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Opinião Gilson Luis da Cunha

Anjos e Demônios

Última atualização: 10.06.2019 às 15:15

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

(DATA ESTELAR 09062019)

Eles são dois tipos muito diferentes. Um é um anjo com jeito de dândi almofadinha (pleonasmo é pouco), aficionado por livros raros e bons restaurantes. O outro é um demônio sem-vergonha com pinta de roqueiro e que, no fundo, quer apenas continuar na Terra, que, afinal de contas é o único lugar do universo onde pode ouvir Queen, Velvet Underground, e apreciar um bom cabernet. Mas para essa dupla de bon-vivants, que se conheceu no dia em que Adão e Eva foram expulsos do paraíso, seus dias de boa vida estão contados. O apocalipse se aproxima. A mamata vai acabar. E agora Serafim? Ok. Esse trocadilho foi realmente horrível. Mas cai como uma luva no espírito de Good Omens, minissérie da BBC inspirada no romance de mesmo nome escrito por Neil Gaiman (Deuses Americanos) e Terry Pratchett (da série de romances Disc World).

A série conta as tresloucadas aventuras (e desventuras) do anjo Aziraphale (Michael Sheen, de A Rainha) e do demônio Crowley (David Tennant, o décimo Doctor, de Doctor Who) ao longo de seis milênios de amizade na Terra, enquanto "esperam pelo juízo final". Isolados de seus pares por causa de suas missões em nosso mundo, eles acabam se tornando relutantemente próximos e, finalmente, amigos. Mas agora eles correm contra o relógio: o apocalipse está para chegar, legiões de anjos e demônios se preparam para varrer a Terra, no momento em que o anticristo declarar iniciado o conflito.

Só que seis milênios servindo na Terra os mudaram para sempre. Nenhum deles deseja perder as benesses da civilização humana. E, por isso, farão o impossível para evitar que as profecias sejam cumpridas. Essa em linhas gerais é a história do livro e da minissérie, que dá margem a muitas interpretações: Crowley e Aziraphale podem ser vistos como funcionários públicos relapsos que não desejam perder seus privilégios e, de certa forma, isso é verdade. Eles falsificam relatórios tanto para o pessoal lá de cima quanto para o pessoal lá de baixo. Mas nada fazem de verdade, já que chegaram à conclusão de que não há sentido em fazer um trabalho que será desfeito pelo outro, logo em seguida. Também podem ser vistos como embaixadores que gostaram tanto da pátria adotiva, a Terra, que resolveram desertar.

O fato é que ambos estão em mais sintonia com a humanidade do que seus pares do céu e do inferno. Como livreiro, Aziraphale busca avidamente os livros mais raros. Não porque realmente queira vendê-los, mas pelo prazer de possuí-los. Crowley, por outro lado, celebra os prazeres humanos do Álcool, do Rock, e da velocidade, sob a forma de seu reluzente Bentley 1926, que dispara pelas ruas de Londres milagrosamente (só desse jeito) sem causar vítimas. De certo modo, ambos encarnam o zeitgeist, o espírito da época (no caso, de todas as épocas). Eles conhecem as virtudes e vícios humanos muito mais que qualquer anjo ou demônio.

Cenas como a visita do Arcanjo Gabriel (John Ham, de Mad Men) à livraria de Aziraphale, ou como a conversa entre Crowley e Hastur (Ned Denehy) provam isso. Na primeira, Gabriel se acha extraordinariamente esperto, mas consegue se provar um cretino, ao tentar se fazer passar por um cliente qualquer da livraria. Na segunda, Hastur não consegue entender como a recente façanha de Crowley, deixar toda a Londres sem telefonia celular por algumas horas e trazer à tona o pior das pessoas, pode ser mais importante do que possuir a alma de um vigário.

A série também conta com uma deliciosa galeria de coadjuvantes humanos, como a jovem bruxa Anathema (Adria Arjona) descendente de uma longa linhagem iniciada pela divertida Agnes Nutter (Josie Lawrence, impagável), como a única profetisa que realmente conseguiu prever o futuro de verdade, a ponto de escrever, com quase trezentos anos de antecedência: "Não comprarás Betamax". Diferente do clima de Deuses Americanos, série baseada no livro de Neil Gaiman, o que se sobressai em Good Omens é, sem dúvida o humor tipicamente inglês de Terry Pratchett. Fãs de Douglas Adams ou do grupo Monthy Python também vão se deliciar com as delirantes e engraçadas elucubrações cosmológicas sobre a origem do universo, a idade da Terra e o papel da humanidade no cosmo, que mais parecem verbetes de O Guia do Mochileiro das Galáxias, feitas por Deus (Frances McDormand), que dá voz àquelas insanas, porém simpáticas, divagações que Pratchett amava tanto em seus livros.

O livro Good Omens já foi lançado no Brasil, com o título de Belas Maldições, o que não deixa de ser engraçado, já que seu título, em tradução livre, seria "Bons Presságios" ou "Bons Augúrios", numa referência ao subtítulo do livro, "As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa", profecias que conduzem o clima de farsa burlesca da história até um final surpreendente. Além do elenco e dos ótimos efeitos especiais, o tema musical composto por David Arnold é outra mérito da produção, que além da debochada valsa da abertura, conta com estilosas canções do Queen em momentos chave da trama. Good Omens é exibida no Brasil através do Prime Video, o serviço de streaming da Amazon. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.

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