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Gilson Luis da Cunha

A guerra de um homem

28/06/2019 13:29

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

(DATA ESTELAR 30062019)

 

Ao longo de seus mais de cinquenta anos de história, Jornada Nas Estrelas, ou, para os mais jovens, Star Trek, teve seus altos e baixos, alternando momentos difíceis, como o cancelamento da série clássica, com grandiosos, como sua ida para o cinema. Vieram as séries derivadas, como A Nova Geração, Deep Space 9, Voyager, e a não tão bem sucedida ENTERPRISE. Houve verdadeiros momentos de vergonha alheia, como a sequência da queda de Kirk escalando o El Capitan, em Jornada Nas Estrelas V, a fronteira final. Mas, até então, o máximo que nós, fãs, podíamos dizer da franquia é que "os roteiristas foram preguiçosos e a produção foi meia-boca", nesse ou naquele filme/episódio.

Infelizmente, o maravilhoso universo que começou a ser criado por Gene Roddenberry, ainda nos anos 60, foi maculado indelevelmente, de uma vez só, não apenas por decisões criativas absurdas, mas, também, por extrema desonestidade. Com o sucesso do primeiro filme do reboot de JJ Abrams e o razoável desempenho do segundo filme, esse diretor/produtor e seus associados, ganharam status de "milagreiros", e, junto com ele, uma confiança por demais exagerada, da parte dos estúdios de cinema e TV dos EUA. JJ, que sempre disse nunca ter sido fã de Trek, foi cuidar de Star Wars na Disney. Mas deixou seus paus-mandados em posições estratégicas na Paramount, através da Bad Robot (ou Bad Reboot?), sua produtora. E foi assim que um deles, Alex Kurtzman, assumiu a acidentada produção de "Star Trek" Discovery para a CBS, série distribuída mundialmente pela NETFLIX.

A série, desde o primeiro episódio, dividiu os fãs. A despeito de sua aposta na diversidade e na inclusão, com o protagonismo da trama dado a uma mulher negra, presença um casal gay com participação importante na trama, presença esporádica de pessoas com necessidade especiais, etc, a série, conseguiu meter os pés pelas mãos, mexendo em quase tudo que era considerado cânone pelas séries anteriores, exagerando na violência gore (torturas sexuais e canibalismo na primeira temporada, decapitação de um bebê na segunda), entre outras medidas altamente impopulares. Em termos de ficção científica, a série é, basicamente, um desastre, tendendo mais para a fantasia pura e apelando para doses pesadas de ex-machina, soluções tão imbecis que chegam a ser ofensivas para a inteligência do público que sabe a diferença entre ficção científica e, digamos, fantasia folclórica.

Mas o desastre não para por aí. Agora, graças à produção de Star Trek Discovery, uma mácula terrível se junta ao desprezo dos produtores para com o público: o plágio a olhos vistos. Havia uma grande pressão pela estreia de Star Trek Discovery, estreia essa que chegou a ser adiada, pelo menos, duas vezes ao longo de 2016/2017. A equipe "criativa" não tinha experiência com o universo de Star Trek. Com a corda no pescoço e habilidade faltando, o jeito foi "improvisar" e o resultado foi a utilização descarada da trama e dos personagens de TARDIGRADES, um vídeo game não lançado, criado pelo egípcio Anas Abdin. Segundo Abdin, ele postou seu jogo no portal gamer Steam Greenlight, em 2014. Discovery estreou em 2017. Após inúmeras tentativas de contato amigável do desenvolvedor de games, todas elas terminando em longos chás de cadeira e reuniões inúteis, em agosto de 2018 Abdin postou suas alegações em seu blog pessoal, começando uma batalha judicial que só prossegue graças ao exército de advogados da rede CBS.

Tardigrades é um jogo de aventura "point-and-click" sobre uma civilização que existia há 20.000 anos e descobriu que, através do uso de tardígrados gigantes, eles poderiam viajar instantaneamente a qualquer lugar do universo. Star Trek: Discovery é a mais recente série do universo de Star Trek. Passada no período entre Star Trek: Enterprise e a série original, ela explora a história de uma nave de ponta chamada Discovery, que é capaz de viajar para qualquer lugar do universo instantaneamente através do uso de seu Spore Drive. Ocorre que, ao longo de vários episódios na primeira temporada, a Discovery operou seu Spore Drive com o auxílio de um tardígrado azul gigante chamado "Ripper", que tinha uma relação simbiótica com os esporos e uma conexão com a rede micelial que a nave usa. Quando foi descoberto que usá-lo na unidade de esporos estava causando danos, a tripulação deixou Ripper ir e um membro da equipe assumiu essa tarefa.

Segundo Abdin, as semelhanças entre jogo e série são grandes demais para serem ignoradas. O uso de tardígrados azuis gigantes para se teletransportar para qualquer parte do universo é uma semelhança impressionante. Além disso, Abdin afirma que muitos dos personagens de Star Trek: Discovery são semelhantes em comportamento e aparência aos de seu jogo, incluindo um casal gay inter-racial, além de duas personagens femininas (foto). Junte isso a alguns visuais semelhantes, como o interior do Spore Drive versus o interior do buraco de minhoca em Tardigrades e Abdin acha que há o suficiente para entrar com uma ação judicial.

Abdin vem trabalhando neste jogo há anos e seus fãs vêm acompanhando seu trabalho há muito tempo. Sejamos honestos. Qual seria a chance desses elementos terem sido incorporados à trama de Discovery por mera coincidência? Tardígrados não parecem os organismos mais populares do universo. Junte-se a isso o seu uso como "navegadores" espaciais, sem mencionar a constrangedora semelhança entre os personagens, e a coisa fica bastante feia. Em recentes desdobramentos da disputa legal, Abdin revelou no Twiter que o pagamento dos direitos que a CBS lhe infringiu teria vindo a calhar para ajudá-lo a custear as despesas médicas de seu pai, que tinha uma doença terminal e faleceu recentemente. No mesmo dia, uma horda de fanboys, muito provavelmente instigados pelo estúdio, passou a atacá-lo de modos mais do que vulgares, com frases do tipo "que bom que o papai dele morreu, agora ele não precisa mais do dinheiro". Como ser humano e com trekker, acho isso repugnante. De que adianta arrotar virtude online, clamando por "mais amor, menos ódio", e atacar um pobre sujeito que quer apenas o que é dele? São justamente esses justiceiros sociais, esses hipócritas patológicos quem defende esse desastre chamado Discovery.

Essa triste história ainda não acabou. A batalha continua e Abdin não desistiu, apesar de lutar sozinho contra a CBS e seus capangas, pagos ou não. Discovery vai para sua terceira temporada sem ter conseguido unir os fãs nem tornar seus produtos populares (nos EUA, colecionáveis da série estão enchendo o balaio de descontos). Além do medíocre espetáculo diante das câmeras, nos bastidores essa produção maculou um universo ficcional que, por mais de meio século, sempre primou pela visão de um futuro melhor e de uma humanidade mais ética. E é por isso que eu torço por Anas Abdin em sua guerra solitária contra esses abutres que iludiram a boa fé dos fãs e roubaram o produto do esforço e da criatividade de um artista. Vida longa e próspera a Anas Abdin e que a força esteja com ele. Até domingo que vem.

Jornal NH
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