorve vai conseguir lidar com alguém autoritário?”, reflete. Na avaliação da psicóloga, para cada pessoa tóxica sempre haverá uma esponja. Mas ele destaca que existem pessoas que conseguem colocar um limite nesse relacionamento, não se deixando contaminar.
Perigo tóxico
A "ajudinha" do fofoqueiro
Alessandra Gonzaga atua em cursos de liderança organizacional e aponta o autoritarismo como algo negativo. Embora muita gente coloque sempre a culpa no chefe, ela destaca que esse comportamento está presente em outras funções. ”Não está vinculado ao poder, mas à capacidade que a pessoa tem de influenciar e de tentar controlar o comportamento do outro”, diz. Segundo a especialista, isso pode ocorrer tanto por atitude agressiva, tanto pela passividade, apontada como altamente tóxica. “É aquela pessoa que faz você ficar grudado nela por pena ou porque ela se vitimiza. Ou ainda porque ela toma o seu tempo quando você não tem tempo para dar”, classifica.
A especialista chama atenção para o perfil do fofoqueiro, apontado como aquele que deixa o ambiente totalmente contaminado. No entanto, Alessandra diz que a fofoca é atraente porque tem um “sabor” agridoce“. “Se não fosse gostoso fazer isso, as pessoas não faziam. Pois tem um gostinho bom falar mal de quem você não gosta”, dispara. Mas com o tempo, todos podem estar nesta vitrine, de acordo com ela, que se tornou um ambiente de intriga, onde não há confiança em ninguém. Conforme a profissional, quando a fofoca se torna um modus operandi na organização e na hora do café a rádio corredor fica ligada, essa contaminação fica no ar. “Você pode até não se dar conta, mas o emocional já captou que ali não é um lugar seguro. Eu também me torno tóxico por estar em volta daquilo”, aponta.
Arte pessoas tóxicas
Perigo tóxico
Nem a família escapa
Cris Manfro, psicóloga e terapeuta familiar, ressalta que apesar de todos terem um conceito de família ideal, o comportamento tóxico também existe neste ambiente. “O que a gente espera da família e dos amigos? Uma rede de apoio. Mas têm pessoas que fazem exatamente o inverso”, analisa. De acordo com ela, um dos perfis familiares que contaminam é o invalidante. É aquela pessoa que desfaz tudo o que outro construiu (veja o exemplo de diálogo ao lado).
Outro comportamento é a competição, que nem sempre é aberta e aparece sutilmente nas coisas do dia a dia, atrapalhando o convívio. Na avaliação da terapeuta, pessoas negativas também são tóxicas, pois sempre colocam os outros para baixo. O egoísmo também é citado como algo ruim dentro de uma relação mais íntima. “Tem sempre aquela pessoa que pode contar com você, mas você nunca pode contar com ela”, assinala. Quem é egoísta não dá importância para os sentimentos e conquistas dos outros, é como se somente as suas ações fossem revelantes.
Perigo tóxico
Distanciamento como saída
Segundo Cris, o distanciamento aparece como saída para enfrentar os relacionamentos tóxicos na família, seja com os irmãos, cunhados ou outros parentes. “Não falo em arame enfarpado, cerca elétrica. Mas deixar a poeira baixar, para poder saber como lidar com aquela pessoa”, aconselha. No entanto, a profissional alerta que é preciso ter cuidado com as más interpretações, situação que gera muitos desentendimentos e feridas. Ela aconselha a sempre conversar sobre as chateações de maneira aberta.

Fique atento à depressão

A depressão é apontada como o mal do século e atinge muitas famílias. Cris lembra que pessoas que se encontram deprimidas não estão assim porque querem. É como se estivessem usando um óculos preto e por isso tem a visão negativa de tudo. “Todo o nosso processo cognitivo é influenciado diretamente por aquilo que a gente sente e isso vem diretamente do que a gente pensa”, finaliza.

Como identificar?

A dica de Alessandra para lidar com pessoas tóxicas é tentar identificar o padrão de comportamento. Reflita sobre os questionamentos abaixo: 
1. Será que essa pessoa é só assim comigo ou é assim com todo mundo?
2. Quando que ela é assim?
3. Se for uma pessoa mais controladora, mas não necessariamente agressiva, o que ela faz?
4. Ela me intimida elogiando apenas o trabalho dos outros?
5. Se eu sei que fulano virá hoje, fico ansioso, tenho dor de barriga, o coração dispara?
6. Se fiz uma reunião com a pessoa que me incomoda, fico sem dormir à noite?
7. Toda a vez que converso com o fulano fico com dor de cabeça?
Caso a resposta seja afirmativa para os questionamentos, o convívio com essa pessoa, segundo Alessandra, faz mal. “As nossas emoções agem via corpo. Então precisamos ouvir o corpo e prestar atenção nas reações para saber quem é tóxico na nossa vida”, orienta.
Perigo tóxico
Como lidar com isso?
Os especialistas são unânimes em dizer que para lidar com pessoas que nos fazem mal é preciso o autoconhecimento, saber olhar para dentro de si para compreender porque as emoções dos outros acabam tendo efeito sobre mim. Para Anie Stürmer, é necessário ter uma vontade de se conhecer. “Por que eu absorvo isso? Ou por que eu afasto as pessoas de mim?”, aconselha. Ela avalia que é importante a desacomodação, pois há pessoas que desenvolvem sintomas físicos por causa desse comportamento. Cris Manfro ressalta a autoconsciência, até para não terceirizar o problema. “É uma tendência que temos, esperar que os outros mudem, esperar que os outros façam as coisas como a gente gostaria”, avalia.
Já Alessandra lembra que todas as pessoas têm períodos em que são tóxicas por conta das dificuldades da vida. A dica dele é praticar o bem e ser bondoso com os outros. “Se você quer ficar livre de pessoas tóxicas, não seja desconfiado, seja bondoso. A gente muda para dentro e naturalmente o mundo lá fora vai se acomodando a esse novo ser que somos”, finaliza.
Perigo tóxico
Entrevista | Bernardo Stamateas
Stamateas
O argentino Bernardo Stamateas é licenciado em Teologia e Terapêutica Familiar, em Psicologia e em Sexologia Clínica. É membro da Sociedad Argentina de Sexualidad Humana. Ele já proferiu 652 conferências por diversos lugares do mundo, tem 32 livros publicados e quatro best sellers. Nas redes sociais, é seguido por mais de meio milhão de pessoas. Além disso, é pastor do Ministerio Presencia de Dios. Confira a entrevista sobre o livro Gente Tóxica:
Gente tóxica
Em seu livro, você descreve 13 tipos de pessoas com este perfil. Quais são os cinco mais perigosos e qual causa maior dano do que os demais?
Todos, em algum momento de nossas vidas encontramos, e continuaremos encontrando, personalidades tóxicas. Seja qual for a modalidade (o manipulador, o ciumento, o psicopata, o onipotente, o agressor verbal, o masoquista, o autoritário, o desqualificador, entre outros), a pessoa tratará de nos envolver em uma batalha que não é nossa. Qualquer tipo de toxicidade é prejudicial para quem a vive diariamente. Tentar mostrar aos outros seus erros é uma perda de tempo porque o tóxico não tem autocrítica. Ele sabe tudo o que acontece nas vidas alheias, mas se esquece de revisar sua própria vida. Por isso, não queremos mudar ninguém, só muda quem está determinado a fazê-lo e é capaz de pedir ajuda. Não podemos permitir que outros decidam por nós que batalhas lutaremos.
Você percebe que a toxicidade é algo que surge da personalidade do sujeito ou é resultado do entorno de suas relações interpessoais?
Todas as pessoas crescem e se desenvolvem pela influência que recebem dos ensinamentos durante a infância e, sobretudo, de tudo o que veem em seu entorno familiar e cultural. O tóxico, no geral, passa por certas situações que provocaram nele uma grande ira, impotência e frustração. Quem vive para se queixar, invejar os outros ou mostra traços de psicopatia, narcisismo ou sadismo, reprime estas emoções que procura processar prospectando-as em outros.
Há pessoas livres de serem tóxicas ou é uma situação que acontece com qualquer um de nós?
Todos, sem exceção, viemos com algum “defeito de fábrica”. Isto significa que não há ser humano que não tenha algum traço tóxico, quer dizer, uma parcela de imaturidade em sua personalidade. O tóxico, por sua vez, vive sua toxicidade como um estilo de vida e pensamento. Quer dizer que funciona como tóxico. Uma pessoa emocionalmente sã sempre procura melhorar suas características negativas, que primeiro reconhece; o tóxico jamais admite seus defeitos. Pelo contrário, os nega e os transfere para alguém na forma de culpa. 
(Tradução Gabriela Silva)

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