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Opinião Luiz Coronel

O duplo combate

Última atualização: 06.09.2019 às 19:47

Luiz Coronel

Luiz Coronel é poeta
www.luizcoronel.com.br

A história humana insere-se em um duplo combate. De um lado, o caos, a anarquia, a impunidade e, de outro, a tirania cinzenta, cega, opressora e aniquilante. A democracia ordena as relações humanas, sem sufocar, mas também inibindo a permissividade dos que trapaceiam acobertados pelo manto da lei.


Escudo e camiseta - O homem, de forma inesperada, torna-se o poder. A rua onde ele dorme está fechada ao trânsito. O hotel onde hospeda-se exige de cada um dos hóspedes um atestado de vacina e antecedentes. Sirenes, ambulâncias de prontidão. Ainda ontem caminhava de bermudas no calçadão, jogava vôlei na praia. Tomava caipirinha no boteco da esquina. O homem contempla a praça pela janela do hotel. Namorei naquele banco, lembra o poder. Pensando amores, deita-se olhando o teto vazio. Suas lembranças são comuns, coletivas. Tudo lhe veda o retorno à condição de simples cidadão brasileiro. Ele usa escudo, não mais camiseta. Vaias ou aplausos, talvez ele optasse por um pastel, um café na confeitaria, uma conversa vadia numa manhã de domingo, numa roda de amigos. Agora ele é o poder.

O grande estúdio - Uma das grandes redes de comunicação proclama, com justa razão, a magnitude de seus estúdios de gravação ora ampliados. Lembro os estúdios da Cinecittà, na Itália. Pequeno espaço, e dali saíram as obras-primas de Federico Fellini. Ideias, criatividade, sensibilidade para expressar a realidade humana por meio da arte estarão cativos dos monumentais eventos eletrônicos? Enquanto a dramaturgia novelesca gravitar em torno desta luta tacanha pelo status de uma burguesia vaidosa e fútil de Ipanema, teremos um imenso aparato televisivo, elenco e produção, destinados a obras absolutamente perecíveis e descartáveis. Da arte, diga-se o que quiser, mas só permanece o que for verdadeiramente grandioso. Não há um só dia, neste vasto mundo, onde algum palco do mundo não esteja sendo encenada uma tragédia ou uma comédia de William Shakespeare.
Bastidores - Nas encenações do poder, não basta conhecer os bastidores, identificar os personagens, o diretor de cena. É preciso conhecer, identificar o ponto. Ele é aquele vulto que fica no poço, escondido, não tem nome nem figurino especial, mas é ele quem sopra e dita o texto aos atores.

As chaves do cofre - O poder tem compromissos fundamentais com o poder. Ele tem múltiplas indumentárias. Veste-se a rigor, mas não consegue ocultar o gosto perene de guardar sob as vestes as chaves do cofre.

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