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Opinião Opinião do Repórter

Onde deveriam ser protegidas, as crianças são estupradas

Última atualização: 12.09.2019 às 10:32

Marina Mentz é editora e pesquisadora de infâncias, comunicação e cultura

 

Não é assunto agradável, nem de longe. Mas é conversa necessária de se ter. A violência sexual contra crianças é muito mais comum do que se imagina e acontece todos os dias dentro de diversas casas da região. Com um conhecido seu, um aluno, um parente, alguém aí do seu condomínio. Talvez por ser uma "pauta forte", os jornais nem falam tanto assim do assunto. Mas os números mostram que, no Brasil, há uma média de 60 casos denunciados por dia. Esse número inclui estupros, assédios e outras violações sexuais contra crianças, mas só aqueles que têm coragem de denunciar.

Quando se fala em estupro de crianças, não há diferenças de gênero.

Meninos e meninas são violentados todos os dias em número muito semelhante - embora a denúncia nos casos onde a vítima é menino seja menor, pois há temor de que com isso sua masculinidade seja fragilizada ou mesmo a do agressor, que, na maioria das vezes, é um homem. No total das vítimas, a maioria tem entre oito e 14 anos, mas 34% diz respeito a crianças recém-nascidas até sete anos.

Ainda para compreender melhor o tamanho da problemática, os dados nos dizem que 65% das violências acontecem dentro do grupo familiar da vítima, ou seja, a agressão é cometida por aqueles que deveriam proteger estas crianças: seus familiares.

Foto por: Pixabay
Descrição da foto: Violência sexual contra crianças

Debate na Câmara

Na noite desta quarta-feira (11) tive a oportunidade de estar, junto da colega também pesquisadora Vitória Santos, em uma atividade na Câmara de Vereadores de Nova Hartz onde estavam pessoas relacionadas à rede pública da de ensino, saúde, assistência e segurança. Ali, falamos sobre a exposição que está no local e que tem como tema os trinta artigos dos Direitos Humanos. Porém, o assunto não ficou apenas nisso, pois o público trouxe suas inquietações e compartilhou conosco que a cidade hoje sofre com a problemática da violência sexual contra as crianças. Naquele município, a rede de acolhimento atende e acolhe vítimas todos os meses, e em um número que surpreende para o tamanho da cidade.

Por mais dura e triste que seja a realidade, um incentivo deve sempre permanecer: a denúncia. Esta pode ser a parte mais difícil de todas, mas é a necessária para que o ciclo da violência seja interrompido.

Na noite de ontem, também nos perguntaram o que fazer e uma receita para resolver o problema. O que conseguimos responder é que a questão é cultural:

Infelizmente a sociedade se acostumou que variados tipos de violência acontecem com crianças e que se "o filho não é meu, o problema também não é".

Mas eu digo que é problema de todos sim. É função de todos observar as condições em que vivem as crianças do seu entorno e denunciar caso algo esteja em desalinho - ao Conselho Tutelar, ao Disque 100, à Brigada Militar.

A outra resposta é educar as crianças e ensiná-las que nem todo toque em seu corpo deve ser aceito se aquilo lhe causa desconforto ou sofrimento - mesmo que venha de algum familiar muito próximo. É a isso que se propõe a educação sexual, conteúdos que auxiliem na diminuição da vulnerabilidade da criança em relação a estas violências. 

Digo, mais uma vez:

Não é assunto agradável, mas é conversa necessária de se ter. O problema está mais perto do que se imagina. Precisamos ouvir as crianças e protegê-las.

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