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Gilson Luis da Cunha

As voltas que a vida dá

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 11032018)
11/03/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terra

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

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Uma das falas que mais me marcaram na história do cinema pertence a um filme de ficção científica que nem é tão famoso assim, apesar de ter sido estrelado pelo astro James Caan. Trata-se de Alien Nation (ou Missão Alien, no título brasileiro). No filme, extraterrestres naufragam com sua nave na Terra e conseguem cidadania americana (tenham em mente que isso foi muito antes de Trump, Bush e companhia). Em certo ponto da história, um policial alienígena confessa ao colega humano seu espanto pelos humanos "serem incapazes de viver pelos ideais que eles mesmos elegeram". Isso foi no final dos anos 80.

Por algum tempo, não dei muita bola para essa linha de diálogo. "Retórica pura", pensei. Mas o tempo passou e não posso deixar de pensar que essa fala talvez tenha sido uma das mais inspiradas na história do cinema. Afinal, vivemos crises políticas, econômicas, ambientais e sociais, todas interligadas, de um modo ou de outro, por nossa incapacidade, como espécie, de fazer o que é certo.

Esse tema permeia uma série de obras da literatura e do cinema, mas confesso que há muito não o via tão visceralmente retratado quanto no filme Pequena Grande Vida (Downsizing), em cartaz nos cinemas. Na trama, Paul Safranek (Matt Damon), é um sujeito sem sorte. A longa doença da mãe esgotou seus recursos financeiros e impediu que ele realizasse seus sonhos. Os anos passam. Ele se casa, mas vive, com a esposa (Kristen Wiig), na mesma casa em que nasceu, e coberto de dívidas.

Enquanto isso, cientistas noruegueses descobrem aquela que pode ser a solução dos problemas ambientais da Terra. Eles conseguiram um meio de miniaturizar seres vivos, incluindo humanos. Com isso, esperam reduzir o consumo de matérias-primas e geração de resíduos. Os anos passam. A miniaturização se torna uma moda, mas não por causa dos benefícios ambientais. Em escala reduzida, as economias de gente comum acabam se convertendo em pequenas fortunas. Paul conhece pessoas que fizeram o processo e que, agora, vivem como reis, em comunidades de gente miniaturizada.

Ele convida a esposa se submeter ao processo junto com ele, certo de que seus problemas financeiros acabarão e que, de quebra, estarão ajudando a salvar o planeta. Ele vai na frente, crendo que a reencontrará em algumas horas. Só que, na hora "H", sua esposa fica com medo e resolve não se submeter ao encolhimento. Ele desperta sozinho num novo mundo, sem propósito, sem amigos e, após o divórcio, sem perspectivas.

A Lazerlândia é um protótipo do que deveria ser um paraíso dos hipsters. Todos estão com a vida ganha. Todos os veículos são elétricos. Não há muito o que fazer, a não ser viver para o lazer, como o nome do lugar sugere. Ele tenta um emprego como atendente de televendas, tenta até um relacionamento com uma mulher que parece uma versão piorada de sua ex. Nada disso funciona.

Até que um dia, irritado com o modo como é tratado pela "namorada" e com a falta de respeito de Dusan, seu vizinho babaca (Christoph Waltz) e suas festas barulhentas, resolve ir a uma dessas festas. Aconselhado pelo vizinho, ele resolve se soltar, o que significa, beber todas, além de experimentar uma série de "novas moléculas" que ele, em sua ingenuidade, jamais sonhou. Ao acordar, de cara no tapete da sala de seu novo "amigo", descobre que uma das moças da equipe de limpeza que está limpando o resultado da festa da noite passada é Ngoc Lan Tran (Hong Chau, maravilhosa) uma famosa dissidente vietnamita que fugiu de sua terra com outras 16 pessoas, escondidas numa caixa de TV.

No processo, ela teve uma das pernas amputadas e, agora, sofre com as dores causadas por uma prótese de má qualidade. Paul, como terapeuta ocupacional, se oferece para ajudá-la. E é aí que o filme, que poderia ser apenas uma comédia boba, se torna uma experiência comovente. Tran o levará para muito longe da utopia que ele imagina ser a Lazerlândia.

Bem além dos muros e da tela que protegem sua comunidade do mundo exterior, Paul dá de cara com uma visão dantesca: contêineres de carga se transformaram em cortiços do tamanho de arranha céus, onde os pobres encolhidos, a maioria imigrantes, como ela, vivem em condições subumanas, mas que, mesmo assim, ainda são melhores do que as que tinham em seus países. Paul fica desnorteado ao saber que o mundo perfeito que ele imaginava não é nada mais do que uma miniatura do mundo que ele deixou, com quase todas as suas mazelas. E paro por aqui, pois já falei demais.

Cientificamente, o filme não é lá essas coisas. Está mais para fantasia do que ficção científica. Mas, mais importante do que o como surge esse mundo, são suas regras. Como funciona a economia? Em certo momento, é dito que 150 mil dólares se transformam em 12 milhões de dólares em Lazerlândia. Então, de posse de tantas reservas, por que razão esse empreendimento não consegue gerar um fundo capaz aquecer a economia do lugar e gerar empregos que ajudassem os infelizes, muitos deles miniaturizados à força em seus países? Essas e outras perguntas surgem na mente da plateia. E nos fazem pensar sobre nosso próprio mundo. Como conseguimos chegar a um ponto na história no qual a própria compaixão parece estar desaparecendo? Como evitar que a indiferença com nosso mundo e com nós mesmos cause nossa extinção?

Não há respostas simples. Mas temos o dever de pensar nelas, se não por nós, por nossos descendentes. E é por isso que, mesmo sem ser uma obra-prima nem um megassucesso, Pequena Grande Vida é, até o momento, o filme mais legal que vi em 2018. Gosto é subjetivo. Muita gente vai odiar, outros vão amar, e muita gente vai esquecê-lo. Eu não serei um deles. E espero que você, que lê essas linhas, também não o esqueça. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


Jornal NH
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