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Gilson Luis da Cunha

O dia em que Alfred Newman morreu

05/07/2019 13:16 05/07/2019 19:20

Gilson Luis da Cunha

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

(DATA ESTELAR 07072019)

Corria o ano da graça de 1975 D.C. (depois de Cristo, não “Detective Comics”, embora a casa de Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha apareça mais adiante nessa crônica). Este que vos escreve tinha 10 anos e começava sua curtíssima experiência no movimento escoteiro, no grupo de lobinhos número 43, o Guaicurus. Por curtíssima entenda-se pouco mais de um ano. Cheguei a participar de dois acantonamentos. Fiz o juramento (Errado. Troquei a ordem dos votos!), passei a usar o uniforme. Mas não evoluí até escoteiro.

Tinha tudo para me tornar um bom cidadão e um membro produtivo de nossa sociedade e acho que me saí bem, posto que não entrei para a política, não canto funk e nem escrevi nenhum livro de autoajuda. Mas o fato é que não segui o escotismo. E o motivo foi um baú, mais especificamente, um baú de quadrinhos colecionado por colegas do grupo. Numa reunião na casa de um deles, em meio a edições de Mandrake, Fantasma, Magnus Robot Fighter e, pasmem, os Sobrinhos do Capitão, dou de cara com meus primeiros exemplares da revista MAD. Criada por William Gaines e Harvey Kurtzman, em 1952, a revista chegou ao Brasil em 1974. Um ano depois eu a descobriria, numa reunião dos lobinhos.

Foi amor à primeira vista, para desespero de minha mãe, que via na publicação uma pouca-vergonha e o início do fim da família brasileira. E olha que ela nunca desconfiou da existência do famigerado Fredric Wertham e seu A Sedução dos Inocentes, o livro que inaugurou uma verdadeira cruzada contra as HQs nos Estados Unidos dos anos 50. Não. De algum modo, as páginas da revista, muitas vezes carregadas de uma ironia completamente alienígena para ela, eram um caminho certo para uma vida regada a drogas e que acabaria por me conduzir ao mundo do crime. Como ela tinha tanta certeza? Simples. Meus irmãos mais velhos, que nunca foram criminosos, liam a MAD com imensa satisfação e deixavam bem claro o quanto gostavam dela.

Pode ser que ela estivesse apenas tentando me impedir de amadurecer mais cedo. Pode ser que ela julgasse que o conteúdo daquela revista fosse algo capaz de alterar o desenvolvimento mental de uma criança. Afinal, ela era de um tempo em que rapazes, moçoilas e "senhorinhas" deviam evitar espetáculos e filmes que os deixassem "impressionáveis", fosse lá o que isso quisesse dizer. De minha parte, nunca dei muita atenção a seus apelos, enquanto me ocupava da leitura da publicação, na época, editada pela extinta editora Vecchi.

Passei a esperar cada número abandonado por meus irmãos como quem caça um tesouro. "O lado irônico de...", seção escrita por Dave Berg, ou "Mad vê..." , nos desenhos do cartunista Sergio Aragonés, junto com as sátiras dos filmes e séries da época, estavam entre meus preferidos. Até hoje me lembro de "Mad vê Guerra nas Estrelas", através das charges de Aragonés. Três delas não me saem da memória: Luke entrando no banheiro da cantina de Mos Eisley e dando de cara com bizarros mictórios feitos para as mais diversas anatomias de espécies do império. Darth Vader, com sua armadura pendurada, e com a silhueta esquelética sob o chuveiro; e Luke, percebendo que o comprimento da tomada de seu sabre de luz foi excedido e a arma parou de funcionar.

Al Jafee, o criador das Respostas Cretinas Para Perguntas Imbecis era, sozinho, considerado a pior ameaça à juventude, na visão de minha mãe. Também pudera. O cara ensinava ironia, sarcasmo. Ninguém suporta espertinhos. Ainda mais se eles têm dez anos de idade e vivem na sua casa, sob sua responsabilidade. Em minha defesa devo dizer que nunca usei os ensinamentos de mestre Jafee em casa. O lar sempre foi uma instituição sagrada para mim. O que eu adorava era a mecânica deliciosamente simples daquelas respostas que eram o equivalente verbal da esgrima. Jaffe também me conquistou por seus guias de invenções que beiravam o surreal: Fumódromo (todos fumando através de tubos individuais que aspiravam o fumo de um forno gigante, com resultados terríveis para a saúde!), esfera hermética de contenção para crianças birrentas (a pobre criança podia gritar à vontade, já que estava numa bolha a prova de som. Claro, podia acabar surda com os próprios gritos...) e outras maluquices que, eu já sabia, serviam só para rir, de tão absurdas.

Mas a revista também tinha seus easter eggs, décadas antes que essa expressão fosse usada no Brasil. Eram as sessões escondidas, cartuns para serem descobertos, como a sessão "imprensa marginal", de Sergio Aragonés, com micro desenhos impressos, como o nome já dizia, nas margens das páginas da revista. E, claro, após o festival de sandices (no bom sentido) oferecidas pelas páginas em preto e branco, ainda havia, na contracapa interna a dobradinha MAD. Uma ilustração colorida, aparentemente inocente, com um texto inócuo que, ao ser dobrada de acordo com instruções, mudava não apenas o texto, como também a imagem, algumas vezes com resultados tão chocantes quanto hilariantes, se você fosse um guri de dez anos.

O tempo passou. Comecei a trabalhar de office-boy e a comprar minha própria MAD. E fui além. Muito antes da Internet, muito antes do E-commerce, através do reembolso postal, passei a comprar os livros de bolso da MAD: As Aventuras do Capitão Klutz de Don Martin, e os livros de Al Jafee, que, infelizmente, não incluíam o primeiro volume do Livro de Respostas Cretinas Para Perguntas Imbecis, uma vez que minha mãe chegava a passar mal, só de pensar na existência de tamanho manual de subversão juvenil invadindo a santidade do lar. Isso, claro, não me impediu, algum tempo depois, de conseguir o segundo volume da saga. Mas não era a mesma coisa. De algum modo, foi como ter conseguido um Van Gogh, mas ter deixado escapar a Gioconda de Da Vinci.

Outro grande acerto da revista eram as paródias de filmes e séries de TV, frequentemente nos traços de Mort Drucker e Angelo Torres. Era como ter episódios de sua série ou filme favorito em casa, só que zoados de um modo inimaginável. Por exemplo, na sátira de O Homem de Seis Milhões de Dólares, Steve Austin, um ciborgue (na época Cyborg, pois essa palavra ainda não havia sido aportuguesada) resgata um amigo de uma fortaleza em território inimigo. Quando estão descendo a muralha, o amigo, Oscar Goldman, se não me engano, dizia: "Steve, não sabia que seu braço biônico era projetado para se esticar!" Resposta do pobre ciborgue: "Esse é o meu braço verdadeiro...".

Em 1975 a Globo exibiu quatro dos cinco filmes de Planeta dos Macacos original. As paródias de cada um dos filmes não tinham sido lançadas individualmente no Brasil. Solução da revista: Um compacto com todo o material produzido, com a história de todos os filmes numa só paródia. E ficou genial. A capa da edição era uma das mais icônicas de todos os tempos: um chimpanzé retira sua máscara de Alfred E. Newman e revela que, assim como o garoto-propaganda do periódico, ele mesmo também tem um dente da frente faltando.

No Brasil, equipes locais se encarregavam de produzir um excelente material com apelo direto à cultura nacional. Sátiras de telenovelas eram frequentes e, muitas vezes, mais interessantes do que o material em que se baseavam. No Brasil, a revista passou por altos e baixos, mudando de editoras, até finalmente ser cancelada pela Editora Panini, em 2017. Hoje, quinta-feira, 4/07/2019, descubro que a redação da MAD norte-americana fechará suas portas após 67 anos. A publicação que conseguiu sobreviver até à proibição nos anos 50 e investigação por parte do FBI, não resistiu à crise que se abateu sobre o mercado de quadrinhos e, junto com a linha Vertigo, da DC Comics, ambas propriedade da Warner, chegou ao fim.

Durante aqueles primeiros anos, cheguei a acreditar que Alfred E. Neuman era baseado em alguém real. Talvez um parente de alguém, ou, até, parte da equipe de editores. Na verdade tratava-se de um ícone, como o Tio Sam, só que feito para zoar com tudo e com todos, baseado possivelmente numa peça publicitária dos anos 20 (foto), que mostrava um menino com um dente da frente faltando. Hoje aquele menino maluquinho e irreverente, que já apareceu de tudo que é jeito na capa, se despede, após quase sete décadas sendo um símbolo do humor anárquico e um libelo pela liberdade de expressão. Será que voltaremos a vê-lo no futuro? Quem sabe, se sobrevivermos à era do mimimi e do politicamente correto. Digo e repito, sem constrangimento nem hesitação que, ao invés de me corromper, a MAD ajudou a moldar o homem que me tornei. O riso é a quintessência da liberdade. Suprimi-lo é um atentado contra a menor de todas as minorias: o indivíduo. Foi isso, mais do que respostas cretinas para perguntas imbecis, o que aprendi com Alfred E. Neuman. Até mais, Alfie. Você lutou a boa luta e, ao fazê-lo, tornou esse mundo um lugar menos chato de se viver. Descanse em paz, guerreiro. E muito obrigado pelas risadas. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem. 

Jornal NH
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