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Opinião Mauro Blankenheim

A Mula, extraordinária

Última atualização: 16.08.2019 às 13:50

Mauro Blankenheim é publicitário
mauroblankenheim.com.br

A cada novo filme dirigido pelo antes ator spaghetti, Clint Eastwood, só aumenta a minha singular admiração por essa fera, que, ao lado de Quentin Tarantino, constitui as duas maiores expressões atuais de um cinema dito novo nos EUA.

Novo, porque admite unir a realidade dura da vida, com a poesia do jazz. As contradições de um mundo moderno tecnologicamente, com a rudeza do crime organizado e desorganizado. O urbano e o country. O grosso e o fino. O riso e o choro, enfim toda a controvérsia do que parecia impossível num cinema que se acostumou a vender o American Way Of Life como sendo o único jeito de viver bem. Hoje o cinema já se espelha e critica com ironia vários aspectos clássicos do que se via até ontem em Hollywood. Tim Burton também provoca muito refinadamente essa desconstrução em seus filmes.

Pois o que Clint ainda melhor sabe fazer, além de escolher com primor as trilhas musicais de seus longas, é se colocar dentro do enredo com seus 90 anos, e a gente não sentir que ele está forçando a barra. Parece tão natural e espontâneo... tão normal, tão comum.

Tomadas e enquadramentos perfeitos, que sintetizam e diferenciam a obra de Clint em pelo menos 5 ou 6 de seus últimos filmes, o colocam como uma nova referência quando se fala em cinema bom e gostoso de assistir. Não se nota o tempo passar e a tentação de fuçar o celular fica para trás.

Eastwood é tão reconhecido, que surge como atração especial surpresa numa das recentes entrevistas de David Letterman, com Ellen DeGeneres, na série Meu Convidado Dispensa Apresentações, do Netflix.
Estoico e excêntrico, sua presença nos estúdios é percebida pelo automóvel vintage que dirige e fica estacionado junto ao escritório, onde esquilos frequentam distraídos, sua mesa de trabalho.

Eastwood explora com tamanha precisão os dramas psicológicos dos idosos, que, excluídos pela sociedade, não são respeitados pelas novas gerações. Em A Mula, sua mais recente criação, mostra com ímpar qualidade até que ponto nos deixamos levar pelo ritmo frenético da vida, desprezando valores verdadeiros em troca de ilusões enganosas.

A crítica de Clint se estende para o plano do caráter das pessoas, que nos últimos anos caiu sensivelmente no ranking, enquanto escrúpulos foram para as cucuias e o egoísmo se levantou como a bandeira de todos. Numa época em que todos julgam todos, o talentoso diretor se limita a exibir a crueldade humana, deixando que o espectador faça o seu próprio juízo com as ricas ferramentas que disponibiliza.

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