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Gilson Luis da Cunha

O Pai de Todos

31/05/2019 13:28

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

(DATA ESTELAR 0206201)

O que James Cameron, Robert DeNiro, Ron Howard, Peter Bogdanovich, John Landis, Francis Ford Coppolla e mais um caminhão de gente em Hollywood têm em comum? Todos, de um modo ou de outro, foram revelados por um homem. Se em Asgard, Odin é o chamado All Father, ou, o Pai de Todos, em Hollywood ninguém faz mais jus a esse nome do que Roger William Corman. Um ícone entre os cineastas independentes do cinema norte-americano, Corman conseguiu o que parecia impossível: além de angariar uma legião de fãs, entre os quais, este que vos escreve, conseguiu trabalhar com alguns dos maiores astros de sua época, além de ter sido o primeiro a dar uma oportunidade a lendas, no tempo em que elas ainda não eram lendas, como um rapaz chamado Jack Nicholson. Famoso como o "rei dos filmes B" nos anos 50 e 60 e 70, Corman começou sua carreira nos anos 50, produzindo filmes de horror e ficção científica de baixo orçamento, na mesma safra que gerou Edward Wood Jr, o famoso Ed Wood.

Contudo, diferente do folclórico diretor de Plano 9 do Espaço Sideral, Corman conseguiria, gradativamente ganhar crédito com empresas produtoras e distribuidoras como a American International, o que lhe permitiu trabalhar com astros do calibre de Boris Karloff, o monstro de Frankenstein clássico da Universal, e Vincent Price (o eterno Dr. Phibes), com o qual teria uma produtiva colaboração, em filmes como A Orgia da Morte e O Solar Maldito, entre outros. Dono de um espírito criativo e corajoso, Corman não titubeou ao pegar um dos poemas mais sombrios e melancólicos de todos os tempos e transformá-lo em uma escrachada comédia de horror que, mesmo não tendo praticamente a ver com a obra literária, é uma das maiores homenagens já feitas a ela: nascia O Corvo (The Raven, 1963). Livremente (põe livre nisso!) inspirada na obra de Edgar Alan Poe, essa deliciosa comédia fantástica sobre a rivalidade entre dois magos, vividos por Vincent Price e Boris Karloff, apresenta ainda Peter Lorre e um jovem Jack Nicholson, em início de carreira. Corman é uma máquina de fazer cinema, com uma carreira de seis décadas, trabalhando em mais de 400 filmes como diretor, produtor, roteirista e ator. Com tanta experiência na indústria do cinema, era inevitável que ele lançasse o livro How I made a Hundred Movies In Hollywood And Never Lost a Dime, (Numa tradução livre, Como Eu Fiz Uma Centena de Filmes em Hollywood e Nunca Perdi Um Tostão).

A bem da verdade, essa história não é verdadeira. Ao que parece, ele perdeu, sim, com um filme que, se fosse lançado alguns anos mais tarde, ou se tivesse sido assinado por algum diretor francês de cachimbo e gola rolê, teria sido um grande sucesso: O Intruso (The Intruder, 1962) filme estrelado por William Shatner (O capitão Kirk da série clássica de Jornada Nas Estrelas), onde ele faz um fanático racista que chega a uma pequena cidade sulista dos EUA, incitando a comunidade branca à violência contra a minoria negra. O filme carrega no realismo, tendo usado moradores de uma cidade real como extras. A obra, realizada num dos mais conturbado períodos da história americana, foi um fracasso comercial.

Roger Corman é um realizador que ao mesmo tempo em que priorizou gêneros de bastante apelo comercial destinados ao público jovem – ele foi um dos primeiros a descobrir o enorme potencial da juventude americana como público pagante nas bilheterias de cinemas e drive-ins e também constantemente não deixou de lado temas polêmicos – e até "filmes cabeça" como subtexto em seus produtos: a escalada da sede de sangue dos aficionados por TV em Corrida Da Morte Ano 2000 (1975) e sua recente refilmagem; a atração dos adolescentes por velocidade em Eat My Dust (1976); violência perpetrada por gangsters durante a época da Lei Seca em O Massacre De Chicago (1967); a revolta estudantil perante a caretice do sistema escolar americano em Rock & Roll High School (1979); O faroeste feminista em A Lei Dos Brutos (1956); o assassinato de Kennedy em Na Mira Da Morte (1968); políticos envolvidos em escândalos no suspense erótico Obsessão Nua (1990), este último dirigido pelo talentoso Dan Golden, entre outras produções.

Mantendo sempre os custos bem abaixo dos concorrentes nos grandes estúdios e empregando atores com grandes chances de estourarem no futuro e/ou veteranos começando a decair na popularidade, além de pesquisando por talentos técnicos recém-saídos de universidades, Corman revolucionou a sétima arte, mesmo que a intenção inicial desse engenheiro de formação fosse, a princípio, apenas conseguir a independência financeira.

Na semana que passou, Corman esteve em Porto Alegre, participando de um festival de cinema, no qual deu cursos para jovens cineastas e fez sessões comentadas de seus filmes. Um dos filmes exibidos foi Viagem ao Mundo da Alucinação (The Trip, 1967), estrelado por um jovem Peter Fonda como Paul Groves, um diretor de comerciais em crise existencial que, após a separação da esposa adúltera (Susan Strasberg) mergulha nas drogas e no sexo através de uma psicodélica (e hilária) viagem de autodescoberta, "guiado" por um guru (Bruce Dern) e outro malucaço (Dennis Hopper, futuramente seu colega em Easy Rider, Sem Destino). A cena em que Paul invade uma lavanderia de autoatendimento e começa a ter revelações místicas olhando para as máquinas de lavar é impagável. Aliás, as caras e bocas do protagonista, aliadas à estética de videoclipe (décadas antes da MTV!) e ao colorido delirante do filme são dignas da viagem do astronauta David Bowman ao final de 2001 Uma Odisseia No Espaço.

Na sessão comentada desse filme, na Cinemateca Capitólio, na última quinta feira, Corman relembrou os bastidores desse filme, revelando, entre outras coisas, que Jack Nicholson queria o papel que foi dado a Bruce Dern (pai de Laura Dern, mas a American International insistiu em Dern, que na época era considerado um astro, status que Nicholson só alcançaria com Um Estranho No Ninho). Outra revelação feita por ele é que, no cronograma do filme estavam previstas sessões de uso de LSD, pois, nas palavras dele, "jamais poderia fazer um filme sobre algo que nunca conheci". Aproveitando a oportunidade, fui até lá e, após a sessão, tirei uma foto com a lenda, que, de quebra, autografou meu Box da coleção Clássicos Sci-Fi, com o DVD de O Homem dos Olhos de Raios-X, dirigido por ele e estrelado por Ray Milland (foto ao lado). Você pode conferir o bate-papo com o diretor sobre o filme Viagem Ao Mundo da Alucinação em meu canal do youtube, Café Neutrino, com o título de Uma Conversa com Roger Corman. Deixe seu like e se inscreva no canal. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.

Agradecimento:

A crônica de hoje contou com a colaboração de Marco Antônio Santos Freitas, roteirista com passagem pela UCLA, pesquisador de cinema e cinéfilo old school.

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