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Cris Manfro

Convicções equivocadas

05/06/2019 21:00

Cris Manfro NOVO Cris Manfro é psicóloga clínica, terapeuta de família e casal e mediadora familiar
acmanfro@terra.com.br

Cada membro de um casal que está em crise tem claro um pensamento: não abrirá mão das próprias convicções. Mas não percebe que estas podem estar erradas. Na crise, cada um monta teorias a respeito do outro. Na verdade, sobre o quanto o outro é responsável pelas coisas não estarem andando bem e como as dificuldades do outro prejudicam a relação.

A medida que cada um vai montando a sua teoria, vai ficando mais rígidos em seus posicionamentos, não dando espaço para outros tipos de interpretação para os problemas. Cada um já espera que o outro seja inadequado e que reaja de maneira negativa. A memória fica seletiva, lembrando de tudo de ruim, como se somente coisas negativas existissem na relação ou na pessoa do outro. Coitado do cérebro! Ele tenta ajudar, mas essa coisa dele próprio resumir, agrupar e jogar tudo na mesma pasta de arquivo dá muita confusão. Dificilmente o casal percebe que tem um fluxo automático de emoções e funcionamento regendo o relacionamento.

Muitos casais ficam como um cachorro que corre atrás do próprio rabo. Um critica, o outro se defende e critica, e assim vai. Nesse formato nada se resolve, a raiva cresce e os desacordos aumentam com cada um se agarrando mais as próprias convicções e verdades. Tem vezes que esse funcionamento fica tão crônico, que o casal nem percebe mais o que cada um sente, tão pouco o que se passa de verdade consigo mesmo e com o outro. O casal só "esquenta" na briga, fora disso a relação é fria e distante.

Quando algum casal me questiona se a terapia pode dar resultado, logo pergunto o que eu estaria fazendo ali há 31 anos? Eu sei a força que tem poder rever as próprias convicções, trabalhar a flexibilidade, investir em novas negociações e o principal, que é trabalhar um entendimento real do que cada um sente e como é possível fazer para que haja novamente uma aproximação afetiva, de apego bom e de segurança. Eu não investiria a minha vida em restaurar relacionamentos e restaurar amores se não acreditasse e não tivesse evidências de milagres feitos com amor, decisão de melhorar, boa vontade, muito trabalho pela relação e mudanças de paradigmas.

Quando revemos as nossas convicções, abrimos mão da crítica, da queixa e partimos, para a aceitação do outro. É neste momento, de forma contraditória, que acontecem mudanças para melhor. Cria-se uma grande intimidade quando se aprende a olhar o conflito como uma grande oportunidade para aprender. Abrindo mão de culpar para buscar entender e ao invés de criticar as emoções, aproveitá-las para compreender a si mesmo e ao outro. É duro admitir, mas muito das suas convicções podem estar totalmente equivocadas.

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