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Os desafios dos clubes pequenos para garantir o futuro


reportagem GUSTAVO HENEMANN

vídeos EDUARDO CRUZ

arte ALAN MACHADO

Nenhum outro país conhece tão bem os caminhos para a conquista de uma final de Copa do Mundo do que o Brasil. A seleção verde e amarelo participou de todos os Mundiais realizados até hoje, e se orgulha por ser a única pentacampeã: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. O título de “País do Futebol” não foi conquistado à toa. No entanto, fazer futebol no atual cenário nacional não vem sendo fácil. Se os tradicionais clubes do Série A do Campeonato Brasileiro já sustentam dívidas astronômicas, que ultrapassam os R$ 500 milhões, o que dizer das dificuldades enfrentadas pelos clubes de interior.

Nesta série de reportagens, temas como a crise econômica brasileira, a falta de planejamento, as dívidas trabalhistas e as perdas de patrimônio, já foram abordados junto aos dirigentes de equipes da região do Vale do Sinos e Paranhana. Porém, ainda é possível elencar outros desafios, como a falta de abnegados, a proximidade da região com Porto Alegre, onde residem Grêmio e Inter, e a manutenção das categorias de base. São tantos obstáculos, mas a pergunta que permanece é: por que os dirigentes do interior ainda insistem em manter o futebol ativo?

Categoria de base é fundamental

De acordo com a maioria dos dirigentes dos clubes do Vale do Sinos, o futuro do futebol do interior é a manutenção das categorias de base. Das equipes da região, o Novo Hamburgo é o clube que tem maior número de atletas na base, são 420 meninos, dos 5 aos 20 anos de idade, e que busca novamente possuir o selo de clube formador junto à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para o presidente interino, Raul Hartmann, o trabalho com as escolinhas é fundamental. “Temos várias conquistas que são importantes, e acho que para o futebol, principalmente o nosso do interior, a base é fundamental. Pena que a maioria não investe. Aqui estamos fazendo um trabalho para fortalecer isso, e a partir de janeiro com o departamento amador estando mais próximo da nossa administração”, destaca.

“O clube do interior que não tiver planejamento e categorias de base, não vai chegar. Só migrar jogadores para Gauchão e Série D (do Campeonato Brasileiro) custa muito caro. Tem que ser a mescla. Por que Grêmio e Inter sobrevivem, mesmo com aquele número de torcedores e a rendas excepcionais, e com dificuldade financeira? Eles conseguem se manter com venda de jogadores. O Arthur (ex-Grêmio) agora (negociado junto ao Barcelona por 30 milhões de euros), porque nós não podemos produzir um Arthur, Everton?”, questiona Maneca.

O Igrejinha também possuiu força na sua base, trabalhando atualmente com cerca de 240 atletas entre as categorias sub-11 e sub-17. No Sapucaiense, em torno de 70 jovens dos 6 aos 19 anos de idade. “Há mais de dez anos eu dizia, nós temos que ter categoria de base forte, porque isso é que vai dar retorno. Nós estamos preparando o sub-19 para o ano que vem, vamos chegar com o time montado já”, destacou o presidente do Sapucaiense, Lauri Bresolin.

TRANSMISSÃO PELA INTERNET

Em Igrejinha, o presidente do clube, Ademir Stein, destaca que a opção foi transmitir os jogos da equipe via internet. “Tenho tentado fazer o nosso torcedor se fazer mais presente. Optamos por transmitir jogos pela internet, e se mostrou um processo viável para o futuro, mas o torcedor na arquibancada não acompanhou a evolução do clube. A presença de público não paga o custo do futebol, e o torcedor está presente quando a equipe ganha. Só que no deparamos numa realidade que estamos chegando numa Divisão de Acesso, num orçamento de 20% dos outros clubes, como vamos ser competitivos? Dificilmente seremos competitivos na ponta”, complementa o dirigente.

CONTINUIDADE

Foto por: Divulgação/Divulgação/Divulgação
Descrição da foto: Armin Blos
Para Armin Blos, ex-vice de futebol do 15 de Novembro, a continuidade do trabalho com as categorias é o futuro do clube campo-bonense. “A categoria de base foi um recurso para a continuidade do nome 15 de Novembro no futebol. E esperamos que no futuro haja condições para voltar a fazer um belo futebol para a cidade”, destaca. “Atualmente a gente pensa em manter uma base, porque o 15 não pode morrer. Os meninos disputam torneios regionais e o sub-17 esta jogando a Série B do Gauchão da categoria. Estamos ensaiando um sub-19 para disputar o Gauchão com duas equipes (em 2019)”, completa o diretor Evandro da Silva, que não dá prazo para o retorno do 15 de Novembro ao futebol profissional. Atualmente, 145 meninos fazem parte da escolinha do clube e do time de competição. Em Sapiranga, o esporte ainda sobrevive no Estádio das Rosas com uma escolinha, a Futevale, que atualmente possui 120 meninos, das categorias sub-5 até sub-14.

DESATIVADA

Depois de fazer grande campanha no Estadual Sub-20 em 2017 e ficar com o vice-campeonato, o Aimoré não possui mais o trabalho com os jovens talentos do Cristo Rei, que chegaram a disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2018. “Hoje a base não existe mais. E era muito cara também. A base não se faz com pouco dinheiro. Porque vai jogar um Gaúcho, vai para Erechim, gasta R$ 8 a 10 mil numa viagem, mesmo com os guris. Tem que ser organizado”, explica o presidente Paulo Costa. Nos últimos anos, o clube leopoldense chegou a negociar o volante Mateus Norton, natural de Campo Bom, com o Fluminense. O jogador já figurou várias vezes no time titular do tricolor carioca.

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Os abnegados estão acabando


Raul Hartmann Rosalvo Johann Se não fosse a paixão pelo que se faz, o que no Rio Grande do Sul pode ser chamado de “cachaça”, com certeza o futebol do interior já teria morrido. Conforme o presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Francisco Novelletto Neto, alguns clubes reabriram nos últimos anos, mas a defasagem é bem maior. E isso se dá também pela falta de renovação de quem comanda. “Cada vez mais as pessoas (abnegados) estão se afastando. O futebol está em crise por isso também. É muita lei em cima de um presidente. Ele já é um abnegado, coloca dinheiro dele, e vem toda a responsabilidade. Ele está ali prestando um serviço à comunidade, à paixão clubística. Conheço presidentes que foram (Justiça) na poupança dos filhos dele, no patrimônio particular”, comenta Novelletto.

Sobre o fato de colocar dinheiro do próprio bolso para manter as contas em dia, o presidente do Noia, Rosalvo Johann, o Maneca, afirma que isso não deveria ser feito nos dias atuais, porém empresários como ele, que são de outros ramos, acabam por dar aporte às necessidades do clube. “Os dirigentes do interior, que tem a responsabilidade, um nome a zelar na cidade, não podem deixar o clube cair no chão. Os dirigentes acabam se expondo, eles cansam e às vezes acabam quebrando suas empresas. O próprio Novelletto nos diz: não seja um herói. Ele sabe das nossas dificuldades. Mas os dirigentes dos clubes do interior são heróis, é amor ao Novo Hamburgo que eu tenho. Mas quando esse amor se torna amargo, como fel, acaba se perdendo”, diz Maneca. “Botar dinheiro não é a solução para os clubes, porque quando for embora terá que arrumar outro para colocar. Se deixasse organizado seria mais fácil”, opina Paulo Costa, presidente do Aimoré.

CONSELHO EXECUTIVO

Nos anos de glórias do 15 de Novembro, de Campo Bom, o ex-vice-presidente de futebol Armin Blos recorda da criação de um conselho executivo que fazia a gestão do clube. “Tivemos muitos abnegados, sem citar nomes. Chegamos a ter um conselho executivo de futebol, eram cerca de 15 membros, e todos eles ajudavam financeiramente e foram cansando. A própria torcida, pela influência da dupla Gre-Nal, não prestigiava muito o 15 de Novembro. Até vinha para o estádio, fazia sua torcida. Cheguei a formar um grupo de torcedores, o Avante 15, para cada um contribuir com um pouco, mas depois a coisa morreu”, detalha Blos. O atual diretor de futebol do 15, Evandro da Silva, afirma que a dificuldade para conseguir adeptos para gerir o clube está cada vez maior. “É difícil alguém que faça sem querer ser remunerado”, conta.

Em Sapiranga, o ex-diretor de futebol da Associação, Eloi Santos, lembra que toda a família ajudava. “O Andrei (filho e ex-secretário da Associação), minha esposa e eu, nós cobrávamos os ingressos, íamos para a cozinha, fazíamos de tudo”, recorda. “Aquelas pessoas dedicadas ao clube estão terminando. Os jovens não estão mais pensando em assumir um clube como o Aimoré. O Novo Hamburgo também aqui do lado já tem dificuldades quando é para assumir um novo presidente”, acrescenta com razão o ex-presidente do Índio Capilé, Reni de Oliveira, o Gão, pois o Novo Hamburgo teve seis presidentes diferentes desde 2015: Claudemir Dias da Costa, Daniel Meinhardt, Luiz Stefanello Schaidt, Juarez Radaelli, Rosalvo Johann e Raul Hartmann (atual interino).

Proximidade da dupla Gre-Nal


Foto por: Gustavo Henemann/Gustavo Henemann/GES-Especial
Descrição da foto: Torcida anilada tomou conta da Estátua do Laçador após o título gaúcho de 2017
A proximidade da região com a capital dos gaúchos é um dos principais dificultadores para que os clubes da região coloquem público nos seus estádios e consigam ampliar o quadro de sócios ativos. As pessoas preferem uma associação a Grêmio e Inter, pois os atrativos em dias de jogos na Arena e Beira-Rio são maiores. “Só eu sei. Eu tive clube, o São José. A última cidade a se entregar foi Pelotas. Há dez anos você não via uma camisa de Inter e Grêmio desfilando. Se tu fosse de Pelotas seria xingado. Até lá isso está mudando. Se Pelotas foi a última a cair, imagina nós aqui na grande Porto Alegre. Nós sofremos muito mesmo”, destaca Novelletto. “Hoje a rivalidade é o que fomenta a história da dupla. Daqui saem caravanas para Arena e Beira-Rio, e a gente não consegue. Fizemos dois anos de Divisão de Acesso, e nenhuma delas a torcida se mobilizou para acompanhar”, afirma o presidente do Igrejinha, Ademir Stein.

“O pessoal puxa para mais Inter e Grêmio, porque tem futebol ano todo, competições de alto nível, mídia. Se tivéssemos isso, acho que o menino que está na escolinha torceria para o Novo Hamburgo e deixaria de torcedor para a dupla. É um futebol de qualidade, clube de massa. Por que o Noia não pode ser uma estrutura que nem Chapecó tem? É um exemplo, mas o clube tem que oferecer mais para conquistar esse torcedor”, afirma Raul Hartmann, presidente interino do Anilado.

Noia na Escola e comunidade envolvida em Igrejinha


Uma das novidades do Noia neste segundo semestre, já que o futebol profissional está inativo, foi a implementação do projeto Noia na Escola. A iniciativa, neste momento, recebe estudantes de escolas do Vale do Sinos no Estádio do Vale todas as quintas-feiras. Na visita à casa anilada, a garotada participa de um tour pelo estádio, conhece o Memorial Reinaldo Von Reisswitz, a taça do Gauchão 2017 e no gramado principal ainda batem bola com os jogadores que ainda possuem contrato, como o meia e capitão, Preto.

“Estamos fazendo essas pequenas ações, mas que podem ser grandes amanhã. Nessa ação, não estamos pensando em primeiro lugar no Novo Hamburgo, mas na comunidade, nas crianças que na maioria das vezes não tem o acesso”, comenta o presidente interino Raul Hartmann. De junho até o momento, o Noia já recebeu 11 escolas e mais de 530 alunos e professores.

Para o presidente do Igrejinha, Ademir Stein, um dos grandes movimentos que os dirigentes do interior precisam fazer é buscar novas alternativas de envolver a comunidade. “Esse é um a grande desafio, pois o produto futebol precisa voltar a se tornar interessante para a comunidade onde estamos inseridos. A base da motivação do nosso trabalho é deixar um legado para nossos filhos, uma história para a cidade", diz Stein. 

"A história bonita que o Igrejinha tem das décadas passadas, eu pessoalmente não queria que fosse perdida. Trabalhei nesses últimos anos para que no futuro próximo eu possa ser apenas um torcedor de arquibancada, e que o clube dê sequência. Mas hoje eu temo pela forma que o futebol está, de que não conseguiremos ser profissionais o suficiente. Talvez tenhamos que nos focar na categoria de base, que tem custo menor, ficar só não formação”, destaca.

Decisão sem apito final


Há uma certeza em meio a todas as adversidades já citadas nesta série de reportagens, as poucas pessoas que seguem lutando pelo futebol do interior, tem como objetivo o fortalecimento dos clubes. Reorganização interna, formação de atletas e uma busca incessante por alternativas que tornem o esporte mais popular do planeta viável para todos. Por consequência disso, a maioria dos dirigentes concorda que fazer futebol no interior do Estado realmente é como uma final de Copa do Mundo todos os dias.

“É um desafio muito grande, porque os clubes do interior estão à deriva, clubes tradicionais não aparecem mais. Cada a ano estão diminuindo em razão das dificuldades que são grandes na parte financeira. É uma final que gostaríamos que fosse dentro de campo, mas é fora também. É complicado, mas quem gosta do futebol, é uma paixão”, destaca o presidente do Aimoré, Paulo Costa.

HERÓIS

“Nós brasileiros não sabemos o que é uma final de Copa há muito tempo, mas é. É muito difícil, eu tiro o chapéu para esses caras. No fundo eu tenho pena deles, e por isso brigo pelos meus clubes. Só eu sei o quanto é difícil, os caras são heróis mesmo”, afirma o presidente da FGF, Francisco Novelletto Neto. “Conseguir manter um segundo semestre é sim como se fosse uma final de Copa do Mundo. É complicado ter que matar dez leões por dia, como vai contratar se não tem dinheiro para pagar? A maioria das vezes esse pessoal que está no clube tira do bolso. O interior é forte, pelo terceiro ano consecutivo que a final do Gauchão tem clubes do interior, Juventude, Novo Hamburgo e Brasil-Pel. O interior tem sido cada vez mais forte em cima de várias dificuldades”, completa o meia do Noia, Preto.

Após todos os depoimentos de quem faz acontecer o futebol do interior do Rio Grande do Sul, é possível dizer que os clubes menores disputam sim uma decisão de Copa do Mundo diariamente, mas uma partida que não tem apito final. E traduzindo isso para a vida de um simples trabalhador, é o mesmo que sair de casa cedo da manhã sem saber se vai voltar, e estar preparado para uma nova guerra no dia seguinte, pois as contas sempre chegam e todos têm um nome a honrar.

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