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Sétima das Artes

Crítica: Nós

Novo terror do mesmo criador do sucesso Corra! mantem a qualidade
21/03/2019 00:09 21/03/2019 00:24

Nós O novo filme do cineasta Jordan Peele, Nós, constantemente refere a um versículo da Bíblia, Jeremias 11:11, ainda que o seu conteúdo não seja recitado em nenhum momento da projeção por algum dos personagens. Ele diz: "portanto assim diz o Senhor: eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei".

Boa parte da vivacidade do filme de Peele (ou, no mínimo, da inteligência da sua proposta) está nessa citação. Não só pelo tom apocalíptico e sombrio da passagem, mas pelo próprio fato da sincronia dos números do capítulo e do versículo (dois números 11). O conceito básico está nos paralelismos, nas coincidências de alinhamento. É a história é de uma família que vai para o litoral passar as férias. A mãe, Addy (Lupita Nyong'o), teve uma experiência traumática no mesmo local quando criança nos anos 80 (o filme começa nessa cena). De súbito, a casa dela é atacada por cópias (im)perfeitas de si, do seu marido e de seus filhos. 

O horror, aqui, é de se encontrar seu duplo -- ou, como se diz no filme, a sua "sombra". Os melhores medos são irracionais, e os melhores filmes assustadores são aqueles que conseguem corporificar essa irracionalidade. Imagine encontrar a sua própria versão má e descobrir que ela está disposta a tomar o teu lugar. Chega a ser curioso o fato dessa ideia não ser usada mais frequentemente no cinema. 

Jordan Peele (que escreve, dirige e produz) tomou o mundo de assalto com Corra! em 2017, excelente terror que foi sucesso surpreendente de público, crítica e premiações. Corra! não só era um filme de gênero muito competente, mas era um poderoso veículo para o debate do racismo nos Estados Unidos (e no mundo, claro). A força do seu drama se baseava neste elemento social mundano. 

É esse respeito pelo drama que faz a diferença do trabalho de Peele para outros do estilo. Mesmo que Nós não seja brilhante como Corra!, ou que não aborde uma temática político-social com a mesma intensidade, ele é conduzido pelo mesmo cineasta com as mesmas ferramentas. O esforço principal da direção está na boa construção dos personagens e das suas interações. Assim, criamos simpatia pelo elenco inteiro, especialmente as crianças. O trabalho de atuação é ótimo, ainda mais se levarmos em conta que cada ator precisa dar vida a dois personagens, o seu "eu" e a sua versão dupla (que é totalmente diferente). 

O confronto é construído de maneira lenta e progressiva, numa estrutura de roteiro simples mas não clichê. Ao invés de cair nas convenções do gênero, Peele vai escalando a sua narrativa sempre um ou dois passos na frente do espectador. Não é bom falar muito para não estragar a experiência de quem assiste, porém. 

Falei acima que o roteiro não pega pesado na questão social como Corra!, mas certamente é possível fazer interpretações de seus significados. Tudo no filme pode ser simbólico -- não é à toa que a arma usada pelos duplos seja uma tesoura, como se quisessem cortar algum cordão umbilical com suas "versões originais". Há algumas implicações mais políticas, mas elas ficam num plano mais subjetivo, deixando o espectador entender como queira. 

Tal como Corra!, o humor é uma parte importante de Nós. É um humor por vezes negro, por vezes tolo, mas que sempre arranca alguma risada de nervoso. Às vezes, é para ser abertamente desconfortável -- como na cena que envolve o rap "Fuck Tha Police". Curiosidade: Peele começou na indústria como ator cômico. Sabe dosar muitíssimo bem o elemento satírico para expandir a experiência do público. 

Embalado em ótimo acabamento, Nós ainda conta com uma ótima trilha sonora, escrita por Michael Abels. O tema "Anthem", que aparece nos créditos iniciais, é sério candidato a clássico imediato. É um coro de crianças (aparentemente em latim) acompanhado por percussões étnicas, aos quais se seguem depois um coro adulto solene e uma seção de cordas. É uma música que remete clássicos das trilhas de terror dos anos 1970, tanto americanas quanto europeias (na minha mente ressoou ao mesmo tempo A Profecia e as trilhas da banda italiana Goblin, além do anime Akira). 

Talvez Nós só se perca no seu encerramento, com uma espécie de revelação que faz pouco sentido (e até cria furos grandes no roteiro). Será que Peele foi mordido pelo bichinho do picareta M. Night Shyamalan? Tomara que não. 


Jornal NH

Sétima das Artes

por Ulisses Costa
setimadasartes@ziptop.com.br

Ulisses da Motta Costa é cineasta, professor e crítico. Dirigiu os curtas O Gritador (2006), Ninho dos Pequenos (2009), Kassandra (2013) e Luz Natural (2014), além de documentários, clipes e programas para TV. Considera o cinema uma desculpa para grandes aventuras e já filmou nos locais e condições mais improváveis. Até fez mochilão para o Rio de Janeiro para ser assistente de direção no curta Os Olhos de Cecília. Ministra oficinas e palestras sobre cinema para alunos do Ensino Médio e orientou a realização de inúmeros trabalhos escolares em vídeo. Atualmente, está envolvido em projetos de longa-metragem como roteirista e como preparador de elenco. Escreve o Sétima das Artes desde 2007 e também para a Like Magazine.

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