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Crônica

Morrendo e aprendendo

Semana está cheia de gente pedindo sangue nas redes sociais. A escalada de ódio na Internet é muito mais complexa do que parece
11/03/2019 17:59 11/03/2019 18:01

Um trio de réus acusado de um crime bárbaro. Uma atriz de novela envolvida por fofocas. O presidente da República. Um ex-presidente da República. Um ator que não gosta do presidente da República e decidiu fazer piada. A prefeita da cidade, após uma chuvarada. Os últimos três ex-prefeitos da cidade, após a mesma chuvarada. Você pode pensar que estas pessoas todas não têm absolutamente coisa alguma em comum. Com razão, já que não compartilham unanimemente nem sequer geografia – para não dizer áreas de atuação, valores, iniquidade, ou o que quer que se decida adotar como critério.

Entretanto, todos estes coincidem em algo. Em dados momentos das últimas semanas eles foram execrados na Internet. Se dependesse de certas opiniões expressas nos fóruns on-line, alguns inclusive seriam executados sumariamente. Mais que isso. Sofreriam aquela punição que nos tempos da Roma Antiga constava como a única sentença pior do que a morte. O suplício. Execução com tortura. Seriam pregados em estacas e cozidos em fogo lento, espetados, esquartejados, esconjurados. E mais inapelável do que a sentença de um imperador ou de um ditador, trata-se de um ditame da opinião pública. A voz do povo é a voz de – você sabe de quem é a voz.

Não importa quão atroz seja o crime do qual o sujeito é acusado, mais feroz é o pronunciamento dos comentários à notícia. Mas também não importa a transgressão, só a polêmica. Abusou dos inocentes? Roubou velhinhas? Defendeu gays? Votou em generais? Beijou o Neymar Jr.? Passou as férias em Fernando de Noronha? O Inferno não conhece fúria como a de um usuário do Facebook indignado.

Muita gente se pergunta por que tanto ódio caracteriza as redes sociais e as interações da Internet em geral. Haters, “odiadores”, é o termo corrente para identificar aqueles que vertem ira pelos fóruns e assemelhados. Para eles, não existe argumento em contrário, não existem direitos humanos, relativização, clemência ou piedade. Como dizia a música de David Bowie, “a judgement made can never bend”, um julgamento feito nunca pode amolecer.

É tese comum dizer que falta civilidade ou cultura no ciberespaço, que o anonimato dos nicks e dos avatares facilita que se percam no mundo virtual as amarras do bom senso, do respeito e da educação mais básica. Mas é um clichê, uma simplificação digna de orelha de livro de autoajuda. A violência on-line é muito mais complexa do que possa parecer. Suas origens não residem exclusivamente em pirralhos mal-educados com smartphones ou quarentões frustrados escondidos em porões. Cabe refletir que essa agressividade toda pode ser apenas o mais inconveniente efeito colateral da tão decantada ubiquidade da informação – termo chique para dizer que está todo mundo conectado o tempo todo.

Há uma coisa chamada comunicação mediada, que basicamente está presente em qualquer coisa que a gente leia, enxergue, escute ou assista – ou seja, praticamente tudo o que a gente faz hoje em dia. É mediada toda a experiência, por assim dizer, requentada. A notícia que alguém viu e relatou no jornal que você leu. O comentário de alguém que viu um filme e resenhou. A opinião de alguém que analisou ou interpretou algum fato cotidiano. É um compartilhamento. Atualmente, graças às novas tecnologias, tem muito mais gente fazendo isso do que em outras épocas, e esta é uma coisa positiva.

Há, porém, um perigo em toda experiência mediada. Todo relato tende a esmaecer a realidade, pelo simples fato de que ele não é a experiência em primeira mão. A palavra “cão” não morde, então quando eu disser que fui mordido por um cão, meu relato não transmite a dor e o risco de tétano da dentada que eu levei. A melhor descrição de uma torta não traz, verdadeiramente, o sabor dela. Por isso, o risco está em tentar compensar essa deficiência da comunicação mediada exagerando. Para tentar causar no ouvinte um impacto semelhante ao que eu senti e que desejo compartilhar, posso dizer que a dor da mordida do cachorro foi excruciante, a pior experiência de minha vida, e que fiquei às portas da morte. Posso dizer que a torta é imperdível, divina, maravilhosa, uma obra de arte. Quem conta um conto aumenta um ponto.

Esta tentação do excesso está de alguma forma em toda mediação. Uma foto com filtro vai deixar o céu mais azul do que estava no dia em que fui passear. Um filme vai recriar espetacularmente uma cena de ação, mesmo que baseada em fatos reais. Um texto vai envolver o leitor e fazê-lo pensar que um argumento é mais importante do que parece (ahá, também este aqui). Por isso os filmes pornôs são tão acrobáticos, porque precisam compensar a ausência da experiência real aumentando a intensidade da experiência de quem assiste.

Profissionais da Comunicação, em geral, estão atentos para este efeito e procuram ser responsáveis no uso da compensação. Mesmo assim, não se acerta sempre, e o sensacionalismo está aí para prová-lo. As novas ferramentas de publicação, entretanto, facilitaram em escala tal o acesso à informação que muita gente que não tinha ideia das consequências e implicações da comunicação mediada agora se vê às voltas com a tentação. O barulho do qual nos queixamos na Internet provém das sereias do exagero levando os internautas aos rochedos.

Daí que nossa esfera informativa acabou inundada por gente clamando por pena de morte para qualquer crime, fazendo julgamentos morais peremptórios para qualquer celebridade que tenha flertado com quem quer que seja, chamando de imbecil e incompetente qualquer profissional que tenha errado qualquer coisa. Neste ambiente irrefletido e reducionista, a discordância é exagerada em ódio, e a diferença só se expressa através da intolerância.

Nós, os veteranos, em geral temos medo disso tudo. Porém, o irônico é que mesmo os especialistas em comunicação acabam, por sua vez, incorrendo também na tendência de exagerar esse próprio perigo. Certamente é preciso estar atento para mitigar e combater os riscos da escalada de ódio nas redes, mas ainda vale ser otimista. Toda interação é um aprendizado, e possivelmente as novas gerações, educadas em um ambiente de informação profusa, aprendam a lidar com ela de forma mais responsável do que estamos coletivamente fazendo agora. Estamos vendo a selva, mas há muita vida no jângal. O que não nos mata nos deixa mais estranhos, dizia Trevor Goodchild. Entenda “estranho” por alteridade, pluralismo, e aí ficaremos bem.

Não procure livros com a citação, Trevor Goodchild não é um filósofo de autoajuda. Ele era o vilão nos desenhos de Aeon Flux, a inovadora e surrealista animação da MTV na qual a heroína morria em quase todos os episódios e depois reaparecia no início de cada nova aventura. Os roteiros eram sensacionais e dava para curtir até o sujeito malvado. Estamos na mesma situação – torcendo pela mocinha e tentando aprender o que pudermos com o vilão. Talvez funcione também para nós e o futuro seja melhor ou, ao menos, mais divertido.

Só resta saber quantas vezes vamos ter que morrer antes disso.


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