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Opinião Gilson Luis da Cunha

Casamentos, divórcios e funerais

Última atualização: 23.08.2019 às 15:34

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

(DATA ESTELAR 25082019)

Num intervalo de pouco mais de uma semana duas notícias sacudiram o mundo geek: a primeira foi a fusão (ou reunificação, já que eram originalmente uma mesma empresa) da rede de TV CBS, dona da marca Star Trek na TV, com a Viacom, a dona dos direitos de Star Trek para o cinema. A segunda foi a despedida do Homem-Aranha do universo compartilhado Marvel/Sony, depois que o acordo entre as duas empresas foi encerrado.

Star Trek, Marvel/Sony No caso de Star Trek, fãs esperançosos, entre os quais não me incluo, imaginam que, com a marca Star Trek toda ela sob um mesmo teto, os desastrados acordos da partilha de direitos que criaram um novo universo cinematográfico para Kirk, Spock e companhia, e que originaram uma bizarra e ultrajante retcon do universo original na TV, levariam a um fim satisfatório. Nada poderia estar mais longe da verdade. Quando a partilha foi feita, ficou estabelecido que direitos de TV e cinema fossem separados. Isso inclui o design de figurinos, objetos de cena, naves, e, até, de alienígenas. Sim. Pagar as contas de novos maquiadores e diretores de arte não foi o único propósito de transformar Klingons em Orcs de O Senhor dos Anéis (foto).

Foi estabelecida a "regra dos 25%". Ou seja, o que quer que aparecesse na TV precisava ser no mínimo 25% diferente do que já tivesse sido feito antes. De posse dos direitos, a CBS brindou os fãs de longa data da franquia com um verdadeiro show de horrores, que incluiu mutilar aparência e comportamento de personagens consagrados. Nesse "universo autoral", que se propõe a ser canônico, Spock é disléxico e com tendências homicidas. A série dividiu os fãs. Os tradicionais a abandonaram. E os novos, exceto por uma minoria que está sendo apresentada a esse universo, não parece ter abraçado o seriado com muito entusiasmo. A série tem sido bem recebida muito mais por seu compromisso com agendas identitárias do que pela qualidade de seus roteiros abarrotados de ex-machina e ausência absoluta de consultoria científica (os roteiristas confundem o espaço com algum tipo de reino mágico tão, tão distante, onde vale tudo, até viajar, literalmente, no cogumelo). Agora o universo do cinema, que é até aceitável se comparado com o da TV, terá que se harmonizar com isso daí. A menos que demissões em massa sejam feitas, começando por Harvey Kurtzmann na TV, e por seu mentor, JJ Abrams, no Cinema, vejo pouca esperança nessa lambança. Do jeito que está, é como misturar guaraná com vinho e cerveja e rezar para que funcione.

O caso da Disney-Marvel/Sony Pictures é diametralmente oposto. A Sony Pictures vinha de uma sequência de fracassos com o cabeça-de-teia. Apesar do talento de Andrew Garfield, os filmes estrelados por ele foram dolorosamente ruins. O acordo com a Marvel veio em boa hora. Permitiu que o amigo da vizinhança fosse inserido no universo cinematográfico Marvel em Capitão América: Guerra Civil e que depois participasse dos dois filmes que encerram a saga dos Vingadores no cinema. Nesse meio tempo, o personagem ganhou dois filmes solo, sendo o segundo, Home-Aranha, Longe de Casa, o mais lucrativo da história da Sony Pictures. Foi então que o namoro Sony/Marvel azedou.

A Sony já havia conseguido se virar sozinha com Venom, personagem que nas HQs é parte integrante do universo do Homem-Aranha, mas que, no cinema, nada tem a ver com o aracnídeo. O filme não é um primor e a bilheteria, mesmo expressiva, não é páreo para as bilheterias da Marvel. Mesmo assim, a Sony resolveu peitar. Por outro lado, a Disney/Marvel também não foi flexível. Ambas achavam que podiam ditar os termos de lucros com bilheterias e controle criativo. O resultado foi a saída do personagem mais popular da casa das ideias do universo compartilhado e, possivelmente, sua inserção desastrada num “Venomverso” em seu próximo filme solo. Essa forçação lembra aquele episódio dos Simpsons, no qual Stan Lee aparece na loja do Cara dos Quadrinhos, e tenta convencer um guri de que o Batmóvel fica muito mais legal se for pilotado pelo Coisa. Resultado: Stan, The Man, acaba quebrando o Batmóvel e saindo de fininho.

O que esses dois incidentes ensinam? Simples. Eles nos mostram que a maior força "criativa" de Hollywood, longe de serem os roteiristas ou artistas visuais, são os advogados. Eles ditam quem, como, onde, quando e, acima de tudo, o quanto. E é assim que um casamento e um divórcio acabam se encontrando bem no meio do caminho.

Quanto aos funerais, esses são bem mais quietos e sem estardalhaço. Franquias como Star Wars e Doctor Who agonizam lentamente, devido, em parte a seus acordos de licenciamento e, em parte, aos "brilhantes" "jênios" (com jota mesmo) de seus departamentos de Marketing. Os números mostram que o grosso do público de Star Wars se forma na infância. Pois a tendência atual é a de que, pelo menos nos EUA, as crianças prefiram brincar de super-heróis a brincar de jedi ou sith. O diagnóstico é curto e grosso. Os personagens atuais não estão vendendo nada na terra do Tio Sam. Seus bonecos e acessórios encalham. As crianças e jovens não se identificam com eles. E por que deveriam? Não há neles uma jornada do herói. Tudo é rápido, gratuito e mal explicado.

Para meninos e meninas de oito a doze anos, pouco importa a suposta diversidade e inclusão alardeada pelo departamento de marketing da Lucas Film (que, apesar do nome, não pertence mais a George Lucas). Elas querem heróis e heroínas com quem possam se identificar. Mas vá fazer o pessoal do marketing entender isso. Pior. Todo esse esforço não se baseia realmente em promoção da diversidade. Lando Calrissian já era um herói negro (e muito carismático) em Star Wars nos anos 80. A princesa Leia já era corajosa, carismática e "empoderada" muito antes dessa palavra sequer ter sido inventada. Ocorre que o plano da Disney é varrer das telas os personagens de George Lucas (que ainda reteria direitos de merchandising sobre eles).

No fim das contas, Lucas foi um gênio. Deixou todo o risco e possíveis prejuízos com a Disney, mas manteve uma rentabilidade segura para seus produtos. E quem perde é o público. Boas intenções não fazem uma boa história. Panfletos não substituem personagens. Os sintomas já estão aparecendo. O Star Wars: Galaxy’s Edge, nova atração do Disney’s Hollywood Studios, está entregue às moscas, com um público baixíssimo, mesmo durante as férias do verão americano. Além disso, nos últimos dias, uma ex-funcionária da corporação teria revelado que a Disney estaria apelando para "contabilidade criativa", para encobrir rombos na casa dos bilhões de dólares, oriundos de suas recentes decisões "criativas".

Tudo isso significa que gigantes como a Viacom, Sony, ou mesmo a Disney, cairão? Não necessariamente. Significa apenas que os advogados e o pessoal do Marketing já passaram tempo demais tratando a paixão de milhões de fãs como sabão, graxa de sapato ou lenços descartáveis. Todos esses produtos são muito úteis, mas acho que dá para contar nos dedos de uma mão o número de seus consumidores que também são fãs de sabão, graxa de sapato e lenços descartáveis. Quem sabe, uma queda abissal, daquelas de afundar até a Fossa das Marianas, não resolva o problema? Depois que se chega ao fundo, só se pode subir. O tempo dirá. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.

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