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Gilson Luis da Cunha

O povo gosta é de sexo e violência (?)

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 10022019)
07/02/2019 15:51 11/02/2019 14:41

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

O século 21, decididamente, criou um novo tipo de roteirista: o "diferentão", frequentemente millenial, quase sempre hipster, eternamente esnobe, do alto de sua torre de jade (porque marfim é clichê), eles buscam, na destruição de obras clássicas o seu ganha-pão e, também, a fórmula para um enganoso sucesso. Exemplos não faltam. Uma das regras mais importantes desse grupo de autores é: quanto mais sombrio, melhor. Para alcançar seu público você tem que ser brutal e impiedoso. Mate o maior número de personagens possível, de preferência, de modo horrendo. Use sexo e violência, se possível, combinados. Isso dá um tom "adulto" à obra.

A ficção científica na TV, entre os anos 2000 e a década atual, vem tentando incorporar essas premissas. Animados pelo sucesso de Ronald Moore, com sua "reimaginação" de Battlestar Galactica, uma série de roteiristas, capitaneada por Alex Kurtzman, o showrunner de "Star Trek" Discovery, vem tentando "dar um tom mais adulto", ou "revitalizar" a franquia de Star Trek na TV. Começaram com o pé esquerdo na primeira temporada, com roteiros desconexos, ficção científica de qualidade duvidosa (O universo, na "cosmologia" de Discovery, é perpassado por um gigantesco "cogumelo", através do qual a nave viaja. Não é piada), personagens mal escritos, violência gore, canibalismo e, agora, bebês decapitados.

Pois é. Não bastasse o que fizeram com Spock, que, nesse prelúdio é um doente mental com tendências homicidas, uma série de Star Trek agora tem cenas como a da klingon L’Rell segurando a cabeça decapitada de seu filho, um bebê de poucas semanas. Não. Isso não é American Horror Story. Fica a pergunta: isso é mesmo necessário? É difícil citar o que está errado com essa série. Mais fácil dizer o que está certo, porque a lista deve ser bem curtinha. Discovery foi anunciada com pompa pela CBS e NETFLIX, como "um farol de esperança nos tempos sombrios em que vivemos".

A equipe criativa foi enfática. Antes que o primeiro episódio fosse ao ar, o elenco e a produção já se adiantavam em declarar que a série daria voz às minorias étnicas e sexuais. Seria um libelo pela inclusão e pela diversidade. Em teoria. Na prática, Discovery conseguiu ser sectária e segregacionista. Primeiro, ao propor que esse exótico universo onde a federação inicia "guerras preventivas", dispõe de tecnologias nada científicas, e onde é possível viajar no cogumelo (literalmente), não se trata de uma nova linha temporal, mas sim, da linha original, dez anos antes da série clássica começar.

Isso dividiu os fãs. Os mais jovens, que pouco ou nada conhecem de Star Trek, foram fisgados pelos efeitos especiais de ponta e, por que não, pelo sexo e violência tão em voga nos dias de hoje. Os mais velhos, em geral, a abandonaram, após décadas assistindo e comprando os produtos da franquia, mantendo-a viva, até que ela fosse mutilada sem piedade por advogados e roteiristas.

Em segundo lugar, os produtores de Discovery impõem a regra do "se você não está conosco, está contra nós. Se não gosta da série é porque não suporta ver o destaque que a série deu para as minorias". Será mesmo? Já tivemos um fabuloso protagonista negro, o capitão Benjamim Sisko (Avery Brooks), além de uma protagonista mulher, a capitão Katherine Janeway (Kate Mulgrew). Já houve relacionamentos inter-raciais, um romance lésbico (em Deep Space Nine), personagens trans e inter-sexuais (em A Nova Geração e Enterprise). Tudo isso, pelo menos vinte anos antes das pautas identitárias se tornarem popular entre os intelectuais.

Há uma regra entre os escritores de língua inglesa: "don’t tell, show!" Ou seja, não conte o que você quer que o leitor entenda. Mostre. Deixe que ele leia e tire suas conclusões. Deixe que ele julgue os personagens, o cenário, a trama. Não jogue tudo mastigadinho. Isso ofende a inteligência do leitor, além de deixar a história lenta e maçante. Ronald Moore teve sucesso com seu Battlestar Galactica porque estava reimaginando o conceito original de Galactica, Astronave de Combate, de Glenn Larson. Em nenhum momento ele afirmou que seu universo era o mesmo daquele de sua predecessora dos anos 70. Em nenhum momento ele abusou da paciência do público e se defendeu atrás de manifestos políticos. Com isso, ele ganhou liberdade para desenvolver seus conceitos. Melhor. Ele ainda bebeu da fonte original, fazendo os elementos místicos da série clássica se inserirem sutilmente na trama (os anjos, as profecias e, até, a história de um "enviado dos céus"). Bingo! Com personagens muito bem desenvolvidos e com um contexto que justificava as doses de sexo e violência empregadas, Moore conquistou o público.

Ouvi de um entusiasta de Discovery que elementos como o "Spock psicótico" e, agora, o bebê decapitado, acrescentam mais "tempero" à trama. A meu ver, tratam-se de tentativas patéticas de inserir emoção a um texto que já perdeu a razão de ser. Algo como virar toda uma garrafa de pimenta e um pote inteiro de sal numa sopa insossa, na esperança de que isso produza algum sabor. E o resultado é intragável. Mas mais do que isso, Discovery consegue ser o ápice do cinismo na atual safra de séries de ficção científica na TV. A série dispõe até de um programa de entrevistas no NETFLIX, After Trek, um verdadeiro festival de egocentrismo e autocongratulação, no qual atores e produtores, entre sorrisos afetados, falas bobinhas e tapinhas nas costas, discursam sobre como toda a equipe é legal e talentosa. A produção se orgulha em dizer que é pela inclusão e diversidade. No entanto, conseguiram, pela primeira vez na história da franquia, criar uma série que aliena o público infanto-juvenil.

Mesmo com certa dose de violência e muita sensualidade, a série clássica de Star Trek, teoricamente o mesmo universo de Discovery, podia ser vista por crianças e pré-adolescentes. Era um programa familiar. Assisti The Savage Curtain, meu primeiro episódio da série clássica, com seis anos de idade. Um amigo certa vez me disse: "Gosto de Star Wars. Mas tenho um carinho especial por Star Trek, pois, na minha infância, eu assistia a série clássica junto com meu pai".

Do mesmo modo, com o advento do NETFLIX, pude rever toda a série clássica, A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager com minha esposa e minha filha. Foram pouquíssimos os episódios que não pudemos assistir juntos. Isso seria impossível de fazer com Discovery, ainda mais agora, na era dos bebês decapitados. Não adianta invocar pluralidade e alienar parte de seu público. Isso, definitivamente, não é Star Trek. Boatos dão conta que a produção tem passado por maus momentos, que incluem diversas refilmagens de episódios, demissão sumária de pessoal, e brigas no set. Com alguma sorte, isso pode significar o fim dessa abominação. Até lá, vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.


Jornal NH
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