Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Rua Jornal NH, 99 - Bairro Ideal - Novo Hamburgo/RS - CEP: 93334-350
Fones: (51) 3065.4000 (51) 3594.0444 - Fax: (51) 3594.0448

Pirâmides financeiras

A história da D9 Trader: processada por lesar centenas de vítimas na região

Com base em Novo Hamburgo, Unick Forex tem estratégia semelhante de atuação
27/03/2019 03:00 22/09/2019 15:30

Para atrair vítimas, a organização criminosa travestida de empresa de investimentos ostentava luxo nas redes sociais, fazia palestras motivacionais, promovia viagens em grupo para clientes e, principalmente, vendia pacotes de aplicações com a promessa de rendimentos extraordinários, de até 3% ao dia. É a extinta D9 Trader, que lesou centenas de clientes só no Vale do Sinos e provocou em Sapiranga, há dois anos, a maior investigação já feita no Estado sobre exploração de pirâmide financeira.

Um dos 24 réus denunciados pelo Ministério Público é Danter Navar da Silva, hoje diretor de Marketing da Unick Forex, empresa em atividade que adota estratégias de negócio praticamente iguais às da D9 e é investigada pelo mesmo crime. O advogado de Danter sustenta que ele não era gestor da D9 e que também perdeu dinheiro, como investidor, mas observa não ter procuração para falar pela Unick. Danter informou, por meio do defensor, que não quer se pronunciar.

R$ 10 MILHÕES

“As pirâmides financeiras se renovam”, declara o delegado de Sapiranga, Fernando Pires Branco, responsável pela investigação que apreendeu mais de R$ 10 milhões da D9, entre dinheiro, imóveis e carros. Ele conta que o líder da empresa no Estado, o sapiranguense Márcio Rodrigues dos Santos, brutalmente assassinado no ano passado, se definia como “piramideiro”.

A prática da pirâmide financeira é enquadrada como crime contra a economia popular na lei 1.521 de 26 de dezembro de 1951 – obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos ("bola de neve", "cadeias", "pichardismo" e quaisquer outros equivalentes). Ela abre margem para estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro, crimes que também vêm sendo imputados aos responsáveis por explorar pirâmide financeira.


Gestor foi queimado no porta-malas

Foto por: Reprodução
Descrição da foto: Em 2016, Márcio dos Santos exibia a compra de um Camaro
Foto por: Polícia Civil
Descrição da foto: Em setembro do ano passado, foi carbonizado em um Audi A4
Líder da chamada equipe Elite V8, que representava a D9 no Rio Grande do Sul, o sapiranguense Márcio Rodrigo dos Santos gostava de produzir vídeos em lugares e carros luxuosos. Talvez fosse para satisfazer o ego, mas o principal objetivo era atrair clientes. "Venha para a D9. Você também pode", era um dos discursos. "É bola na rede e dinheiro no bolso", repetia Santos nas palestras. Era o bordão publicitário da organização no mundo. Foi assassinado de forma brutal há seis meses em Balneário Camboriú, no litoral catarinense.

Em uma postagem no Facebook, em 2016, o líder posta vídeo dele em uma revenda de veículos em Estância Velha, quando comprava um Camaro amarelo. "Estou aqui realizando mais um sonho meu. Estou comprando esse Camaro 2015 à vista." O vendedor, ao lado, frisa que o pagamento foi em dinheiro. "Você, que está à procura de uma oportunidade para realizar seus sonhos, venha para cá. Não perca mais tempo. Mas, para isso acontecer, faça parte da melhor equipe do Brasil, a Elite V8", convida Santos. Nos encontros nas cidades, clientes davam depoimentos ao microfone para dizer que estavam progredindo financeiramente e despertar o interesse nos iniciantes. "Era uma lavagem cerebral", conforme definiram várias vítimas.

VINGANÇA

Depois de indiciado, preso e solto, em setembro de 2017, Santos foi viver (e morrer) em Camboriú, onde tinha uma mansão. A Polícia suspeita que ele continuou a atuar no esquema de pirâmide financeira no litoral catarinense. Na noite de 12 de setembro do ano passado, o sapiranguense avisou a namorada que sairia para jantar com investidores. Na madrugada, o Audi A4 dele foi encontrado em chamas. No porta-malas havia um corpo carbonizado. Era o de Santos. Um suspeito foi preso em outubro, em Torres, e outro no mês seguinte, em Passo de Torres. Segundo a Polícia, o homicídio foi motivado por vingança de investidores. O sapiranguense tinha 37 anos.

Chefe nacional está preso em Dubai

Foto por: Reprodução
Descrição da foto: RÉU: Danilo Santana
Preso desde abril do ano passado em Dubai, nos Emirados Árabes, o baiano Danilo Vunjão Santana Gouveia, 35, é apontado pela Polícia como chefe da D9 no Brasil. "Em vídeo, ele se dizia ‘dubaiano’, ostentando uma vida de luxo naquele país. Solicitamos mandado de prisão preventiva, que foi decretado pelo Judiciário, e enviamos para a Interpol, que o capturou no aeroporto dos Emirados Árabes. Agora está em prisão domiciliar, enquanto não se define o processo de extradição." Mansões e bens que incluem um jato particular eram exibidos nas redes sociais de Danilo, além de viagens aos principais pontos turísticos do mundo. Os investigadores estimam que, só na Bahia, o réu tenha arrecadado R$ 200 milhões. No Brasil, conforme estimativa do Ministério Público, os valores estejam na casa dos bilhões.

Justiça tenta extradição

O processo da D9 tramita lentamente no Foro de Sapiranga não só pela quantidade de réus, mas principalmente em razão da dificuldade de extradição de Danilo Santana, que estaria esbanjando dinheiro no Oriente Médio. Segundo o promotor Sérgio Cunha de Aguiar Filho, está sendo providenciada a tradução juramentada em árabe de toda a documentação na tentativa de acelerar a ação. As denúncias são por estelionato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crime contra a economia popular.

Na semana passada, o promotor pediu a cisão do processo. “A ideia é dividir em dois. Um segue para os demais réus, para que possa andar, e o outro fica em relação a ele (Danilo), que será suspenso enquanto não se define a extradição”, explica. No dia 27 de fevereiro, o juiz Carlos Fernando Noschang Junior reiterou, ao Itamaraty, providências em relação ao baiano. "Oficie-se ao Ministério da Justiça informando que ainda persiste o interesse na extradição do Sr. Danilo Vunjão Santana Gouveia, bem como que a documentação necessária será encaminhada no prazo de 30 dias, em razão de solicitação do Ministério Público."

O guru da Unick

Foto por: Reprodução
Descrição da foto: DANTER: 'nós somos honestos'
Aos 24 anos, o sapiranguense Danter Navar da Silva é apresentado nos materiais de campanha publicitária da Unick Forex como uma espécie de guru e garoto-propaganda da empresa. Palestrante em encontros para centenas de pessoas, usa táticas de oratória motivacional para conclamar a união dos líderes e convencer os interessados de primeira viagem a investir nos pacotes vendidos. Ao lado de outros dirigentes, invoca o público a defender a organização como se fosse uma família.

“Nós somos honestos, nós temos um ideal, temos uma missão, temos um propósito, porque nós amamos vocês, acreditamos em vocês, acreditamos no que fazemos, confiamos que nosso potencial é o suficiente para mudar a realidade não só de uma pessoa que está aqui, mas de todos vocês, e ainda mudar a vida de todo um país e, por que não, do mundo em que a gente vive”, bradou ele, depois de ser recebido em pé e com fervorosos aplausos da plateia em palestra da Unick na noite de 12 março, em Novo Hamburgo, transmitida ao vivo nas redes sociais. “Respeite a minha empresa, porque ela é legítima. Meu nome não é mais Danter Silva, meu nome hoje é Unick, e essa é a minha verdade. Todos somos Unick. Todos que acreditarem. Vocês estão de parabéns por virem aqui. Essa é uma noite épica.”

Advogado diz que prova é frágil

Para o advogado de Novo Hamburgo Marcelo Augusto Rodrigues de Lemos, contratado por oito réus da D9, entre eles Danter Navar da Silva, as provas contra os clientes são frágeis. "No caso dele, se resume a um print de Facebook", observa o defensor, referindo-se ao atual diretor da Unick. Segundo o advogado, Danter não chegou a ser preso e não teve bens bloqueados. "O núcleo de clientes que eu defendo são investidores que foram imputados pelo Ministério Público como operacionalizadores. Todos perderam dinheiro. Entraram de gaiato."

Lemos admite que a D9 era uma organização especializada em golpes, mas prefere não defini-la como pirâmide. "Isso ainda está em discussão na Justiça." Em relação à participação de Danter em empresa suspeita, o defensor argumenta desconhecer a operação. "Não sei o que é a operação da Unick e não sabia que ele tinha essa posição de diretor.

Promotor pode pedir a prisão do diretor

Outro réu da D9, Matheus Felipe dos Santos teve a prisão preventiva decretada, em setembro de 2017, por continuar no esquema de pirâmide financeira mesmo após a denúncia, conforme decisão do juiz Ricardo Andrade. O mesmo pode acontecer com Danter Silva. “Já ouvi falar dessa Unick, mas não sei exatamente como trabalha. Se comprovada a reiteração delitiva já apurada no processo da D9, vamos estudar o pedido de prisão preventiva”, revela o promotor Sérgio Cunha de Aguiar Filho.

O promotor comenta que, com base na reportagem do Jornal NH, vai solicitar documentos aos órgãos que investigam a nova empresa de Danter. “Se mesmo respondendo aqui, continua praticando o crime, está causando abalo à ordem pública”, observa. Um fato raro aconteceu na palestra quinzenal da Unick em Novo Hamburgo, ontem à noite. Danter não foi a atração. No lugar dele, a empresa escalou um subalterno, Felipe Martins, apresentado como consultor de Marketing.

Duas empresas investigadas

A Unick Forex e a InDeal, empresas de investimentos que se expandiram ao assegurar juros de no mínimo 15% ao mês, são investigadas nas esferas estadual e federal. É apurado se realmente investem em criptomoedas, o dinheiro virtual, principalmente na modalidade de bitcoins, como prometem aos milhares de investidores já conquistados. As empresas foram contatadas pela reportagem, mas não se manifestaram. As duas têm forte representação em Novo Hamburgo e Vale do Sinos. A Unick atua mais no segmento popular, com a venda de pacotes acessíveis a pessoas de baixa renda. A InDeal trabalha com um público mais seleto, sem a venda de pacotes, mas com aplicações em contas cujo destino é apurado pelos investigadores. O procurador da República em Novo Hamburgo, Celso Tres, afirma que há fortes indícios de fraude. "Não tenho dúvida que isso é pirâmide financeira." Segundo ele, há a suspeita de que a InDeal tenha recebido mais de R$ 100 milhões dos investidores em apenas um mês.

 

Leia amanhã - Delegado revela detalhes da D9 e mais: STJ mantém bloqueio de conta, o aumento das denúncias e a história do golpe da pirâmide.

Jornal NH
Capa do dia

FOLHEIE O SEU JORNAL PREFERIDO NA TELA DO SEU COMPUTADOR.

ACESSE ASSINE AGORA
51 3600.3636
CENTRAL DO ASSINANTE

51 3553.2020 / 51 992026770
CENTRAL DE VENDAS DE ASSINATURAS