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Opinião Gilson Luis da Cunha

Tentáculos das trevas

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 11062017)

Publicada: 11.06.2017 às 07:30

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terraGilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

Howard Phillips Lovecraft, ou, simplesmente, HP Lovecraft (1890-1937) é considerado por muitos o autor mais influente do gênero de horror do século 20. Boa parte dessa fama surgiu do hábito de empregar elementos de fantasia e ficção científica, dando a seus textos, uma dimensão cósmica que autores anteriores nunca tinham experimentado. Em suas histórias, prevalece a noção de que a espécie humana é menos que um grão de pó nas areias do deserto cósmico e que nossa ignorância é uma benção que nos protege da real dimensão dos terrores ocultos nos abismos entre as estrelas.

Enquanto autores antigos escreviam sobre demônios ancestrais e espíritos que, em algum momento da existência foram humanos, Lovecraft se ocupava em criar uma complexa mitologia, onde os assim chamados grandes antigos eram seres vindos de muito longe, de estrelas cuja luz já se apagou e que, em relação à humanidade, variam da indiferença à hostilidade absoluta. Para Lovecraft, os astronautas não eram deuses. Eram demônios. O universo do autor constitui uma verdadeira cosmologia fictícia, tão complexa que mesmo seus fãs mais ardorosos frequentemente encontram interpretações contraditórias de seus escritos.

O conjunto de suas histórias foi posteriormente chamado de Cthulhu Mythos por August Derleth, em referência a seu personagem mais famoso o todo-poderoso senhor da escuridão Cthulhu. Descrito como algo vagamente humanoide, com cabeça de polvo e asas coriáceas como as de um morcego, Cthulhu seria uma entidade mais antiga que a raça humana e que estaria por despertar de um sono de milhões de anos, pronto para reclamar seu trono como senhor absoluto da Terra. Seu despertar marcaria uma era de caos, horror e loucura para a humanidade e os humanos pouco podem fazer a não ser presenciar os sinais de sua chegada, impotentes diante do imenso desconhecido.

De fato, para Lovecraft, o medo do desconhecido é a emoção mais profunda a habitar os corações humanos. Cthulhu, cujo nome seria impronunciável por um aparelho vocal humano, seria a encarnação máxima do mal, o fim de toda luz e esperança. O personagem surgiu pela primeira vez no conto O Chamado de Cthulhu, de 1926 e publicado em 1928, na revista Weird Tales. Ele ainda faria aparições em outras histórias de Lovecraft e influenciaria grandes nomes do horror, como Stephen King e Clive Barker.

Curiosamente, essa entidade do horror cósmico acabou virando um ícone da cultura pop nas últimas duas décadas. Podemos encontrar referências a Cthulhu em desenhos animados como South Park, em séries como Supernatural e, até, no universo DC, como um dos inimigos de Aquaman, o que tem uma certa lógica, considerando que ele é apresentado como um ser maligno das profundezas.

Cthulhu também é citado em um sem número de jogos, mangás, animes, e outras mídias. Nem Hello Kitty escapou de um estranho mashup: Hello Cthulhu, uma charge encontrada

em camisetas, canecas e outros colecionáveis ao redor do mundo, com uma versão “fofinha” do monstro. Sendo assim, era inevitável que a criatura viesse a aportar em terras brasileiras, em livros e HQs. Uma dessas obras mais recentes é Guerras Cthulhu, coletânea de contos organizada por Maurício R. B. Campos. O livro, publicado em ebook pela loja Kindle da Amazon, apresenta uma interpretação do universo de Lovecraft por autores brasileiros.

No primeiro conto da antologia, Marcelo Fernandes nos traz a angústia de um homem em busca de seu irmão desaparecido. Essa história percorre boa parte dos elementos do Mitos, onde uma trama surpreendente serve de verdadeira introdução aos novos leitores da obra de Lovecraft.

Thiago Lee, finalista do prêmio Brasil em Prosa, nos apresenta O Primeiro Arauto, uma história vista por vários prismas no espaço e no tempo, para que desvendemos alguns dos segredos daquele que recebeu a alcunha de "caos rastejante": o faraó negro Nyarlathotep.

Mauricio R B Campos, coautor de O Rei Amarelo em Quadrinhos, narra a história de um soldado, que, durante a ocupação francesa do Marrocos, acaba se envolvendo com forças desconhecidas e sobrenaturais.

Encerrando a obra, este que vos escreve resolve infernizar a vida de Cthulhu ao fazer com que o mal supremo precise enfrentar o equivalente cósmico das agruras que acometem qualquer mortal comum. Ou algo bem parecido. Sim estou me arriscando a ser perseguido por cultistas e sociedades nem tão secretas de fãs de Lovecraft. Mas o que é que eu podia fazer? Os três primeiros contos são uma fina demonstração de virtuosismo nos gêneros de horror e fantasia e, certamente, já valem o livro.

Nunca fui paralisado pela luz do sol. E, mesmo assim, há quem diga que eu tenho tendências de troll. Então, resolvi investir nessa abordagem. Como um demônio todo-poderoso se sentiria ao ser sistematicamente trolado por um sujeito grosso, mais grosso que dedo destroncado, e que, acima de tudo, adora ser grosso? vocês terão que ler o livro para descobrir. E não se esqueçam de visitar a página de Guerras Cthulhu no Facebook. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.

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