Logo do Jornal NH
Compartilhe

Ansiedade, angústia e insegurança regem a vida moderna: saiba como combatê-los

Especialistas explicam sintomas e doenças provocadas por esses sentimentos

reportagem AMILTON BELMONTE

vídeo RAQUEL RECKZIEGEL

imagens PIXABAY e DIVULGAÇÃO

Ansiedade, angústia e insegurança. Sentimentos que pulsam em larga escala na sociedade. Em parte, explicados por variáveis sociais, como mais de 12 milhões de desempregados do País e percalços econômicos e políticos, aliados à insegurança pública que virou rotina e obriga o cidadão a um constante estado de alerta. Junto com isso, a velocidade de informação da era digital e tsunamis tecnológicos forçam a uma permanente modernização, sob uma ótica questionável de que se não fizermos isso estamos fadados a perdas de oportunidades pessoais e profissionais. Pesquisa da International Stress Management Association (ISMA-Brasil) de 2016 revela que 81% da população economicamente ativa sofre de ansiedade, que a angústia afeta 73% das pessoas e que 61% vivem preocupadas. “Estamos como povo sem esperança. Isso tem a ver com a credibilidade de gestores, com economia do País. Qualquer pequena mudança nos empolga, mas a realidade mostra que logo depois vem o balde de água fria. Quando vemos luz no fim do túnel é a locomotiva contra nós”, resume a PhD em Psicologia Clínica, Ana Maria Rossi.

Dicas para aprender a lidar com a ansiedade

Ao enumerar que 90% da população está exposta hoje a algum tipo de trauma, Carolina Blaya assinala que é preciso aprender a lidar com a ansiedade, tanto em níveis iniciais quanto mais avançados. E enumera quatro passos para um a abordagem preventiva à ansiedade:

 

Reeducação

No olhar de Ana Maria Rossi os espectros da angústia, medo e ansiedade acabam se estendendo e trazendo conflito ao adentrar o pátio das relações pessoais. “Há um radicalismo maior nas relações interpessoais, mas há também uma hipocrisia na comunidade. Ao mesmo tempo que se cobra da Lava Jato também saqueia, rouba e se dá demonstrações de que a sociedade tem práticas similares às dos políticos”, assinala. Constatação que pede uma reeducação. “De posturas, de práticas, de moral e de ética, que vai levar muito tempo, pois da mesma forma que percebemos a intolerância vejo essas mesmas pessoas também sendo incoerentes com a moral”, pondera. 

 

Sentimentos e conectividade

Especialista em Psicologia Clínica e presidente da comissão de Psicoterapia do Conselho Regional de Psicologia (CRP-RS), Luciara Itaqui relata que a maioria dos seus pacientes procura atendimento em função da ansiedade e estresse, com sintomas da ansiedade tendo muitas vezes causas mais fáceis de identificar do que angústia. “Claro que tem fatores psicossociais que ajudam nesse quadro, mas a verdade é que as pessoas não foram ensinadas a falar sobre sentimentos. Mas se resguardam, pois ainda entendem que pedir ajuda está ligado ao fracasso e que podem superar sozinhas”, diz Luciara. Como estratégia, diz que o trabalho é direcionado para a identificação dos problemas. “Buscarmos descobrir juntos o que está incomodando, qual a causa do problema. Algumas vezes o tratamento é combinado com medicação e funciona e em alguns níveis”, diz.

Na análise de Luciara Itaqui, a sociedade vive conectada em excesso. “Hoje com os smartphones é difícil pras pessoas estabelecer limite às conexões e acabam sempre plugados, senão parece que ficam desinformados”, observa. Fato que sobrecarrega o ser humano de preocupações. “As pessoas percebem o mundo através da câmara do celular, precisam fazer fotos de tudo, senão parece que não estiveram lá ou viveram aquela emoção”, ilustra. Relações com a mídia que acabam permeando a terapia. “Esta ansiedade está muito ligada a isso, pois se comunicam muito através das mídias e diminuem as interpessoais. Ficou mais fácil brigar pelas redes sociais e às vezes as pessoas se expõem muito por ali”, argumenta Luciara. Também professora do curso de Especialização em Psicologia Clínica do Instituto Fernando Pessoa, comenta que o divã já não é apenas reduto de mulheres. “Há muitos homens hoje fazendo terapia, buscando mais, numa média de público de 30 anos”, ressalta.

Viver o presente, não o "se" e o "será"

Ressaltando que os níveis de ansiedade são diversos, Ana Maria Rossi discorda que a ansiedade possa produzir um ser humano mais focado. “A ansiedade pode ser tão intensa que incapacita as pessoas. Necessariamente não faz a pessoa focar na situação, mas no Se e Será”, comenta. E entende que riscos como o de perder o emprego tem que servir de alavanca e estímulo para diversificar o campo pessoal e profissional. “Talvez seja a hora de planejar e organizar melhor a vida. Mas como podemos direcionar ansiedade para ser construtiva e não destrutiva: primeiro, se manter no momento presente, no aqui e agora. Não temos controle sobre o futuro. E procurar, se tem dúvida se vai ou não perder emprego, saber se a chance é real ou se estou imaginando. Buscar fatos que justifiquem a ansiedade ao invés de ficar em espiral de ansiedade”, orienta Ana.

Mas o que é ansiedade?

A ansiedade é uma sensação ou sentimento decorrente da excessiva excitação do Sistema Nervoso Central consequente à interpretação de uma situação de perigo. Parente próxima do medo (muitas vezes a diferenciação não é possível), é distinguida dele pelo fato do medo ter um fator desencadeante real e palpável, enquanto na ansiedade o fator de estímulo teria características mais subjetivas. A ansiedade é o grande sintoma de características psicológicas que mostra a intersecção entre o físico e psíquico, uma vez que tem claros sintomas físicos como: taquicardia (batedeira), sudorese, tremores, tensão muscular aumento das secreções (urinárias e fecais), aumento da motilidade intestinal, cefaleia (dor de cabeça). Quando recorrente e intensa também é chamada de Síndrome do Pânico (crise ansiosa aguda). Toda esta excitação acontece decorrente de uma descarga de um neurotransmissor chamado Noradrenalina, que é produzido nas suprarrenais, lócus cerúleos e núcleo amigdaloide.

E a angústia? 

Do latim angustia (“estreiteza”, “dificuldade”), a angústia é a aflição. Trata-se de um estado afectivo que causa um certo mal-estar psicológico, acompanhado de alterações no organismo (como tremores, taquicardia, suor excessivo ou falta de ar).

Ansiedade, angústia e medo nos devoram

No entendimento da psicoterapeuta paulista Ana Fraimann a velocidade é um dos principais vetores que explica os sintomas de angústia, ansiedade e medo em larga escala. Junto com ela a dromologia, o domínio das linguagens computacionais como poder, e a dromocracia, que impera no atual estágio do paradigma infotecnológico. “A dromologia considera que a velocidade é fator principal das atuais mudanças sociopolíticas, acelerando os processos de produção, logística de distribuição e alterando profundamente os eixos onde se pautam o ensino e a aprendizagem, sem que estes se caracterizem verdadeiramente como educação”, esclarece. Também escritora e atuando na preparação para a aposentadoria e pós-carreira, ela argumenta que a velocidade subverte a ordem e o status social, servindo como ponta de lança de exclusão. “E fortemente ligada aos interesses da máxima acumulação de capital, em tempo igualmente breve, e onde a corrupção toma parte de maneira assustadora. Com a cultura cibernética, delimita grupos de excluídores, excluídos e sobrantes. As dinâmicas sociais atuais apontam para o fato de que uma hora cada cidadão pode ser isso e noutra hora passa a ser aquilo. Estamos, todos, sujeitos a sermos incluídos e excluídos, porque a dinâmica é competitiva e ninguém joga para perder, mas assim mesmo perde, ainda que sejamos altamente competentes e bem formados para o que se pretende”, esclarece Ana.

Competição entre gerações

Se a riqueza hoje se norteia pela economia política e a velocidade com que essas relações estão sendo intermediadas à ‘lógica da corrida’, Ana Fraimann afirma que a nova ordem é capaz de articular nos mais diferentes níveis e setores o binômio velocidade-política, onde o surgimento da dromocracia impera sobre necessidades e direitos fundamentais entre grupos, sociedades, estados e nações. Gerando ansiedade, angústia e insegurança. “O fato é que daqui a não muito mais que dez anos nosso mundo estará povoado por demandas profissionais para as quais não estamos, a população de 30 anos pra cima, minimamente preparados. As melhores faculdades cobram muito caro por cursos que preparam para profissões e ocupações profissionais que em não mais do que 20 anos inexistirão”, projeta. Futuro incerto que coloca defasagem de idade, do conhecimento e da habilitação no palco, confrontando gerações. “Competem pelo mesmo minguante mercado três gerações: o filho, o pai e o avô. E todos competem com os robês de um lado e com os estranhos migrantes e imigrantes de outro”, analisa.

Mundo em transformação

Os patamares elevados de ansiedade coletiva se explicam, diz Ana Fraimann, pela transformação permanente do mundo. “Já não falamos em universo, mas em multiversos. Somos chamados a pensar, fazer e sentir através de novos paradigmas. E enquanto o mundo das novas tecnologias galopa, as mudanças mentais e sentimentais rastejam”, critica ela. Ideias, moedas e planeta digital que acabam gerando opressão. “A conduzir prazeres e saberes às esferas da virtualidade. Perdemos a nossa segurança. No mundo altamente conectado nada mais permanece em segredo. Aliás, um segredo só pode ser sabido por uma única pessoa. Segredos a dois já seria correr riscos desnecessários. O que era contido e camuflado hoje é assumido e exibido. E as nossas crenças ficam profundamente abaladas”, frisa.

Violência urbana, um potencializador

Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e uma das médicas que atua no Programa de Transtornos de Ansiedade (Protan), do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Carolina Blaya destaca que a intenção do programa é prestar assistência aos portadores de transtornos psiquiátricos, em especial os transtornos de ansiedade. “Importante frisar que os pacientes são referendados pela rede básica de saúde, são pacientes mais graves e então encaminhados ao hospital”, assinala. Entende que elevação da violência urbana nas últimas décadas deixou de implicar apenas nesses pacientes. “A novidade é que todo mundo está sendo atingido por isso, nos deparamos com isso o tempo todo nos consultórios, o que colabora e muito para esses níveis de ansiedade se potencializar”, pontua.

Fazer a coisa certa

Para Ana Maria Rossi uma forma de colocar pra baixo os níveis de ansiedade é viver melhor consigo mesmo. E fazendo a coisa certa. “É o caminho para uma consciência tranquila. Quando as pessoas estão fazendo a coisa corretamente a gente fica impelido a fazer o certo. Que é o caso de limpar o lixo, colocar o lixo no lixo”, assinala. Conforme ela, ao fazer isso a pessoa passa se comportar de uma forma que gere orgulhe dos seus atos. “Se as pessoas começarem a não ter orgulho de espertezas, começará a se limpar a própria consciência, o próprio quintal. E muitas vezes quem tira vantagem se vangloria disso, se acho esperto. Que as espertezas deem lugar a comportamento mais ético e mais justo. Pois ao mesmo que nos queixamos de injustiças, as cometemos, com um olhar especial às crianças que são o futuro do país”, argumenta Ana.

Mais especiais