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Notícias | Região Economia

Números que alteram expectativas: mercado mantém otimismo; projeções são cautelosas

Nas últimas semanas, alguns movimentos chamaram a atenção no cenário econômico

Por Felipe Nabinger
Última atualização: 12.05.2019 às 11:41

O mercado financeiro vive de expectativas. Mudanças em programas de governo fazem com que investimentos avancem ou recuem casas no tabuleiro do jogo da economia, movimentos que refletem não só nas empresas dos mais diversos setores, mas na nossa vida, a do cidadão comum, como você e eu. Depois de um indício de recuperação econômica em 2017, veio uma eleição de 2018 que pouco debateu economia, mas cujo resultado que acelerou alguns prognósticos. A mudança gerou grande expectativa, que segue, porém, agora com muito mais cautela nos mais diversos setores. “Engatamos uma recuperação econômica. Michel Temer veio com uma política econômica adequada e trouxe de volta ao debate a palavra reforma. O governo conseguiu melhorar contas externas, mas não fazer as reformas necessárias”, explica a economista-chefe do Sistema Fecomércio-RS, Patrícia Palermo.

Mas, nas últimas semanas, alguns movimentos chamaram a atenção. O dólar oscilou, chegando a ultrapassar os 4 reais. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial do País, acelerou para 0,72% em abril, a maior variação para o mesmo mês desde 2015, e taxa mais alta desde junho do ano passado, que foi de 1,11%. Isso fez com que os preços da gasolina e dos alimentos subissem ainda mais. Quanto aos combustíveis, a crise política na Venezuela pode fazer com que o preço do petróleo suba ainda mais, conforme o presidente Jair Bolsonaro.

''Reforma seria gol''

A economista Patrícia Palermo vê a necessidade de um forte ajuste fiscal e para isso acontecer entende necessária a reforma da Previdência, que o governo federal acredita conseguir aprovar no segundo semestre. “Comparando com um jogo de futebol, seria uma partida com um monte de passes bonitos, mas sem gol. O gol é a reforma da Previdência”, sustenta. Ela ressalta que áreas essenciais para a população são afetadas pelo modelo atual. “O Brasil gasta cerca de R$ 700 bilhões com a Previdência e arrecada R$ 400 bi. Falta R$ 300 bi para fechar a conta. Vai tirar recursos de áreas como saúde e educação, onde se investe cerca de R$ 100 bi em cada?”, questiona.

 

''Brasil não precisa de reforma''

Destoando de outros especialistas, o professor da Universidade Estácio de Sá e economista da bancada do PT na Assembleia Legislativa, Jorge Lisandro Maia Ussan, diz que não há base empírica em uma melhora da economia vinculada à reforma previdenciária. “Acreditar que a economia vai deslanchar por causa da reforma é uma fantasia”, diz. Ele acredita que é possível que a economia cresça, sem que haja mudança drástica nas aposentadorias do regime geral. “O déficit da Previdência aumenta a partir de 2015, quando a economia deixa de crescer. As políticas implementadas nos governos Dilma, Temer e agora Bolsonaro fazem a receita da previdência despencar desde então.”

 

''Falta remar na direção certa''

Para Patrícia Palermo, apesar dos índices, existe expectativa positiva com a atual política econômica do ministro Paulo Guedes, embora as elevadas perspectivas de celeridade em mudanças esteja sendo readequada. “Está havendo um reposicionamento de expectativas. É como se estivéssemos fazendo uma desmitificação. Além disso, a realidade mundial é de uma economia que está desacelerando. O que a gente enxerga é um governo que ainda está se organizando. As expectativas estavam lá em cima, mas há dificuldades na articulação política”, explica.

Essas dificuldades na articulação política, com derrotas governistas no Parlamento, além de polêmicas envolvendo o presidente, sua equipe e até mesmo sua família, segundo a economista, ainda não tiraram do investidor estrangeiro a atenção ao Brasil. A explicação, conforme Patrícia, é a figura de Paulo Guedes. “Ele é entendido pelo mundo como um ‘fiador’. Passa a ideia de que há um copiloto que sabe conduzir a economia. Mas há uma ressalva relevante. Nem sempre ministros concluem o mandato. Algum tipo de flerte dele com a saída do governo seria preocupante”, destaca. “O barco está apontado na direção certa, falta remar nessa direção”, diz.

 

''Quem faz a economia andar são as famílias''

Para o economista Jorge Lisandro Maia Ussan, é necessário que o governo deixe de lado a política de cortes em gastos sociais e de investimentos em infraestrutura, mesmo que isso represente um aumento da dívida, e sem privatizações. “Não sou contra concessões ou parcerias público-privadas em si. Mas o problema das privatizações é que o fato de deixarem de ser públicas não quer dizer que haverá investimento se a economia não melhorar”, explica. Para ele, a criação de emprego e renda é fundamental para o avanço econômico. “Quem pode fazer a economia andar são as famílias. A própria previdência significa distribuição de renda, já que a maior parte ganha de um a dois salários mínimos. E, quando recebe, gasta. O dinheiro volta em forma de consumo e tributo”, diz. Outro caminho são as exportações, embora veja dificuldades no momento. “Nosso principal parceiro, a Argentina, vive uma crise. E o governo federal tem feito declarações que prejudicam negócios com determinados países”, analisa.

 

Municípios esperam repasses

Foto por: Debora Szczesny / Divulgação
Descrição da foto: Antonio Cettolin
No dia 11 de abril, na Marcha dos Prefeitos, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes colocaram a reforma previdenciária como um fator acelerador de repasses para Estados e municípios. “Tivemos avanços significativos, mas a maioria depende da reforma. Um exemplo são os recursos da Lei Kandir, que podem passar de R$ 2 bi para R$ 10 bi. É um recurso importante, pois 25% é ICMS e vem para os municípios”, afirma o presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), prefeito de Garibaldi, Antonio Cettolin. A entidade apoia a reforma. “Não entramos no detalhe de ser a ideal. Há pontos que têm que ter algum cuidado”, diz, acreditando que haverá ainda mudança no texto. Sobre o momento da economia nacional, Cettolin vê como preocupante. “Todos nós tínhamos uma expectativa com o governo, mas até agora as coisas não têm andado”, analisa.

Investidores em compasso de espera

Foto por: Fiergs / Divulgação
Descrição da foto: Presidente da Fiergs, Gilberto Porcello Petry.
No setor industrial há preocupação quanto ao cenário atual. O impasse nas reformas fez com que uma certa “euforia” caísse nos últimos dois meses. “Acreditamos que a dificuldade de articulação política nos primeiros meses revelou que o processo de aprovação das reformas pode ser mais longo do que o esperado. Houve uma espécie de choque de realidade que acabou reduzindo as expectativas para o PIB”, explica o presidente da Fiergs, Gilberto Petry. Ele afirma, no entanto, que o setor segue confiante e vê os investidores estrangeiros em compasso de espera. “O Brasil tem a oportunidade de se colocar numa posição de destaque aprovando uma reforma robusta”, diz. Petry alerta, no entanto, que o esforço do governo não deve se resumir à Previdência. “A reforma tributária e a desburocratização são matérias que precisam ser tratadas. Acreditamos que terão grande impacto sobre o crescimento da indústria se forem corretamente endereçadas”, analisa.

Desemprego cresce mais no comércio

Foto por: Juliana Moscofian / Divulgação
Descrição da foto: Presidente da Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn.
Embora o Rio Grande do Sul tenha fechado o mês de março com saldo positivo em contratações, o desemprego cresceu no País. Foram fechados mais de 43 mil postos de trabalho, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Conforme o IBGE, já são 13,4 mil desempregados. O setor mais afetado foi o comércio. “Se resolvermos a questão fiscal, o Brasil vai ser capaz de atrair muito investimento externo e destravar o investimento doméstico. Isso repercute em crescimento, geração de empregos e renda. Isso é fundamental para o setor de comércio e serviços”, explica o presidente do Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn. Além da desburocratização e da reestruturação da máquina pública, com concessões e privatizações, Bohn acredita que a mudança na Previdência, se já estivesse aprovada, favoreceria o ritmo da economia. “Evitaria uma deterioração das expectativas, como vemos hoje. A confiança é fundamental para determinar contratações e investimento e isso dita o ritmo de crescimento da economia”, analisa.

Cenário mais estável é aguardado

Foto por: Itamar Aguiar / Divulgação
Descrição da foto: Presidente da Federasul, Simone Leite.
Para a presidente da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul), Simone Leite, as expectativas fizeram com que o ano iniciasse bem, mas que crises do próprio governo esfriaram a euforia. “Vimos o ano começando aquecido, mas amornar com crises políticas que o próprio governo cria. Há um projeto da reforma da Previdência que já foi muito modificado. Havia um reajuste mais expressivo do que o do texto que tramita no Congresso”, analisa. Para Simone, ainda existe expectativa de crescimento, mas ele foi postergado. “Havia expectativa do primeiro semestre ter uma retomada. Ainda existe, mas para o segundo semestre e para o ano de 2020”, avalia. A falta de confiança do consumidor e consequente cautela dos empresários são vistas pela presidente como um fator de retenção de dinheiro que poderia estar circulando. “É um círculo virtuoso. Quando se tem mais confiança do mercado se tem mais investimentos. Há muito dinheiro parado esperando um cenário mais estável no País”, diz.

MP e pacote com 50 medidas

Percebendo que a reforma da Previdência não pode ser a única bandeira do setor econômico, Bolsonaro assinou uma medida provisória reduzindo a burocracia e o Ministério da Economia prepara um pacote que pode contar com até 50 medidas. O dia 30 de abril marcou a assinatura da chamada MP da Liberdade Econômica. Ela altera leis sobre pequenos negócios e startups, reduzindo a burocracia. As novas regras já estão em vigor, mas o Congresso tem até 120 dias para aprovar ou não o texto. Caso rejeite, a MP perde seu valor. Já quanto ao pacote que está sendo gestado, as medidas incluem alterações na regulamentação dos setores imobiliário e de crédito, passando por micro e pequenas empresas e produtores rurais. Conforme o Jornal O Globo, uma das medidas seria a criação da “hipoteca reversa”, uma espécie de aluguel sem que o proprietário precise deixar de morar no imóvel. Hoje, a casa ou apartamento pode ser tomado pelo credor em caso de inadimplência. No caso do novo modelo, ainda em estudo, o proprietário poderá oferecer seu imóvel ao banco, que lhe pagará prestações mensais por um período definido. Só apenas após sua morte o banco passa a ser dono do imóvel e pode negociá-lo.

Entenda

Consumidor receoso afeta indústria - Pelo terceiro mês consecutivo, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), medido pela Fundação Getúlio Vargas, caiu. A queda foi de 1,5 ponto de março para abril. No trimestre, a queda acumulada é de 7,1 pontos. E se não há demanda de consumidores, a indústria é afetada. Puxada para baixo pelo ritmo fraco da indústria, a projeção do Produto Interno Bruto (PIB) sofreu a nona queda seguida, indo para 1,70%, demonstrando pessimismo do mercado.

Produção recuou - A produção industrial caiu 1,3% em março na comparação com fevereiro, conforme divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram 6,1% de queda de um mês para outro. No acumulado do ano de 2019, equivalente à variação do primeiro trimestre ante o mesmo período de 2018, a indústria teve redução de 2,2%. Foi a maior queda nessa base de comparação desde o quarto trimestre de 2016, quando a produção industrial encolheu 3,1% na comparação com o mesmo período de 2015.

Confiança do comércio tem baixa - O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec), apurado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), registrou queda de 1,5% em abril passado em relação a março, ficando em 125,2 pontos. Esse resultado ainda está acima da chamada zona de satisfação (100 pontos), mas é menor que os 127,1 pontos do mês de março. Além disso, foi a primeira queda do índice desde agosto do ano passado.

 

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