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Gilson Luis da Cunha

A saga de um pão de forma

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 29072018)
29/07/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

www.gilsonluisdacunha.com.br

Na última quarta-feira, 25 de julho, comemorou-se o dia de São Cristóvão. E, também, o dia do escritor brasileiro, duas datas que, sem querer, acabaram tendo um significado especial para mim, por conta do livro que estou para publicar nos próximos meses. Não lembro de já ter comentado nessa coluna, mas meus primeiros contos foram publicados em 1987, numa antologia da Editora da Ufrgs dedicada a autores da comunidade universitária. Eu bem que gostaria de ter continuado, mas naquela época, o mercado editorial era bastante avesso ao tipo de literatura que pratico, a ficção científica.

As décadas passaram, mas não a vontade de escrever. Em 2012, desafiado por minha esposa, voltei a escrever. E não parei, desde então, tendo participado de algumas antologias e concursos literários. O ambiente editorial parecia ter mudado para melhor. O advento de uma cultura geek consolidada no Brasil abriu as portas para novos autores de ficção científica, horror e fantasia, com muitas editoras de nicho surgindo, a partir dos anos 2000. Ou assim parecia.

Lá por 2014, participei de um concurso cujo resultado nunca soube. O objetivo era selecionar um romance de ficção científica ou fantasia para publicação. Foi uma corrida contra o tempo. Fiquei sabendo da seleção com atraso, o que me deixava um prazo de mais ou menos nove meses para produzir uma história, do zero, e finalizá-la, em minhas horas vagas. Consegui cumprir o prazo, mas não fui selecionado.

No fim das contas, eu tinha um romance “finalizado” em mãos. Resolvi partir em busca de uma editora. Percebi que o mercado não havia mudado tanto. Ou havia, mas não do modo que eu pensava. Enquanto buscava uma casa para meu livro, publiquei contos em diferentes antologias. Imaginei que, tendo sido selecionado pelas mesmas editoras, esses contos poderiam servir como um tipo de portfólio ou cartão de visitas. Mais uma vez eu estava errado. Uma das editoras desapareceu, quase declarou falência, e voltou, tempos depois, sem nunca responder minhas solicitações. Outra, vivia afirmando que “no momento” ainda não tinha espaço para “novos autores” em trabalhos solo.

Resolvi continuar minha busca. Mandei o original para dúzias de editoras no Brasil. Uma delas prometia responder em até 90 dias. Passaram-se quatro meses, sem nenhuma resposta. Quando telefonei, me disseram que “não era bem o material que estavam procurando”. Fui pessoalmente pegar meu original. O lugar era gradeado como uma fortaleza e a porta se abria por uma fração de segundo, com os olhos apavorados da atendente esperando por algo entre um apocalipse zumbi, um assalto ou, simplesmente, credores mais impetuosos. Nada daquele “venha bater um papo conosco e tomar um cafezinho”, da publicidade no site da editora. Propaganda enganosa.

Continuei tentando. As melhores respostas que recebi (quando recebi) foram: achamos seu original interessante. Se você aceitar pagar 22 mil reais pela primeira edição, publicaremos seu trabalho em nosso selo de “novos autores”. Nem me dignei a responder. Outra, foi um pouco melhor: “Li sua história, e só posso dizer: UAU! Nosso orçamento para publicação é de 15 mil reais. Se você concordar, por favor...” Gostei do “UAU!” Foi muito bom para o ego. Mas foi só.

Continuei indo em livrarias e buscando novas editoras nas lombadas de lançamentos de ficção científica e fantasia nacionais. Pensei: “Em algum lugar lá fora tem que haver uma resposta”. Quase dava para ouvir a voz do Dr. Zaius, em Planeta dos Macacos, respondendo: “Não a procure, Taylor, você pode não gostar do que vai encontrar”. No meio dessa longa busca, conheci até um editor, uma dessas criaturas estranhas e elusivas, que lia meus textos nessa coluna com alguma assiduidade, mas que, inexplicavelmente, nunca respondia a meus envios de originais. Continuei tentando.

Lá pelo final de 2016, uma pequena editora de ebooks lançou uma chamada por originais de fantasia e ficção científica. Queriam que os autores mandassem “pitchs” da história. Mandei. E o pessoal da editora gostou. Pediram o original. As responsáveis leram e gostaram. Uma delas me mandou uma mensagem dizendo “queremos te oferecer contrato”. E nunca mais tocou no assunto. Pensei “não vou ficar em cima, enchendo a paciência delas”. Pois bem, cinco meses depois, ao perguntar o que aconteceu, a moça do “contrato” me disse que o meu livro era “longo demais para o formato eletrônico”. Claro que era papo furado. Levaram quase seis meses para descobrir isso? Sério? O assunto, na verdade, era outro.

Sim, o mercado editorial mudou, mas mudou de modos que eu jamais poderia imaginar. O mercado é feito de nichos e, sem que eu soubesse, em certos casos, o que menos importa é a qualidade de um original. É triste, mas verdadeiro. Decidi dar um tempo. Do contrário, teria que pagar pedágio, entrar para o trem da alegria, ou adotar alguma causa, como lutar contra a extinção das baleias tibetanas, por exemplo. Só para constar, o Tibete fica bem no interior da Ásia. Logo, não tem mar. E nem baleias. Não mesmo. Eu não sou o Sting. Nem o Bono. Estou fora. Não me peçam para escrever panfleto. Meu negócio é entretenimento. Quero divertir meus leitores, não os converter em soldados de alguma causa, por mais nobre que ela possa ser (ou não). O mundo já tem chatos demais pregando moral de cueca. Ele não precisa de mais um. Além disso, nunca bajulei ninguém, nem quando meu futuro dependia disso. E já estou velho demais para aprender a fazer isso. Voltei à estrada.

Tentei até uma “agência literária”, apenas para descobrir que ela era só mais uma extensão desse sistema. No início de 2018, decidi: “vou publicar por conta própria, pagando pela impressão em uma gráfica mesmo”. Então, algo estranho aconteceu. Amigos começaram a me avisar que o representante de uma editora portuguesa tinha meu original em mãos e queria entrar em contato comigo. Eu nunca havia mandado nada para o exterior. Fiquei com um pé atrás. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Falei com o tal agente literário. Ele me disse que o editor queria muito publicar meu livro, o mesmo que eu não tinha mandado, o mesmo que foi recusado nas vezes por n motivos diferentes.

Tenho amigos que tiveram péssimas experiências com editoras estrangeiras. Pensei com meus botões, “antes uma experiência negativa do que nenhuma experiência”. E mandei minha proposta de publicação. Curiosamente, ninguém na editora soube me explicar como meu original apareceu na mesa do editor, com meu nome, mas sem informações de contato. Tempos depois, vim a saber que houve um grande esforço da editora em me rastrear. Meus amigos juram de pé junto que não mandaram o original. Todo esse clima de mistério me deixou um pouco paranoico. Mas, no fim, minha proposta foi aceita, sem enrolação, sem problemas. Mais do que isso. O livro será publicado, ainda esse ano, tanto no Brasil, quanto em Portugal, pela editora Estremoz, que está se lançando no mercado brasileiro com meu romance, além de títulos de outros autores brasileiros, muitos dos quais, ironicamente, precisaram atravessar o atlântico (metaforicamente, ou não) para furar o bloqueio das polícias do pensamento e de suas sociedades secretas (ou nem tanto) e, finalmente, publicar suas criações.

No Brasil, o livro terá o título de Onde Kombi Alguma Jamais Esteve (Foto). Eis uma pequena sinopse: “E se o destino da raça humana dependesse de um octogenário moribundo, ranzinza e sem o ensino fundamental? A má notícia: Agora depende. A boa: Ele é um casca-grossa altamente motivado, dotado de uma tecnologia bilhões de anos mais avançada do que a humana, de muito tempo livre, e da mais absoluta falta do que fazer. Arrancado (contra sua vontade) das garras da morte e lançado num conflito de proporções cósmicas, esse velho 'mais grosso que dedo destroncado' e seu amigo, um jovem estudante de filosofia e da paranormalidade, terão que superar suas diferenças para vencer diabólicos adversários, que já eram antigos quando a própria Terra era jovem, antes que seja tarde demais...” Ok.

Mas o que é que tudo isso tem a ver com o título dessa crônica? Ocorre que o nome do livro em Portugal será Onde Pão de Forma Alguma Jamais Esteve. O “pão de forma” do título se refere ao nome como a popular van da Wolksvagen é conhecida em terras lusitanas. E a coincidência entre o dia de São Cristóvão e o dia do escritor? Bom, em minha humilde opinião, ser escritor no Brasil de hoje é uma tarefa inglória. O santo correto para os escritores devia ser São Judas Tadeu, padroeiro das causas perdidas e, como nos ensina Malone (Sean Connery) em Os Intocáveis, de Brian De Palma, também dos policiais.

Mas Alfredo, o protagonista de minha história, é um motorista aposentado, cujo santo de devoção é o bom São Cristóvão, padroeiro dos caminhoneiros, dos viajantes e, muito em breve, dos viajantes do tempo. Por uma coincidência cósmica, seu dia cai na mesma data do dia do escritor brasileiro. Então, São Judas, não leve a mal, mas o santo que acabou resolvendo a parada foi outro. A todos vocês que continuam na batalha por uma publicação, eis o e-mail da Estremoz Editora, que, no momento, está recebendo originais para avaliação: estremozeditorabrasil@gmail.com . Boa sorte! Dias 4 e 5 de agosto estarei na Comic Con RS, que se realiza todo ano na Ulbra Canoas. Se puderem, venham prestigiar o maior evento de cultura pop do Rio Grande do Sul. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


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